Jackson Cionek
31 Views

A consciência fala uma língua?

A consciência fala uma língua?

Se representamos para mover e, ao mover, transformamos o corpo que voltará a representar, talvez a consciência comece antes das palavras

Imagine um chef criando um prato que nunca existiu.

Ele possui uma expectativa.

Talvez consiga descrevê-la.

Talvez não.

Começa a cozinhar.

Cheira.

Prova.

Morde.

Para.

Alguma coisa não corresponde ao que esperava.

Talvez o aroma esteja correto, mas a textura não.

Talvez a acidez apareça cedo demais.

Talvez exista equilíbrio no sabor, mas algo no corpo ainda diga:

não é isso.

O chef muda a temperatura.

Acrescenta um ingrediente.

Retira outro.

Experimenta novamente.

Não precisamos imaginar que, durante todo esse processo, exista uma frase sendo narrada dentro de sua cabeça.

Pode haver algo anterior:

“O movimento que estou fazendo não está produzindo aquilo que eu esperava sentir.”

Essa diferença modifica o próximo movimento.

E talvez seja justamente aqui que possamos começar uma pergunta diferente sobre Metacognição.

Não apenas:

“Como pensamos sobre nossos pensamentos?”

Mas:

Como um Corpo-Território percebe aquilo que seu próprio movimento está produzindo e consegue modificar o movimento seguinte?

Para chegar até essa pergunta, precisamos primeiro esclarecer onde esse acontecimento está ocorrendo.


O 3D não é uma representação

Na hipótese Consciência 5D da BrainLatam, o 3D não é um espaço mental abstrato.

Não é uma metáfora.

Não é uma representação matemática do cérebro.

É o espaço tridimensional real ocupado pelo organismo vivo.

Cérebro.

Sangue.

Neurônios.

Vísceras.

Músculos.

Órgãos sensoriais.

Postura.

Respiração.

Metabolismo.

Tudo continua acontecendo dentro da continuidade física de um mesmo corpo.

Podemos medir EEG em uma região.

Atividade muscular em outra.

Frequência cardíaca.

Movimento dos olhos.

Oxigenação cerebral.

Hormônios.

Mas esses são recortes metodológicos.

O método pode recortar. O organismo nunca esteve recortado.

Os próprios Damasio propõem que uma mente consciente depende da produção contínua de sentimentos interoceptivos, da produção de imagens relacionadas ao organismo e ao ambiente e de processos que integram essas informações em uma perspectiva subjetiva. Sua formulação envolve fisiologia periférica e central, da interocepção e exterocepção até vários níveis do sistema nervoso. (PubMed)

BrainLatam dá um passo conceitual próprio:

A consciência não acontece em um cérebro que carrega um corpo. Ela acontece em um corpo vivo que possui cérebro.


Representações são configurações dinâmicas desse organismo

Então precisamos fazer outra distinção.

3D não é a representação.

3D é a condição física na qual qualquer representação pode acontecer.

Aquilo que chamamos de representação corresponde, em nossa hipótese, a configurações dinâmicas desse organismo tridimensional.

Um cheiro pode recrutar uma configuração.

Uma música, outra.

Uma palavra.

Uma postura.

Uma memória.

Uma sensação visceral.

O movimento de outra pessoa.

Essas configurações podem recrutar diferentes áreas, frequências e redes neurais.

Mas continuam acontecendo no mesmo organismo com sangue, músculos, vísceras, sentidos e cérebro.

E existe algo ainda mais importante:

a representação não apenas descreve aquilo que está acontecendo. Ela pode participar daquilo que o organismo fará em seguida.

É aí que representação encontra movimento.


Representamos para mover

Volte ao conjunto cavalo-cavaleiro.

O cavaleiro sente o ritmo do cavalo.

Sua tensão.

Direção.

Velocidade.

Pequenas alterações posturais.

Essas informações participam da construção de uma representação dinâmica:

este cavalo, neste momento, em relação a mim.

Essa representação modifica o corpo do cavaleiro.

Muda sua postura.

Pelve.

Peso.

Mãos.

Tônus.

Timing.

O cavalo percebe essas mudanças.

Responde.

Mas agora o cavalo já não é exatamente o mesmo que produziu a representação anterior.

Sua resposta produz novas informações.

O cavaleiro precisa representar novamente.

Temos:

percepção → representação → movimento → transformação da relação → nova percepção → nova representação.

Isso revela uma propriedade central:

Representamos para mover; ao mover, transformamos o corpo — e o território — que voltarão a ser representados.

A representação modifica o sistema.

E o sistema modificado produzirá a próxima representação.


O chef também transforma o corpo que percebe

Agora retornemos à cozinha.

Aquilo que chamamos de flavor já é uma experiência multissensorial: gosto e olfato interagem intensamente, e textura, temperatura e informações somatossensoriais também participam da experiência alimentar. (PubMed)

O chef experiente não apenas possui mais receitas.

Anos de provar, comparar, errar e corrigir transformaram aquilo que ele consegue distinguir.

Uma diferença de aroma que para outra pessoa passa despercebida pode mudar seu próximo movimento.

Isso significa que a experiência não apenas acrescentou respostas ao repertório.

Ela modificou o sistema que percebe diferenças.

O mesmo acontece com o pianista.

Com o atleta.

Com o cavaleiro.

Com o dançarino.

A prática não apenas ensina novos movimentos a um corpo que permanece igual.

Ela transforma o corpo que perceberá quais movimentos existem depois.

Aqui reencontramos APUS.


O possível depende também de quem consegue percebê-lo

Duas pessoas podem estar diante da mesma situação física e não perceber as mesmas possibilidades.

Um chef vê possibilidades em ingredientes.

Um músico, em uma sequência sonora.

Um cavaleiro experiente, em pequenas mudanças no corpo do cavalo.

Um dançarino, em relações entre equilíbrio, articulação e espaço que talvez outra pessoa nem consiga imaginar.

Na hipótese BrainLatam:

APUS é o campo de movimentos percebidos como possíveis por um Corpo-Território naquele momento.

Mas agora podemos acrescentar:

o APUS depende da história do próprio sistema que percebe.

Um movimento pode existir fisicamente e ainda não existir para mim como possibilidade.

Depois de aprendizagem, experiência ou encontro com outro Corpo-Território, ele pode aparecer.

O mundo não mudou necessariamente.

Mudou o corpo capaz de representá-lo.


E se a Metacognição começar aí?

Talvez Metacognição não precise começar com:

“Estou pensando sobre meu pensamento.”

Há evidência de monitoramento metacognitivo antes da capacidade de produzir relatos verbais complexos. Bebês de 12 e 18 meses mostraram sinais comportamentais de monitoramento da confiança e conseguiram usar essa informação para manter ou modificar uma decisão; o estudo também encontrou uma resposta eletrofisiológica relacionada ao monitoramento de erro. (PubMed)

Também sabemos que julgamentos de confiança podem incorporar informação proveniente do próprio movimento. Um estudo de 2025 mostrou interação entre evidência motora e visual na construção da confiança sensorimotora. (PubMed)

E a Metacognição pode ser investigada em outros domínios sensoriais, inclusive no olfato, comparando desempenho, confiança e insight sobre a própria precisão. (PubMed)

Isso não significa:

cheirar = Metacognição.

Nem:

movimentar-se = Metacognição.

BrainLatam propõe algo mais preciso:

Metacognição 5D pode começar quando o Corpo-Território incorpora informação sobre a diferença entre aquilo que seu movimento produziu e aquilo que esperava sentir, utilizando essa diferença para reorganizar o próximo movimento.

O chef prova.

Não corresponde.

Muda.

O músico toca.

Escuta.

Corrige.

O dançarino desloca o peso.

Sente o equilíbrio escapar.

Reorganiza o corpo.

Existe monitoramento.

Existe comparação.

Existe atualização.

As palavras podem vir depois.


“Algo não encaixa” pode chegar antes de “estou errado”

Aqui encontramos novamente nosso Blog sobre confusão.

Uma incongruência não precisa chegar como argumento verbal.

Pode chegar como:

um cheiro inesperado;

uma tensão corporal;

um movimento observado;

uma nota musical;

uma expressão no rosto de outra pessoa;

uma sensação visceral;

uma textura.

Primeiro:

algo não encaixa.

Depois, talvez:

“estou errado.”

Ou:

“preciso mudar.”

Ou talvez nunca exista uma frase completa.

Há apenas um movimento diferente.

Isso abre uma possibilidade importante:

Metacognição pode ser menos uma voz que observa o pensamento e mais uma propriedade recursiva de um organismo capaz de sentir as consequências de seus próprios movimentos.

Essa é uma hipótese BrainLatam.


E então a linguagem muda de lugar

Se Metacognição pode começar antes da palavra, isso não diminui a importância da linguagem.

Ao contrário.

Torna a linguagem ainda mais interessante.

Porque agora podemos perguntar:

O que uma palavra consegue fazer com um organismo que já percebe, sente, lembra e se movimenta?

Uma palavra pode recrutar memórias.

Mudar atenção.

Reorganizar relações.

Estabilizar uma categoria.

Abrir uma comparação.

Transmitir uma experiência para outro Corpo-Território.

Pense novamente em:

fracasso.

Uma história incorporada pode organizar:

fracasso → vergonha → ameaça → esconder.

Outra reorganização semântica pode produzir:

fracasso → diferença entre esperado e obtido → informação → atualizar.

A palavra continua igual.

Mas os próximos movimentos possíveis mudaram.

Então:

a linguagem pode funcionar como tecnologia de reorganização das configurações representativas do Corpo-Território.

Ela não precisa criar a consciência para conseguir transformá-la.


E uma língua não precisa ser falada

É aqui que as comunidades Surdas se tornam fundamentais para a própria teoria.

Uma língua de sinais não é uma versão empobrecida de uma língua oral.

É uma língua humana estruturada em uma modalidade visuoespacial.

Movimento das mãos.

Configuração.

Posição.

Corpo.

Expressão facial.

Espaço.

Um estudo de 2025 com adultos Surdos usuários da Língua Italiana de Sinais mostrou que esforço percebido, confiança e sensação de compreensão durante narrativas sinalizadas podiam ser investigados metacognitivamente e eram relacionados à proficiência linguística. (PubMed)

Isso destrói uma pergunta mal formulada:

“Como uma pessoa Surda consegue pensar sem palavras faladas?”

Não precisamos dela.

A questão correta é:

Por quais configurações corporais e modalidades um Corpo-Território consegue representar e monitorar seus próprios movimentos?

Na América Latina isso significa levar a sério Libras, Língua de Sinais Chilena e as demais comunidades Surdas em seus territórios específicos.

Não como exceções.

Mas como oportunidades científicas para compreender melhor o próprio fenômeno da consciência.


A biologia cria condições; o território transforma o sistema

Não começamos do zero.

Existe uma história biológica.

Um organismo humano chega ao mundo com determinada arquitetura sensorial, motora, interoceptiva e neural.

Mas esse organismo encontra um território.

Língua.

Comida.

Cheiros.

Música.

Clima.

Gestos.

Perigos.

Afetos.

Tecnologias.

Outros corpos.

E cada encontro pode modificar aquilo que será representado depois.

Esse é um ponto central:

o Corpo-Território não recebe cultura permanecendo biologicamente intacto como um recipiente. A experiência participa da transformação do próprio sistema que continuará percebendo.

Tekoha pode então ser pensado, na extensão BrainLatam, não como um território guardado dentro do cérebro, mas como:

a capacidade de territórios anteriormente vividos continuarem participando das configurações atuais do organismo.

Um cheiro pode fazer um território ausente voltar a participar do corpo presente.

Uma música também.

Uma palavra.

Um gesto.

Uma comida.


E as línguas ameríndias?

Agora podemos chegar a elas sem determinismo linguístico.

Mbyá Guaraní, por exemplo, apresenta sistemas de marcação gramatical com padrões ativo-inativos e hierárquicos que diferem de estruturas mais familiares a falantes de português ou espanhol. Estudos linguísticos recentes descrevem, entre outros fenômenos, diferenças na marcação de sujeitos e objetos e na organização da referência pessoal. (MDPI)

Isso não demonstra que um falante de Mbyá Guaraní tenha “outra consciência”.

Seria um salto indevido.

Mas permite uma pergunta científica muito mais interessante:

se uma língua torna determinadas relações entre pessoa, agência, ação e afetação mais recorrentes em sua própria estrutura, essas regularidades podem participar das trajetórias representativas recrutadas durante a interpretação?

Não:

língua determina consciência.

Mas:

Corpo-Território + língua + memória + atenção + história podem participar daquilo que passa a ser mais facilmente representado e percebido como possível.


Onde termina a ciência e começa a BrainLatam

A literatura científica sustenta que consciência envolve interações entre sentimentos do organismo, imagens e perspectiva subjetiva. (PubMed)

Há evidência de monitoramento metacognitivo antes do relato verbal explícito. (PubMed)

Existem formas de confiança metacognitiva associadas a informação motora e olfativa. (PubMed)

E pessoas Surdas podem monitorar confiança, esforço e compreensão em uma língua visuoespacial. (PubMed)

A linguística também mostra enorme diversidade na maneira como línguas humanas organizam gramaticalmente relações entre participantes e ações. (MDPI)

Esses trabalhos não demonstram a Consciência 5D.

Não demonstram APUS.

Não demonstram Tekoha.

A partir daqui:

BrainLatam.

Nossa hipótese é que o 3D corresponde ao corpo físico contínuo dentro do qual toda representação humana acontece.

As representações são configurações dinâmicas desse organismo.

Elas participam dos movimentos.

Os movimentos modificam o organismo e o território.

E o sistema modificado produz novas representações.

Por isso:

Representamos para mover; ao mover, transformamos o corpo que voltará a representar.

Nesse processo, Metacognição talvez não precise começar como palavra.

Talvez possa começar quando surge uma diferença:

“O movimento que estou fazendo não está produzindo aquilo que eu esperava sentir.”

A linguagem pode então nomear essa diferença.

Compartilhá-la.

Estabilizá-la.

Questioná-la.

Ou criar novas relações semânticas que façam aparecer movimentos anteriormente invisíveis ao APUS.

Talvez, portanto, a pergunta do título precise permanecer aberta.

A consciência fala uma língua?

Talvez algumas vezes.

Mas antes de falar, ela já pode:

sentir.

representar.

mover.

comparar.

errar.

reorganizar-se.

E talvez as palavras sejam uma das tecnologias extraordinárias pelas quais um Corpo-Território aprende a transformar aquilo que poderá representar depois.

Neuro Desafio Latam

Pense na última vez em que algo fez você mudar profundamente de ideia.

A mudança começou quando você encontrou novas palavras — ou seu Corpo-Território já havia mudado a forma de representar o problema antes de você conseguir dizer o que estava acontecendo?


Referências científicas

Damasio, A., & Damasio, H. (2024). Homeostatic Feelings and the Emergence of Consciousness. Journal of Cognitive Neuroscience, 36(8), 1653–1659. DOI: 10.1162/jocn_a_02119.

Goupil, L., & Kouider, S. (2016). Behavioral and Neural Indices of Metacognitive Sensitivity in Preverbal Infants. Current Biology, 26(22), 3038–3045. DOI: 10.1016/j.cub.2016.09.004.

Culot, C., Notebaert, W., & Gevers, W. (2025). Metacognition in motion: The interplay between motor evidence and visual information in shaping sensorimotor confidence. Cortex, 189, 35–49. DOI: 10.1016/j.cortex.2025.05.004.

Longley, B. F., Hsiao, M. H., Smith, B. C., & Garfinkel, S. N. (2025). Investigating the Correspondence between Accuracy, Confidence, and Metacognitive Insight for Olfactory Processing. Multisensory Research, 39(3–5), 445–469. DOI: 10.1163/22134808-bja10174.

Gianfreda, G. et al. (2025). The impact of face masks on metacognition in sign language is mediated by proficiency. Cognitive Processing. DOI: 10.1007/s10339-024-01254-5.

Wallace, M. T. (2015). Multisensory Perception: The Building of Flavor Representations. Current Biology, 25(20), R986–R988. DOI: 10.1016/j.cub.2015.09.009.

Thomas, G., Duarte, G., & Ismael, A. (2025). Case-Dependent Agreement in an Active–Stative Language. Languages, 10(9), 221. DOI: 10.3390/languages10090221.






#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States