Jackson Cionek
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Antes da Tela, o Corpo: Jiwasa, Brincar e Neurociência Decolonial da Infância

Antes da Tela, o Corpo: Jiwasa, Brincar e Neurociência Decolonial da Infância

Do Corpo ao Brain Bee: Neurociência Decolonial para Adolescentes da América Latina

Antes de falarmos da tela, talvez a gente precise voltar para uma cena muito simples.

Uma criança pequena olha para alguém.
Alguém olha de volta.
Ela balbucia.
Alguém responde.
Ela aponta.
Alguém acompanha o gesto.
Ela cai.
Alguém espera, ajuda ou apenas fica por perto.
Ela tenta de novo.

É aí que a infância começa a pensar.

Não começa no aplicativo.
Não começa no vídeo educativo.
Não começa na promessa de que a criança “vai aprender mais rápido” porque está diante de muitos estímulos.

Começa no corpo.
No rosto.
Na voz.
No chão.
No colo.
Na espera.
Na brincadeira.
Na resposta do outro.

E talvez seja por isso que este primeiro blog do bloco precise começar com uma frase que a gente vai repetir muitas vezes:

Jiwasa: ninguém se regula sozinho o tempo todo.

A Revista Yvirá, ligada à Cátedra UNESCO de Ciência para Educação, publicou um texto importante sobre a primeira infância na era digital, chamando atenção para a necessidade de uso consciente, mediado e equilibrado das telas, sem perder o brincar presencial, as interações sociais e os vínculos humanos. (Yvirá)

A nossa pergunta BrainLatam2026 nasce exatamente aqui:
o que acontece quando uma infância inteira começa a ser regulada mais por telas do que por corpos presentes?

Não precisamos responder isso com culpa.
Nem com moralismo.
Nem colocando pais, mães, professores e cuidadores como inimigos.

A pergunta é maior.

Que mundo estamos oferecendo para a criança sentir?
Que tipo de território ela toca?
Que tipo de rosto responde ao seu rosto?
Que tipo de tempo deixamos para ela errar, repetir, cair, rir, esperar e brincar?

A tela não é só uma tela: ela ocupa um lugar no corpo

Quando uma criança está diante de uma tela, não está apenas “vendo conteúdo”.

Ela está deixando de olhar para outra coisa.
De escutar outra voz.
De tocar outro material.
De negociar com outra criança.
De esperar a vez.
De se frustrar com um brinquedo real.
De inventar uma regra.
De entrar em uma conversa que não estava pronta.

Esse talvez seja o ponto mais delicado.

O problema não é somente contar minutos de tela.
A pergunta mais profunda é:

o que a tela está substituindo naquele momento?

Está substituindo conversa?
Está substituindo sono?
Está substituindo colo?
Está substituindo comida compartilhada?
Está substituindo rua, quintal, praça, roda, dança, corpo, bagunça, silêncio?

Um estudo publicado na JAMA Pediatrics em 2024 acompanhou crianças de 12 a 36 meses e encontrou uma associação negativa entre tempo de tela e conversas entre pais e filhos: quanto maior o tempo de tela, menores foram as medidas de palavras adultas ouvidas, vocalizações infantis e turnos de conversa entre adulto e criança. (JAMA Network)

A gente pode ler esse dado de um modo simples: quando a tela entra demais, a conversa pode sair.

Mas, na nossa linguagem, existe algo ainda mais profundo: quando a conversa sai, o Jiwasa enfraquece.

Porque a criança não aprende linguagem como quem baixa um arquivo.
Ela aprende linguagem como quem entra em um campo vivo de presença.

Alguém fala.
Ela sente.
Ela tenta.
Alguém responde.
Ela ajusta.
Alguém sorri.
Ela repete.
Alguém estranha.
Ela muda.

É assim que o cérebro vai descobrindo que existir é participar.

Brincar é uma forma de ciência antes da ciência

Talvez a gente tenha se acostumado a tratar o brincar como intervalo.

A criança estuda, depois brinca.
A criança aprende, depois brinca.
A criança “faz algo sério”, depois brinca.

Mas e se a gente inverter isso?

E se brincar for uma das primeiras formas de pesquisa?

Quando uma criança empilha objetos, ela está testando gravidade, força, equilíbrio e frustração.
Quando corre atrás de outra criança, ela está testando distância, velocidade, intenção e limite.
Quando inventa uma história, ela está testando memória, imaginação, linguagem e emoção.
Quando espera a vez, ela está testando autorregulação.
Quando perde uma brincadeira, ela está testando o próprio corpo diante da frustração.

Brincar é laboratório.
Só que não parece laboratório porque não tem jaleco.

Um estudo de 2022 sobre salas de educação infantil baseadas em brincadeiras observou estratégias usadas por professores para apoiar a autorregulação das crianças em contextos de brincar, mostrando que o jogo e a mediação adulta podem participar do desenvolvimento regulatório. (ScienceDirect)

Uma revisão sistemática de 2025 sobre autorregulação emocional na pré-escola também reforça que a educação infantil é fundamentalmente relacional: a autorregulação emocional das crianças se desenvolve dentro de interações, vínculos e ambientes educativos que sustentam o desenvolvimento social e acadêmico. (MDPI)

Aqui a gente pode respirar um pouco e perceber:

autorregulação não nasce isolada.
Ela nasce como co-regulação.

Primeiro alguém regula junto.
Depois a criança começa a levar esse ritmo para dentro.

Primeiro alguém ajuda a esperar.
Depois a criança aprende a esperar.

Primeiro alguém nomeia o susto.
Depois a criança começa a reconhecer o susto.

Primeiro alguém segura o tempo.
Depois a criança começa a sentir o próprio tempo.

É por isso que Jiwasa não é apenas uma ideia bonita.
É uma chave para pensar infância, escola, família, neurociência e política pública.

Zona 2: quando o corpo pode aprender sem se defender o tempo todo

A criança não precisa de um mundo perfeito para se desenvolver.

Ela precisa de um mundo suficientemente seguro para poder explorar.

Esse ponto é importante: segurança não é ausência de desafio.
Segurança é a possibilidade de tentar sem ser destruído pelo erro.

Na linguagem BrainLatam2026, chamamos isso de Zona 2.

Zona 2 é quando o corpo pode ficar curioso.
Pode errar.
Pode voltar.
Pode tentar de novo.
Pode brincar sem estar o tempo todo em alerta.

Quando a criança está em Zona 2, ela não precisa gastar toda a energia se defendendo.
Sobra energia para linguagem, vínculo, imaginação, gesto, atenção e aprendizagem.

O UNICEF afirma que as experiências desde o nascimento até a entrada na escola têm impacto profundo no desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social, com destaque para os primeiros 1.000 dias como período sensível para o crescimento e o desenvolvimento cerebral. (UNICEF)

Se a gente leva isso a sério, a primeira infância deixa de ser um assunto privado da família e passa a ser também um tema de Estado, cidade, escola, território e futuro.

Não basta dizer para a família “reduza telas”.
A gente precisa perguntar:

Há praça segura?
Há escola com tempo de brincar?
Há adulto menos exausto?
Há alimentação?
Há vínculo comunitário?
Há política pública que permita presença?

Sem isso, a crítica à tela vira uma crítica injusta a quem já está sobrecarregado.

A Neurociência Decolonial precisa evitar essa armadilha.
Não se trata de culpar a mãe cansada, o pai trabalhando, a professora sozinha, a avó que cuida de todos, ou a família que usa a tela para sobreviver ao dia.

A pergunta é sistêmica:

por que criamos uma sociedade em que a tela virou cuidadora substituta de tantas infâncias?

APUS: o território também educa

Uma criança não se desenvolve apenas dentro do cérebro.

Ela se desenvolve no chão onde pisa.
Na casa onde circula.
Na escola onde brinca.
Na rua que pode ou não atravessar.
Na praça que existe ou não existe.
No calor, no barulho, na violência, no cuidado, na árvore, no cimento, na água, na comida.

Isso é APUS: corpo-território, propriocepção estendida, a percepção de que o corpo não termina na pele.

Quando a criança corre, pula, cai, dança, sobe, agacha, empurra, puxa, abraça, se esconde e aparece, ela está formando mapas corporais do mundo. Ela está aprendendo distância, peso, textura, ritmo, perigo, confiança e possibilidade.

Quando a infância fica reduzida demais à tela, o APUS estreita.

O olho recebe muito.
O dedo desliza muito.
Mas o corpo inteiro experimenta pouco.

E talvez a gente precise dizer isso com cuidado:

a tela pode mostrar o mundo,
mas ela não substitui o mundo.

Ela pode mostrar uma árvore,
mas não substitui subir, tocar, cheirar, sentir medo, equilibrar o pé e olhar de cima.

Ela pode mostrar uma roda,
mas não substitui o corpo esperando o ritmo do outro.

Ela pode mostrar uma dança,
mas não substitui a vergonha, o riso, a tentativa e a descoberta de que o corpo também pensa.

A infância sequestrada pelo algoritmo

Aqui entramos em um ponto mais político.

As telas não são apenas ferramentas neutras.
Muitas plataformas digitais são desenhadas para capturar atenção, prolongar permanência e transformar comportamento em dado.

Para um adulto isso já é difícil.
Para uma criança pequena, que ainda está formando autorregulação, linguagem e vínculo, é ainda mais delicado.

Uma revisão de escopo publicada em 2025 na Frontiers in Developmental Psychology analisou estudos sobre crianças de 0 a 36 meses e reforçou que os efeitos do tempo de tela no desenvolvimento precisam ser pensados com nuance, considerando idade, contexto, conteúdo, características da criança e mediação adulta. (Frontiers)

Essa nuance é importante.

A gente não precisa cair em dois extremos:

“toda tela destrói”
ou
“toda tecnologia é inevitável e pronto”.

A posição mais madura é outra:

a tecnologia precisa entrar depois do corpo, não no lugar do corpo.

Primeiro o rosto.
Primeiro o chão.
Primeiro a mão.
Primeiro o brincar.
Primeiro o vínculo.
Primeiro o território.

Depois, sim, a tecnologia pode ser mediada, conversada, compreendida, usada como ferramenta.

Mas quando a tela chega antes da presença, antes da linguagem viva, antes da brincadeira corporal, antes da autorregulação compartilhada, ela pode reorganizar a infância em torno da captura.

E aqui a Neurociência Decolonial precisa ser firme:

não queremos crianças contra tecnologia.
Queremos crianças que não sejam governadas por algoritmos antes de aprenderem a sentir o próprio corpo.

A pergunta que a gente pode levar para o Brain Bee

Se um adolescente lê este texto e se interessa por neurociência, talvez ele possa perceber algo bonito:

o Brain Bee não precisa começar com uma pergunta distante da vida.

Pode começar assim:

por que uma criança aprende melhor quando alguém olha de volta?
como o brincar regula o corpo?
o que acontece no cérebro quando uma criança espera a vez?
como a tela muda a conversa entre adultos e crianças?
como o território participa da atenção?

Essas perguntas já são neurociência.

A gente poderia imaginar um estudo BrainLatam2026 comparando três situações:

uma criança brincando livremente com outra criança;
uma criança brincando com mediação de um adulto;
uma criança assistindo a uma tela de forma passiva.

A pergunta não seria apenas “qual atividade ensina mais?”.
A pergunta seria:

em qual situação aparece mais Jiwasa?

Poderíamos observar turnos de conversa, gestos, olhar compartilhado, espera, iniciativa, frustração e retorno à calma. Em pesquisas futuras, também poderíamos usar EEG, fNIRS, eye-tracking, respiração, GSR e HRV/RMSSD para investigar atenção, co-regulação e sinais autonômicos em contextos naturais de brincar.

A hipótese BrainLatam2026 seria simples:

quando existe corpo presente, resposta humana e território compartilhado, a criança tem mais chance de entrar em Zona 2.

E Zona 2 é onde a curiosidade respira.

DREX Cidadão: infância como metabolismo do Estado

Se cada criança é uma unidade viva do Estado, cuidar da primeira infância não pode depender apenas da sorte de nascer em uma família com tempo, renda, praça, escola boa e adulto disponível.

Aqui entra o DREX Cidadão como metáfora e proposta de metabolismo público.

Assim como uma célula precisa de energia para participar do corpo, uma criança precisa de condições materiais e afetivas para participar da sociedade.

Isso inclui alimento, escola, vínculo, segurança, território, cultura, brincadeira, saúde, presença e proteção contra a captura precoce da atenção.

Não é assistencialismo.
É inteligência sistêmica.

Uma sociedade que cuida da primeira infância reduz sofrimento futuro.
Reduz violência futura.
Reduz fracasso escolar futuro.
Reduz captura algorítmica futura.

E mais do que reduzir danos, ela aumenta possibilidade.

A criança que brinca pode virar adolescente curioso.
O adolescente curioso pode encontrar o Brain Bee.
O Brain Bee pode abrir caminho para pesquisa.
A pesquisa pode devolver ao território uma ciência mais justa, mais corporal, mais latino-americana.

Fechamento: talvez a gente esteja apenas lembrando

Talvez este texto não esteja dizendo algo totalmente novo.

Talvez ele esteja apenas lembrando algo que o corpo já sabe.

Antes da tela, houve o rosto.
Antes do conteúdo, houve a presença.
Antes do desempenho, houve o brincar.
Antes da palavra, houve o gesto.
Antes da ciência, houve a curiosidade.
Antes do Brain Bee, houve uma criança tentando entender o mundo com o corpo inteiro.

A Neurociência Decolonial da infância começa quando a gente devolve à criança o direito de sentir o mundo antes de ser capturada por ele.

E se a gente escutar com calma, talvez a frase volte de novo:

Jiwasa: ninguém se regula sozinho o tempo todo.

Nem a criança.
Nem o adolescente.
Nem o professor.
Nem a família.
Nem a sociedade.

A gente aprende junto.
A gente se regula junto.
A gente pensa junto.

E talvez seja assim que uma nova geração latino-americana possa chegar à neurociência: não fugindo do corpo, mas começando por ele.


Referências pós-2021

Brushe, M. E. et al. (2024). Screen Time and Parent-Child Talk When Children Are Aged 12 to 36 Months. JAMA Pediatrics. (JAMA Network)

Takahashi, I. et al. (2023). Screen Time Exposure at Age 1 Year and Developmental Delay at Ages 2 and 4 Years. JAMA Pediatrics. (Parents)

Sticca, F.; Brauchli, V.; Lannen, P. (2025). Screen on = development off? A systematic scoping review and a developmental psychology perspective on the effects of screen time on early childhood development. Frontiers in Developmental Psychology. (Frontiers)

Pyle, A. et al. (2022). Supporting children’s self-regulation development in play-based kindergarten classrooms. International Journal of Educational Research. (ScienceDirect)

Nilfyr, K.; Plantin Ewe, L. (2025). Thriving Children’s Emotional Self-Regulation in Preschool: A Systematic Review Discussed from an Interactionist Perspective. Education Sciences. (MDPI)

UNICEF. (2023). Early Childhood Development: UNICEF Vision for Every Child. (UNICEF)

Linhares, M. B. M.; Branco, M. S. S.; Souza, M. T. C. C. A primeira infância na era digital. Revista Yvirá / Cátedra UNESCO de Ciência para Educação. (Yvirá)

Tema organizado a partir do bloco BrainLatam2026 sobre telas, primeira infância, brincar presencial, vínculos, autorregulação, Jiwasa, QSH, Zona 2 e crítica à infância sequestrada por algoritmos.





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Jackson Cionek

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