Antes das palavras, existe o corpo
Antes das palavras, existe o corpo
Você não precisa explicar tudo o que sente para estar bem.
Vivemos em um mundo que pede explicações o tempo todo.
“Por que você está assim?”
“O que você está sentindo?”
“Coloca em palavras.”
Desde cedo aprendemos que, se algo não pode ser explicado, então não está resolvido.
Mas o corpo não funciona desse jeito.
Antes de qualquer palavra, existe uma sensação.
Antes de qualquer narrativa, existe um estado corporal.
E antes de qualquer explicação, existe a vida acontecendo.
Talvez o sofrimento de muita gente hoje não venha do que sente —
mas da tentativa constante de explicar o que sente.
Emoção curta × sentimento estável
Uma das maiores confusões que fazemos é tratar emoção e sentimento como a mesma coisa.
Eles não são.
Emoções são rápidas, curtas, intensas.
Surgem, cumprem uma função e deveriam ir embora.Sentimentos são estados mais estáveis, duradouros, silenciosos.
Eles refletem como o corpo está regulado ao longo do tempo.
Quando uma emoção curta não encontra espaço para se dissipar, ela se cristaliza.
E quando isso acontece, o corpo entra em tensão.
O problema não é sentir raiva, medo, tristeza ou excitação.
O problema é transformar cada emoção em uma identidade.
“Eu sou ansioso.”
“Eu sou assim mesmo.”
“Esse é o meu jeito.”
Nesse momento, a palavra deixa de expressar o corpo
e começa a governá-lo.
Iam: quando o sentir vira narrativa fixa
O avatar Iam representa os estados afetivos, os vínculos e os sentimentos que moldam nossas decisões.
Iam nos ajuda a perceber algo fundamental:
sentir é natural; se definir pelo que se sente é que cria sofrimento.
Quando damos nome demais às emoções, começamos a nos observar como personagens.
Passamos a viver menos o corpo e mais a história que contamos sobre ele.
Isso cria um ciclo perigoso:
sinto algo
explico demais
me identifico com a explicação
passo a sentir o que a explicação permite
Aos poucos, o corpo perde espaço.
A narrativa assume o controle.
Adolescência: a armadilha de “sentir errado”
Na adolescência, essa confusão fica ainda mais forte.
O corpo muda rápido.
O cérebro ainda está se organizando.
As emoções aparecem com intensidade.
E, ao mesmo tempo, surge uma pressão enorme para:
se entender
se definir
se explicar
Muitos adolescentes não sofrem porque sentem demais.
Sofrem porque acham que estão sentindo errado.
Sentir vira um problema a ser corrigido.
Em vez de escutar o corpo, tenta-se ajustá-lo a um padrão emocional aceitável.
O resultado é um corpo em alerta permanente, tentando se encaixar.
O excesso de rótulos cria sofrimento
Rótulos podem ajudar a comunicar experiências.
Mas quando usados em excesso, eles reduzem a vida.
Um rótulo nunca descreve o corpo inteiro.
Ele captura apenas um recorte.
Quando o rótulo vira identidade:
o corpo se fecha
a percepção se estreita
a curiosidade diminui
A pessoa deixa de perguntar “o que está acontecendo comigo agora?”
e passa a repetir “eu sou assim”.
Isso não traz clareza.
Traz rigidez.
Yagé: perceber sem ficar preso ao que percebe
Aqui entra o avatar Yagé, que representa a metacognição aplicada —
a capacidade de perceber a própria percepção.
Yagé não pede análise profunda.
Ele pede algo mais simples:
perceber sem julgar.
Isso muda tudo.
Quando você percebe um estado corporal sem tentar explicá-lo, ele se reorganiza mais rápido.
Quando você observa uma emoção sem dar nome imediato, ela cumpre sua função e vai embora.
Yagé ajuda a sair de dois extremos:
negar o que sente
se afogar no que sente
O caminho do meio é a presença.
O corpo não precisa de explicação para se regular
Um erro comum é achar que só ficamos bem depois de entender tudo.
Mas o corpo não espera compreensão.
Ele responde a:
ritmo
respiração
postura
ambiente
segurança
A mente aprende depois.
Quando tentamos resolver tudo pela palavra, ignoramos o básico:
o corpo se regula por experiência, não por argumento.
Metacognição simples: perceber sem julgar
Metacognição não é pensar mais.
É pensar melhor — ou, às vezes, não pensar.
Um exercício simples:
sentir o corpo
notar a respiração
perceber a emoção
não dar nome por alguns segundos
Isso não é meditação formal.
É pausa biológica.
Nesse espaço sem rótulo, o corpo volta a conversar consigo mesmo.
Um caminho simples para o agora
Sem técnicas complexas. Sem autoanálise infinita.
Algumas perguntas silenciosas:
Onde isso aparece no meu corpo?
Está mudando ou está parado?
Precisa de explicação ou de tempo?
Pequenas atitudes:
diminuir estímulo quando a emoção sobe
mover o corpo em vez de explicar
respirar antes de responder
aceitar que nem tudo precisa virar palavra
Isso não apaga sentimentos.
Isso organiza sentimentos.
O ponto central
Palavras são ferramentas poderosas.
Mas elas não são a origem da vida.
Quando a palavra governa o corpo, o corpo sofre.
Quando a palavra expressa o corpo, a vida flui.
Você não precisa explicar tudo o que sente para estar bem.
Às vezes, basta sentir e deixar passar.
Ou, em uma frase para guardar:
Antes das palavras, existe o corpo.
E quando o corpo é ouvido,
a mente encontra descanso.
eferências científicas pós-2020::
Balconi, Angioletti et al. (2024) — Inter-brain entrainment (IBE) during interoception: A multimodal EEG-fNIRS coherence-based hyperscanning approach — Estudo que combina EEG e fNIRS em registros hiperscanning para mostrar como atenção interoceptiva (foco na respiração) influencia coerência neural entre indivíduos durante sincronização motora, com efeitos significativos em bandas de frequência e hemodinâmica cerebral.
Chen, Liu & Zhang (2024) — EEG–fNIRS-Based Emotion Recognition Using Graph Convolution and Capsule Attention Network — Pesquisa que demonstra como EEG e fNIRS juntos podem refletir estados emocionais de forma objetiva e com alta resolução, reforçando que medidas neurais multimodais capturam processos afetivos correlacionados com bem-estar.
Zelič et al. (2025) — Emotion regulation: The role of hypnotizability and interoception — Estudo que examina como diferenças individuais na interocepção (precisão e sensibilidade) estão associadas a estratégias de regulação emocional como reavaliação cognitiva e supressão expressiva, destacando a relação entre interocepção e regulação afetiva.
Rusínova et al. (2025, preprint) — Interoceptive training enhances emotional awareness and body image perception — Pesquisa que mostra que treinamento interoceptivo guiado por biofeedback melhora precisão interoceptiva e consciência emocional, com impacto positivo em bem-estar psicológico, evidenciando o papel direto de sinais corporais.
Lopez-Martín et al. (2025) — Interoceptive rhythms and perceptual experience — Revisão recente que destaca como ritmos interoceptivos (cárdico, respiratório, gástrico) modulam percepção e experiências sensório-cognitivas, reforçando o papel contínuo dos sinais internos no processamento cognitivo e afetivo.
Como essas referências sustentam cientificamente os temas do blog
Interocepção está ligada à emoção e à regulação afetiva — Zelič et al. mostram associações entre precisão/sensibilidade interoceptiva e estratégias de regulação emocional.
EEG e fNIRS demonstram neuralmente estados afetivos e atenção interna — Estudos como o de Chen et al. usam EEG-fNIRS para mapear estados emocionais, reforçando que as medidas neurais capturam processos afetivos além de relatos subjetivos.
Atenção interoceptiva modula sincronização neural entre pessoas — O trabalho de Balconi et al. com EEG-fNIRS hiperscanning mostra que foco em sinais corporais (respiração) influencia coerência neural, conectando interocepção e estados sociais/afetivos.
Treinar interocepção altera regulação emocional e autoconsciência — Rusínova et al. encontram evidência de que programas de treinamento interoceptivo melhoram consciência emocional e percepção corporal, sugerindo caminhos práticos para bem-estar.
Ritmos internos moldam percepção geral — A revisão de Lopez-Martín et al. demonstra que ritmos interoceptivos influenciam a experiência perceptiva e cognitiva de forma contínua, implicando regulação corporal como base de experiências estáveis.