Jackson Cionek
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Antes de votar, precisamos aprender a fazer perguntas?

Antes de votar, precisamos aprender a fazer perguntas?

Quando as palavras começam a prender

Série Especial BrainLatam — SBNeC 2026

Uma pergunta comum nas pesquisas eleitorais brasileiras é:

“Em quem você não votaria de jeito nenhum?”

Ela é útil para medir rejeição.

Mas existe outra pergunta que quase não fazemos:

Quem você acredita que pode melhorar sua vida e o lugar onde você vive?

As duas perguntas falam sobre eleição.

Mas talvez coloquem o Corpo-Território diante de estados diferentes.

Uma começa pelaquilo que queremos impedir.

A outra exige representar aquilo que ainda poderia melhorar.

A BrainLatam chama essa segunda possibilidade de Fruição.

Uma pergunta também seleciona aquilo que percebemos

Pergunte:

“Do que você tem medo nesta cidade?”

Algumas memórias aparecerão.

Pergunte:

“O que você gosta de fazer nesta cidade?”

outras aparecerão.

A cidade é a mesma.

Mas a pergunta selecionou outra parte da experiência.

Isso também acontece na ciência.

Aprender ciência não é apenas memorizar que determinada região cerebral participa da memória ou da tomada de decisão.

É aprender a perguntar:

Como sabemos?

Quem foi estudado?

Qual foi a amostra?

O que foi medido?

Quem financiou?

Existe outra explicação?

O que faria essa hipótese estar errada?

Essa habilidade pode ser útil também antes de votar.

Política: Opinar e Julgar

Na analogia BrainLatam:

Política → Opinar → Julgar.

Um candidato diz:

“Vou reduzir a violência.”

Antes de gostar ou rejeitar, podemos perguntar:

Como?

Qual proposta?

Qual mecanismo ligaria essa proposta ao resultado?

Isso já funcionou em algum território?

Quanto custa?

Quem se beneficia?

Quem pode ser prejudicado?

O que faria essa política ser abandonada?

A ciência não diz em quem votar.

Ela ajuda a transformar promessa em algo que possa ser examinado.

Depois disso, continuamos precisando julgar politicamente qual futuro desejamos.

Quando nossa identidade política começa pelo “não”

Isso importa especialmente no Brasil e na América Latina.

Um estudo de 2022 envolvendo Argentina, México, Brasil, Chile e Equador mostrou que o partidarismo negativo é uma dimensão própria da identidade política: alguém pode organizar seu comportamento não apenas por aquilo que apoia, mas principalmente por aquilo que rejeita.

No Brasil, pesquisas também mostram a importância de identidades negativas como antipetismo e antibolsonarismo para compreender a polarização afetiva.

A pessoa talvez não diga:

“eu sou profundamente deste grupo.”

Mas pode afirmar:

“eu jamais votaria naquele grupo.”

Isso significa que a rejeição é uma variável real.

Não devemos deixar de medi-la.

Mas talvez exista um risco quando conhecemos cada vez melhor quem a população quer impedir e muito pouco sobre o que ela deseja construir.

A forma da informação modifica a experiência

Aqui aparece uma evidência latino-americana especialmente interessante.

Em 2024, pesquisadores realizaram experimentos na Argentina, Brasil, Chile e Colômbia.

As pessoas receberam informações factualmente equivalentes apresentadas de maneiras diferentes.

Uma formulação confirmava uma informação verdadeira.

Outra refutava a versão falsa.

O conteúdo factual era equivalente.

Mas as respostas emocionais não foram.

As formulações afirmativas produziram maior engajamento e estiveram mais associadas a emoções positivas. As formulações de refutação apareceram mais associadas a emoções negativas como raiva, medo, estresse e repulsa.

Isso não prova que:

“perguntar em quem você não votaria gera polarização”.

Essa causalidade não foi demonstrada.

Mas mostra algo importante:

A maneira como uma informação é apresentada pode modificar o estado emocional a partir do qual ela é processada.

E isso nos permite formular uma nova pergunta científica.

Rejeição × Fruição

No Modelo de Fruição BrainLatam — Mata Atlântica — pensamos o organismo também pelas possibilidades que ele percebe.

O que posso fazer?

O que posso continuar fazendo?

O que pode melhorar?

Evitar ameaças é necessário.

O “não” protege.

Mas uma vida organizada apenas por:

não faça;

não permita;

não deixe;

não vote;

não deixe o outro vencer

pode tornar muito presente aquilo que precisa ser evitado e deixar pouco espaço para representar aquilo que desejamos aproximar.

Na política, podemos então medir duas dimensões.

REJEIÇÃO

Em quem você não votaria de jeito nenhum?

E também:

FRUIÇÃO

Quem você acredita que pode melhorar sua vida e o lugar onde você vive?

Depois vem a pergunta mais importante:

Como?

Da crença para a evidência

Se alguém responde:

“Candidato X.”

perguntamos:

O que você acredita que melhoraria?

Saúde?

Renda?

Segurança?

Educação?

Moradia?

Tempo?

Água?

Qualidade ambiental?

Depois:

Qual proposta desse candidato produziria essa melhora?

Depois:

Como essa proposta chegaria até sua realidade?

E finalmente:

Existe evidência de que isso pode funcionar?

Em poucos passos passamos de:

candidato

para:

Corpo-Território → proposta → mecanismo → evidência → julgamento.

Neurociência Decolonial também começa pela pergunta

Existe ainda outra questão.

Uma pessoa que vive em Manaus pode precisar de melhorias diferentes de alguém que vive em São Paulo.

Uma comunidade nos Andes pode organizar suas prioridades de modo diferente de uma região industrial.

Um território indígena pode não colocar crescimento econômico acima de água, floresta ou continuidade comunitária.

Por isso perguntar simplesmente:

“qual candidato é melhor para o Brasil?”

pode esconder diferenças enormes.

A pergunta:

“Quem pode melhorar sua vida e o lugar onde você vive?”

começa no Corpo-Território.

Depois podemos subir:

Corpo-Território
→ Jiwasa
→ município
→ Estado
→ Federação
→ Bioma.

Podemos testar essa hipótese

BrainLatam não precisa apenas defender a ideia.

Pode tentar derrubá-la.

Imagine um experimento.

Um grupo responde:

“Em quem você não votaria de jeito nenhum?”

Outro:

“Quem você acredita que pode melhorar sua vida e o lugar onde você vive?”

Um terceiro recebe uma pergunta eleitoral neutra.

Depois medimos:

emoções;

tempo de resposta;

lembrança de propostas;

hostilidade ao grupo adversário;

confiança na decisão;

disposição para ouvir outra candidatura;

capacidade de explicar por que determinada proposta funcionaria.

Em grupos menores poderíamos acrescentar:

respiração;

HRV;

atividade eletrodérmica;

EEG;

fNIRS.

A pergunta científica seria:

O enquadramento altera apenas a resposta ou também modifica o estado do Corpo-Território durante o julgamento?

Talvez sim.

Talvez não.

Talvez dependa da identidade política anterior.

É justamente por não sabermos que vale a pena testar.

Antes de corrigir, talvez precisemos ensinar a perguntar

As eleições brasileiras de 2022 mostraram grande circulação de desinformação por WhatsApp e outras plataformas.

Um experimento posterior realizado também no Brasil mostrou que estratégias preventivas — prebunking — conseguiram melhorar imediatamente determinadas medidas de confiança eleitoral e a capacidade de distinguir informações verdadeiras e falsas.

Isso sugere que talvez não seja suficiente corrigir a mentira depois que ela chegou.

Precisamos formar antes:

Como sei?

Quem está dizendo?

Qual evidência?

Que parte não estou vendo?

O que faria eu mudar de opinião?

Ciência, Política e Transcendência

Na arquitetura BrainLatam:

Ciência → Fazer → Executivo

Transforma propostas em hipóteses e observa resultados.

Política → Opinar → Julgar

Compara possibilidades e decide coletivamente.

Religião → Transcender → Legislativo

Permite imaginar um futuro que ainda não existe.

Uma democracia saudável precisa circular entre as três:

imaginar → julgar → fazer → observar → corrigir → imaginar novamente.

O problema começa quando apenas rejeitamos.

Porque impedir um futuro ruim não nos diz automaticamente qual futuro queremos construir.

O voto talvez comece antes da urna

Talvez comece quando uma criança pergunta:

“Como você sabe?”

E recebe:

“porque eu disse.”

Ou:

“vamos descobrir.”

São duas maneiras diferentes de aprender a relação com a verdade.

Uma democracia não precisa produzir pessoas que escolham a mesma resposta.

Precisa produzir Corpos-Territórios capazes de manter algum espaço entre:

ouvir → acreditar → julgar → fazer.

Talvez seja nesse espaço que Ciência e Política realmente consigam se encontrar.

Pergunta BrainLatam

E se, antes de perguntarmos apenas quem cada brasileiro quer impedir de governar, começássemos também a perguntar quem ele acredita que pode melhorar sua vida e o lugar onde vive — e como isso poderia realmente acontecer?


Referências latino-americanas — pós-2021

Haime A, Cantú F. (2022). Negative Partisanship in Latin America. Latin American Politics and Society. Argentina, México, Brasil, Chile e Equador.

Areal J. (2022). ‘Them’ without ‘us’: negative identities and affective polarization in Brazil. Political Research Exchange.

Javorski E, Gusmão C, Bargas J. (2023). Dinâmicas de letramento midiático e combate à desinformação no período eleitoral. Experiência com estudantes no Pará.

Aruguete N et al. (2024). Framing fact-checks as a “confirmation” increases engagement with corrections of misinformation: a four-country study. Scientific Reports. Argentina, Brasil, Chile e Colômbia.

Hale SA et al. (2024). Analyzing Misinformation Claims During the 2022 Brazilian General Election on WhatsApp, Twitter, and Kwai. International Journal of Public Opinion Research.

Carey JM et al. (2025). Prebunking and credible source corrections increase election credibility: Evidence from the US and Brazil. Science Advances.

Petherick A et al. (2026). Dynamics of sociopolitical polarization and effects of misperception-correcting information around the 2022 Brazilian elections. Nature Communications.









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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States