Jackson Cionek
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Atenção é Território

Atenção é Território

Redes sociais, dopamina, algoritmo e Zona 3 algorítmica

A gente continua este bloco em Jiwasa — a gente juntos — com uma ideia simples e muito séria:

atenção é território.

Antes de falar que alguém “usa muito celular”, “perde tempo” ou “não tem foco”, a gente precisa mudar a pergunta. Talvez o problema não seja apenas falta de disciplina. Talvez a pergunta seja:

quem está organizando nossa atenção?

Porque quando uma plataforma captura nosso olhar, nosso tempo, nosso desejo, nossa comparação, nossa raiva, nossa curiosidade e nossa vontade de pertencer, ela começa a organizar também nosso Tekoha — o território interno do corpo.

Quem captura minha atenção começa a organizar meu Tekoha

Na linguagem BrainLatam2026, o APUS é o corpo-território: aquilo que a gente vê, toca, escuta, come, caminha, habita e compartilha.

O Tekoha é quando esse território entra no corpo.

Então, quando a gente passa muitas horas em redes sociais, não é só “conteúdo” que entra. Entra ritmo. Entra comparação. Entra linguagem. Entra urgência. Entra desejo. Entra medo de ficar de fora. Entra a sensação de que todo mundo está vivendo melhor, ganhando mais, sendo mais bonito, mais aceito, mais desejado ou mais feliz.

O corpo começa a responder a isso.

A respiração muda.
O sono muda.
A postura muda.
A atenção fragmenta.
A comparação cresce.
A elasticidade diminui.

E, aos poucos, o Tekoha pode deixar de ser organizado pelo corpo real, pelas amizades reais, pelo chão, pela caminhada, pela família possível, pela escola e pela comunidade — e passa a ser organizado por uma sequência infinita de estímulos.

O algoritmo não precisa odiar a gente para nos prender

O algoritmo não precisa ser “mau” como uma pessoa. Ele pode apenas otimizar engajamento.

Isso significa: mostrar mais daquilo que prende nossa atenção.

Se uma imagem prende, aparece mais imagem.
Se uma polêmica prende, aparece mais polêmica.
Se uma comparação prende, aparece mais comparação.
Se uma insegurança prende, aparece mais conteúdo sobre aquela insegurança.
Se uma emoção forte prende, aparece mais emoção forte.

O relatório do U.S. Surgeon General sobre redes sociais e saúde mental juvenil destacou que o impacto das redes depende de muitos fatores: tempo de uso, tipo de conteúdo, atividades substituídas, grau de exposição, vulnerabilidades individuais e contexto social. O próprio relatório afirma que ainda não há evidência suficiente para concluir que as redes sociais sejam suficientemente seguras para crianças e adolescentes. (HHS.gov)

A Academia Nacional dos EUA também publicou um relatório em 2024 defendendo uma leitura equilibrada: redes sociais podem trazer conexão e informação, mas também riscos, e os efeitos dependem do desenho das plataformas, do tipo de uso, da idade, do contexto familiar e das desigualdades sociais. (National Academies)

Essa é a chave: a gente não precisa demonizar tecnologia. Mas também não pode fingir que plataformas feitas para prender atenção são neutras.

Dopamina não é simplesmente “prazer”

Muita gente fala “dopamina” como se fosse apenas o “hormônio do prazer”. Isso simplifica demais.

Na neurociência, a dopamina está muito ligada a busca, saliência, motivação, aprendizado por recompensa e erro de previsão. O cérebro aprende quando algo vem melhor, pior ou diferente do esperado. Revisões recentes sobre reward prediction error explicam que sinais dopaminérgicos participam de aprendizado, atualização de expectativas e comportamentos ligados à recompensa. (Frontiers)

Por isso, uma rede social não precisa nos deixar profundamente felizes para nos prender.

Ela só precisa entregar:

uma novidade,
uma chance de aprovação,
um comentário,
uma curtida,
uma mensagem,
uma comparação,
uma polêmica,
um medo de perder algo,
um vídeo que começa antes da gente decidir,
uma recompensa pequena e imprevisível.

Esse padrão é poderoso porque mantém o corpo em busca.

Na linguagem BrainLatam2026:

a dopamina não é só prazer; é o corpo sendo chamado para procurar mais.

Zona 3 algorítmica

A Zona 3 algorítmica acontece quando o corpo fica preso em um ambiente de estímulo constante, comparação e urgência.

Não é culpa moral.
Não é falta de caráter.
Não é “fraqueza da geração”.

É um corpo tentando se regular dentro de um ambiente que foi desenhado para puxar atenção o tempo todo.

Em Zona 3 algorítmica, a gente pode perceber:

atenção quebrada,
sono pior,
cansaço mental,
irritação,
comparação constante,
dificuldade de ficar em silêncio,
vontade de checar o celular sem saber por quê,
sensação de que descansar é perder algo,
dificuldade de sentir o próprio corpo sem estímulo externo.

A OMS Europa relatou que o uso problemático de redes sociais em adolescentes aumentou de 7% em 2018 para 11% em 2022, com sinais como dificuldade de controle e consequências negativas na vida diária e no bem-estar. (World Health Organization)

Um estudo do CDC, com dados de adolescentes de 12 a 17 anos entre 2021 e 2023, encontrou associação entre quatro ou mais horas diárias de tela fora da escola e piores indicadores de atividade física, sono, saúde mental e apoio social percebido. O estudo é observacional, então não prova causa direta, mas mostra que tela, sono, movimento e pertencimento precisam ser pensados juntos. (CDC)

O problema não é a tela: é o que ela substitui

A pergunta não é apenas: “quantas horas de tela?”

A pergunta mais profunda é:

o que a tela está substituindo?

Está substituindo sono?
Caminhada?
Conversa?
Tédio criativo?
Dança?
Estudo com calma?
Comida compartilhada?
Olhar para o céu?
Silêncio?
Presença com amigos?
Tempo para sentir o corpo?

Uma revisão guarda-chuva de 2024 sobre redes sociais e saúde mental adolescente reforça essa complexidade: redes sociais podem trazer riscos e oportunidades, dependendo do tipo de uso, conteúdo, vulnerabilidade, contexto e estratégias de mitigação. (ScienceDirect)

Por isso, a proposta não é “sair da internet e pronto”.

A proposta é devolver ao corpo uma pergunta:

minha atenção ainda é minha?

Atenção sequestrada diminui APUS

Quando a atenção fica presa em feed infinito, o APUS pode diminuir.

O corpo anda menos.
Olha menos longe.
Respira menos fundo.
Sente menos o chão.
Percebe menos o território.
Conversa menos com presença.
Compara mais.
Deseja mais.
Descansa menos.

A vida fica estreita.

O mundo parece caber dentro da tela, mas o corpo não cabe.

A gente precisa de tela, sim. A gente usa tela para estudar, criar, trabalhar, pesquisar, vender, divulgar ciência, encontrar pessoas, fazer política e construir comunidade. Mas o corpo também precisa de chão, ritmo, sol, rosto, pausa, alimento, gesto, linguagem e pertencimento real.

Na linguagem BrainLatam2026:

APUS estreito gera Tekoha pressionado.

Quando o APUS perde espaço, o Tekoha fica mais vulnerável à Zona 3.

Fruição e Metacognição: recuperar a atenção sem guerra

A saída não precisa ser guerra contra o celular.

Guerra também pode virar Zona 3.

A saída pode começar com Fruição e Metacognição.

Fruição é voltar a sentir o corpo sem precisar transformar tudo em desempenho.
Metacognição é perceber o que está acontecendo com a atenção sem ser engolido por ela.

A gente pode começar com perguntas simples:

Estou abrindo este aplicativo por escolha ou por impulso?
O que eu sinto no corpo depois de 20 minutos aqui?
Esse conteúdo aumenta meu espaço interno ou diminui?
Eu saio mais vivo ou mais comparado?
Eu estou buscando informação, conexão ou anestesia?
Meu corpo precisa de tela agora ou precisa de chão?

Essas perguntas não acusam. Elas devolvem atenção.

Pequenas práticas de território

A gente pode recuperar atenção com gestos pequenos:

desligar notificações não essenciais,
deixar o celular fora da cama,
caminhar sem fone por alguns minutos,
olhar pela janela antes de abrir o feed,
fazer uma refeição sem rolar tela,
mandar mensagem para uma pessoa real em vez de só consumir conteúdo,
ouvir uma música inteira sem trocar,
dançar um pouco,
respirar antes de responder,
criar horários de tela mais conscientes,
perguntar: “o que meu corpo está sentindo agora?”

Não é sobre perfeição.
É sobre elasticidade.

Atenção também precisa entrar em tensão e voltar.

Janela EEG/NIRS/fNIRS: como estudar atenção, redes sociais e Tekoha?

Um estudo BrainLatam sobre atenção é território poderia investigar como adolescentes ou jovens adultos respondem a estímulos de redes sociais, comparação, recompensa social e pausa corporal.

Com EEG/ERP, seria possível observar marcadores de atenção e recompensa, como P300, N2, LPP e RewP, dependendo da tarefa. Um estudo de 2024 com adolescentes investigou a Reward Positivity — RewP para recompensa social e monetária, analisando como a reatividade neural à recompensa social pode moderar a relação entre uso de redes sociais e afeto momentâneo. (PMC)

Com NIRS/fNIRS, a gente poderia observar a atividade hemodinâmica pré-frontal durante tarefas de feed, decisão, pausa, comparação social ou autocontrole. Um estudo com jovens de 17 a 26 anos usou fNIRS em uma tarefa de decisão sob risco e encontrou diferenças de ativação no córtex pré-frontal dorsolateral em participantes com maior pontuação de dependência de smartphone. (PubMed)

Outro estudo naturalístico com fNIRS em universitários avaliou o impacto do uso de redes sociais em função executiva e ativação pré-frontal, mostrando como esse tipo de medida pode aproximar neuroimagem de comportamentos cotidianos. (PMC)

Com HRV/RMSSD, respiração, GSR, EMG e eye-tracking, a gente poderia medir o corpo inteiro: atenção visual, tensão muscular, ativação autonômica, respiração, recuperação e elasticidade.

A pergunta experimental seria:

o que acontece com o corpo quando a atenção é capturada — e o que ajuda a atenção a voltar para o território?

Fechamento

Atenção é território.

Quem captura nossa atenção começa a organizar nosso Tekoha.

Mas isso não significa que a gente perdeu a liberdade. Significa que precisamos recuperar consciência corporal, Fruição e Metacognição diante das plataformas.

A tela pode ser ferramenta.
A tela pode ser ponte.
A tela pode ser estudo, criação, amizade e divulgação.

Mas quando vira território total, o corpo perde APUS.

Em Jiwasa — a gente juntos — a proposta não é culpar o adolescente. É proteger a elasticidade do corpo.

Porque nosso corpo precisa de mundo.
Precisa de chão.
Precisa de ritmo.
Precisa de pausa.
Precisa de pertencimento.

Quem devolve atenção ao corpo devolve território ao Tekoha.

Referências pós-2021

World Health Organization Regional Office for Europe. (2024). Teens, screens and mental health. (World Health Organization)

Zablotsky, B., Ng, A. E., Black, L. I., Haile, G., Bose, J., & Jones, J. R. (2025). Associations Between Screen Time Use and Health Outcomes Among US Teenagers. Preventing Chronic Disease, 22, 240537. (CDC)

Sala, A., Porcaro, L., & Gómez, E. (2024). Social Media Use and adolescents’ mental health and well-being: An umbrella review. (ScienceDirect)

Fassi, L., Thomas, K., Parry, D. A., et al. (2024). Social Media Use and Internalizing Symptoms in Clinical and Community Adolescent Samples: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatrics. (jamanetwork.com)

Office of the Surgeon General. (2023). Social Media and Youth Mental Health: The U.S. Surgeon General’s Advisory. (HHS.gov)

National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. (2024). Social Media and Adolescent Health. (National Academies)

Deng, Y., et al. (2023). Reward prediction error in learning-related behaviors. Frontiers in Neuroscience. (Frontiers)

Politte-Corn, M., et al. (2024). Neural Reactivity to Social Reward Moderates the Association Between Social Media Use and Momentary Positive Affect in Adolescents. (PMC)

Liu, X., et al. (2024). Exploring the Impact of Smartphone Addiction on Risk Decision-Making Behavior among College Students: An fNIRS Study Based on the Iowa Gambling Task. (PubMed)

Aitken, A., et al. (2025). Naturalistic fNIRS assessment reveals decline in executive function and altered prefrontal activation following social media use in college students. (PMC)















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Jackson Cionek

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