BRASIL 2026 - QUEM VOTA ANTES DE VOCÊ?
BRASIL 2026 - QUEM VOTA ANTES DE VOCÊ?
Quando o medo chega antes da realidade
Ainda está escuro.
Uma mulher abre o celular antes de levantar da cama. Precisa preparar o café, organizar as crianças e descobrir como fará o dinheiro durar até o final do mês.
O primeiro vídeo diz que sua fé está ameaçada.
O segundo afirma que as crianças estão em perigo.
No terceiro, o adversário político já não aparece como alguém que pensa diferente. Ele é apresentado como inimigo de Deus, da família e da própria possibilidade de salvação.
Ela sente medo.
Não porque seja ignorante.
Não porque seja incapaz de compreender política.
Ela sente medo porque ama os filhos, acredita na vida depois da morte e não deseja perder aquilo que oferece sentido, acolhimento e esperança à sua existência.
É justamente por isso que sua atenção possui tanto valor.
Quem conhece nossos vínculos mais profundos não precisa explicar uma política pública. Pode apenas afirmar que tudo aquilo que amamos desaparecerá caso o outro lado vença.
Em 4 de outubro de 2026, brasileiras e brasileiros votarão no primeiro turno das eleições gerais. Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. O voto será registrado naquele dia, mas sua preparação começou muito antes, atravessada por dívidas, igrejas, famílias, trabalhos, algoritmos, ausências e medos acumulados durante anos. (Justiça Eleitoral)
A pergunta central não é somente:
Em quem você votará?
Antes dela, precisamos perguntar:
Quem escolheu aquilo que chegaria à sua atenção antes de você escolher?
A suspeita que continuou circulando
Em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com 51,64% dos votos válidos, enquanto Aécio Neves recebeu 48,36%.
Depois da eleição, o PSDB solicitou uma auditoria dos sistemas de votação, apuração e totalização. O relatório não encontrou evidências de adulteração de programas, votos ou violação do sigilo eleitoral. (Justiça Eleitoral)
Os fatos estavam disponíveis.
Mas a suspeita continuou viva.
A dúvida começou a adquirir uma nova função política. Ela não precisava demonstrar que uma fraude havia ocorrido. Bastava repetir que alguma coisa poderia estar escondida.
Bastava manter uma rachadura aberta na confiança coletiva.
Nos anos seguintes, Jair Bolsonaro, até então fora do centro de comando dos grandes partidos, encontrou nas redes digitais uma estrutura capaz de atravessar jornais, emissoras e organizações partidárias tradicionais.
A mensagem podia chegar pelo grupo da família.
Pela igreja.
Pelo colega de trabalho.
Por alguém que ajudou quando a casa estava sem comida.
Pesquisas sobre as eleições brasileiras encontraram ampla circulação de conteúdos falsos, imagens manipuladas e narrativas enganosas em grupos públicos de WhatsApp. Estudos posteriores mostraram que informações já verificadas continuavam circulando e que diferentes plataformas carregavam versões distintas das mesmas alegações. (arXiv)
Quando uma mensagem chega por meio de um vínculo de confiança, questioná-la pode parecer uma forma de trair o próprio grupo.
Inundar até a verdade perder o ar
Em 2018, Steve Bannon resumiu uma estratégia de comunicação política:
“The real opposition is the media. And the way to deal with them is to flood the zone with shit.”
A intenção não é necessariamente convencer todas as pessoas da mesma mentira.
É produzir tantas versões, acusações, escândalos e contradições que ninguém consiga verificar tudo.
Enquanto jornalistas investigam uma afirmação, outras dez aparecem.
Enquanto uma falsidade é corrigida, a atenção já foi levada para outra crise.
A pessoa não termina convencida.
Termina cansada.
A estratégia explora uma limitação humana: nossa atenção possui duração, e instituições também possuem tempo limitado para verificar acontecimentos. Quando a zona informacional é inundada, a realidade precisa competir com versões produzidas em velocidade industrial. (The New Yorker)
Então surge uma frase perigosa:
“Todos mentem.”
A partir dela, cada grupo passa a confiar apenas naquilo que confirma sua identidade.
Por isso, precisamos defender quem foi manipulado.
A pessoa enganada não é o inimigo.
Ela é alguém cuja fé, esperança, raiva, solidão ou necessidade foram transformadas em matéria-prima política.
Responsabilizar somente quem compartilhou uma mensagem deixa invisível a arquitetura que selecionou o conteúdo, recompensou a reação e lucrou com sua circulação.
Quando Deus recebe um número de partido
O Brasil é constitucionalmente um Estado laico. Isso não significa um Estado contrário à religião. Significa que o poder público não pode estabelecer igrejas, criar dependência em relação a elas ou transformar uma fé específica em condição para o pertencimento político. (Planalto)
A laicidade protege o cristão.
Protege os povos de terreiro.
Protege as espiritualidades indígenas.
Protege quem não possui religião.
Mas a polarização tenta converter a eleição em uma escolha entre Deus e Satanás.
O Censo de 2022 registrou que 26,9% das pessoas brasileiras com 10 anos ou mais se declararam evangélicas. São milhões de pessoas, pertencentes a diferentes igrejas, classes sociais, regiões e formas de interpretar a Bíblia. Não existe um único Corpo-Território evangélico nem um voto evangélico completamente uniforme. (SIDRA)
Para muitas pessoas, a igreja oferece algo que o Estado não conseguiu oferecer.
Alimento.
Música.
Escuta.
Ajuda durante a doença.
Proteção diante da violência.
Esperança de que a morte não seja o fim.
Nada disso deve ser ridicularizado.
O problema começa quando lideranças transformam essa esperança em ameaça eleitoral. Pesquisas sobre as eleições brasileiras mostram situações em que adversários foram associados a satanismo, inferno, comunismo ateu e forças espirituais malignas. (SciELO)
A fé pergunta como viver com sentido.
A manipulação pergunta como transformar essa busca em voto.
Quando um candidato afirma representar Deus, discordar dele pode parecer mais perigoso do que discordar de uma proposta econômica.
A Constituição desaparece.
O rio contaminado desaparece.
A dívida desaparece.
Resta o medo de pertencer ao lado errado da eternidade.
Uma guerra moral que não nasceu no território
Desde o início da colonização, instituições europeias tentaram reorganizar os povos que viviam no Brasil por meio da conversão religiosa, do controle do trabalho, da terra e dos costumes.
A cristianização não foi apenas um encontro espiritual. Em muitos momentos, integrou projetos de domínio territorial e de dissolução das formas indígenas de organizar a vida. Os povos originários resistiram, negociaram e recriaram essas relações, mas a tentativa colonial de transformar diferença em inferioridade deixou marcas profundas. (SciELO)
Hoje, temas morais continuam ocupando grande parte do debate político.
Família.
Sexo.
Pecado.
Armas.
Inimigos religiosos.
Esses assuntos podem ser importantes para muitas pessoas. O problema surge quando eles cobrem todo o campo de visão e impedem perguntas sobre a vida material:
Quem controla a água?
Quem possui os dados?
Quem recebe o crédito?
Quem lucra com a mineração?
Quem permanece com o resíduo?
Que Bioma sustenta esta cidade?
Quem trabalha todos os dias, mas continua sem tempo para participar?
Sem o reconhecimento do Corpo-Território, a população pode passar anos discutindo batalhas morais importadas enquanto decisões econômicas profundamente locais são tomadas longe de sua atenção.
Esquerda e direita diante do mesmo chão
Esquerda e direita representam diferenças políticas reais.
Políticas associadas à esquerda costumam enfatizar proteção social, renda e direitos trabalhistas. Projetos de direita tendem a defender com maior intensidade propriedade, mercado, segurança e valores conservadores.
Mas nenhuma dessas categorias europeias consegue representar completamente os Corpos-Territórios brasileiros.
A direita pode tratar a destruição de florestas e a expansão extrativista como preço inevitável do progresso.
A esquerda pode ampliar programas sociais sem modificar estruturas monetárias que mantêm famílias endividadas e dependentes do crédito privado.
Ao mesmo tempo, sucessivos Planos Safra mobilizam centenas de bilhões de reais em crédito para a agricultura empresarial. Os valores anunciados foram de R$ 516,2 bilhões em 2025–2026 e R$ 525,1 bilhões em 2026–2027. Esses montantes são crédito programado, não devem ser confundidos integralmente com subsídios, mas revelam a capacidade pública de movimentar recursos quando uma atividade é considerada estratégica. (Serviços e Informações do Brasil)
Podemos perguntar:
Se o Estado consegue criar grandes arquiteturas financeiras para produzir e exportar, por que parece impossível criar dinheiro novo diretamente no cidadão e no território?
NeuroDesafio Latam: imaginar antes de votar
O NeuroDesafio Latam pode começar sem aparelhos, laboratório ou classificação política.
Pode começar com uma pausa.
Antes de avaliar uma candidatura, imagine um Estado responsável no qual todas as pessoas recebam um Drex Cidadão.
Não como favor eleitoral.
Não como pagamento por obediência.
Mas como renda permanente, individual e incondicional, capaz de oferecer uma base para alimentação, moradia, cuidado, mobilidade e participação.
Agora imagine que o Rendimento Bioma também seja uma realidade.
A comunidade recebe recursos porque sua floresta produz água.
Porque o manguezal reduz emergências.
Porque o solo permanece fértil.
Porque a biodiversidade continua viva.
Porque preservar também passou a colocar dinheiro em circulação.
Essas duas propostas são hipóteses BrainLatam. O Drex oficial brasileiro permanece em fase de desenvolvimento, com operações e usuários finais simulados no piloto; ele não funciona atualmente como renda cidadã universal. (Banco Central do Brasil)
Depois de imaginar suas necessidades básicas menos ameaçadas, pergunte:
Em qual projeto político meu bem-estar e o da minha comunidade poderiam realmente melhorar?
Não se trata de procurar um candidato que prometa tudo.
Trata-se de observar quem apresenta propostas capazes de aproximar essa realidade.
Quem protege a água?
Quem reduz a dependência da dívida?
Quem devolve recursos à comunidade?
Quem fortalece o Estado laico sem perseguir a fé?
Quem oferece condições para que o trabalho não destrua o Bioma?
Quem permite que a população participe depois da eleição?
Quem transforma medo em inimigo — e quem transforma necessidades em políticas?
A escolha continuará sendo de cada eleitor.
O exercício apenas muda o lugar de onde ela começa.
Em vez de votar imaginando qual grupo deve ser derrotado, podemos votar imaginando qual vida desejamos construir.
O voto que ainda podemos recuperar
No dia da eleição, a urna não perguntará qual vídeo nos assustou.
Não perguntará qual pastor, influenciador, empresário ou algoritmo chegou primeiro.
Ela registrará uma escolha.
Mas nós ainda podemos recuperar aquilo que acontece antes.
Podemos proteger a fé sem entregá-la a um partido.
Podemos defender pessoas enganadas sem defender a mentira.
Podemos discordar sem transformar o vizinho em Satanás.
Podemos olhar além da esquerda e da direita e perguntar o que acontecerá com a água, a dívida, o trabalho e o Bioma.
O primeiro voto não acontece na urna.
O primeiro voto é a atenção.
Talvez a democracia comece quando cada Corpo-Território consegue dizer:
Minha fé não será usada contra meu vizinho. Meu medo não decidirá sozinho. Minha necessidade não será explorada. Meu território também participará do futuro.
Referências essenciais
Tribunal Superior Eleitoral. Calendário e atos gerais das Eleições de 2026. 2026.
Tribunal Superior Eleitoral. Plenário do TSE: PSDB não encontra fraude nas Eleições 2014. 2015.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Religiões — resultados preliminares da amostra. 2025.
Constituição da República Federativa do Brasil. Artigo 19.
Lewis, M. Entrevista com Steve Bannon sobre a estratégia de “inundar a zona”. 2018.
Reis, J. C. S. et al. A Dataset of Fact-Checked Images Shared on WhatsApp During the Brazilian and Indian Elections. 2020.
Hale, S. A. et al. Analyzing Misinformation Claims During the 2022 Brazilian General Election on WhatsApp, Twitter, and Kwai. 2024.
National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Social Media and Adolescent Health. 2024.
Montero, P.; Silva, A. Entre a fé e a expressão política: interações entre pastores e fiéis evangélicos durante as eleições de 2022 no Rio de Janeiro. 2024.
Banco Central do Brasil. Piloto Drex. 2026.
Ministério da Agricultura e Pecuária. Planos Safra da Agricultura Empresarial 2025–2026 e 2026–2027.