Quantos movimentos existem dentro de um único Ser?
Quantos movimentos existem dentro de um único Ser?
O coração acelera, a respiração muda, o cérebro acompanha. Mas as condições em que vivemos também participam daquilo que podemos sentir.
Série especial BrainLatam | VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC — 2026
O CORAÇÃO QUE VOCÊ PODE SENTIR
Imagine que você acabou de subir alguns degraus.
Talvez consiga perceber o coração acelerado. A respiração acompanha o esforço. Os músculos participaram do movimento e seu organismo continua ajustando a circulação e o consumo de energia.
Agora imagine que você encontra alguém muito querido.
Seu coração também pode acelerar. Mas a experiência talvez seja completamente diferente.
Em uma situação, você reconhece o esforço. Na outra, sente alegria, surpresa ou expectativa.
O coração participa das duas experiências, mas não determina sozinho aquilo que sentimos.
O que permite reconhecer uma sensação como cansaço e outra como emoção?
Quantos movimentos estão acontecendo dentro daquilo que percebemos como um único Ser?
Essa pergunta acompanha o tema do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), programado para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo:
“O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar”.
Como patrocinadora, a BrainLatam propõe investigar essas relações aproximando neurociência, fisiologia, filosofia e as condições sociais que participam da existência.
O CORPO NÃO ESPERA PELO PENSAMENTO
Enquanto você lê, seu organismo continua trabalhando.
O coração impulsiona sangue. Os pulmões participam das trocas gasosas. O sistema nervoso recebe informações internas e externas. Hormônios e processos metabólicos ajudam a regular necessidades corporais.
Parte dessas atividades pode alcançar a consciência.
O neurocientista António Damásio, em Sentir & Saber (2021), desenvolve uma interpretação sobre a importância dos sentimentos na regulação da vida e na formação da experiência consciente.
Sentir, nessa perspectiva, participa da relação entre o organismo e suas próprias condições de existência.
Podemos reconhecer uma consequência interessante: perceber o coração acelerado envolve processos fisiológicos, mas a experiência também depende da situação em que esse movimento acontece.
O mesmo sinal corporal pode ser interpretado diferentemente conforme nossas memórias, expectativas e circunstâncias.
A experiência de Ser envolve, portanto, mais do que localizar uma atividade cerebral.
O CORAÇÃO PARTICIPA DAQUILO QUE PERCEBEMOS
O pesquisador chileno Diego Candia-Rivera e colaboradores publicaram, em 2024, uma revisão sobre interocepção, fisiologia de redes e consciência corporal.
Interocepção é o conjunto de processos envolvidos na detecção e integração de sinais provenientes do interior do organismo.
Esses sinais podem participar da percepção corporal e de diferentes experiências emocionais.
Isso não significa que o coração pense independentemente do cérebro.
Significa que processos cardíacos e neurais mantêm relações fisiológicas relevantes para nossa maneira de perceber.
Talvez possamos formular outra pergunta:
Aquilo que sentimos como UM depende de quantos sistemas trabalhando simultaneamente?
A ciência permite estudar componentes dessas relações. Mas registrar batimentos cardíacos não equivale a conhecer toda a experiência subjetiva de uma pessoa.
Sentir e medir oferecem conhecimentos diferentes, que podem dialogar.
A RESPIRAÇÃO TAMBÉM PARTICIPA DO TEMPO CEREBRAL
Perceba sua respiração, sem precisar modificá-la.
Talvez reconheça um ritmo. Talvez perceba que a atenção já mudou novamente.
Em 2025, o brasileiro Adriano B. L. Tort, com Diego Laplagne, Andreas Draguhn e Joaquin Gonzalez, publicou uma revisão na Nature Reviews Neuroscience mostrando que atividades neurais podem apresentar modulações relacionadas ao ciclo respiratório.
As evidências incluem humanos e outros mamíferos.
Determinadas oscilações cerebrais acompanham componentes temporais da respiração, inclusive em regiões relacionadas à emoção e à cognição.
Esses resultados não demonstram que respirar determine pensamentos ou sentimentos.
Mas ampliam as possibilidades de compreender como diferentes ritmos fisiológicos participam da organização cerebral.
O Ser que percebemos como unidade continua acontecendo em múltiplos movimentos.
O SENTIR PODE SER INVESTIGADO CIENTIFICAMENTE?
O pesquisador brasileiro Alfredo Pereira Júnior, da UNESP, e Vinícius Jonas de Aguiar propuseram, em 2023, fundamentos para a Sentiômica, uma abordagem voltada à investigação dos padrões associados à capacidade de sentir.
Os autores distinguem a investigação empírica de padrões psicobiológicos da descrição das qualidades subjetivas das experiências.
Essa distinção encontra um dos grandes desafios da neurociência da consciência.
Podemos registrar sinais elétricos, hemodinâmicos e fisiológicos.
Mas como relacioná-los à experiência de sentir alegria, medo ou pertencimento?
A Sentiômica apresenta uma proposta teórica de investigação, não uma explicação definitivamente estabelecida da consciência.
Sua contribuição para nosso diálogo está em reconhecer que a capacidade de sentir merece perguntas próprias.
E talvez essas perguntas ganhem profundidade quando investigamos o organismo em suas relações.
O METABOLISMO TAMBÉM MUDA NOSSAS POSSIBILIDADES
Imagine uma pessoa que passou muitas horas sem se alimentar.
A fome pode modificar sua atenção, suas prioridades e as escolhas que parecem mais urgentes.
O organismo dispõe de mecanismos complexos para integrar disponibilidade energética, sinais hormonais e comportamentos.
A pesquisadora Renata Frazão, da USP, anunciada entre os participantes do simpósio, investiga mecanismos hipotalâmicos relacionados à reprodução, ao metabolismo e à regulação hormonal.
Essas pesquisas permitem compreender como condições fisiológicas participam de processos fundamentais à continuidade da vida.
Outro participante, Leonardo Santana Novaes, também da USP, apresentará o tema provisório “Do corpo ao encéfalo: vias integrativas que moldam a emoção e o comportamento”.
Seu grupo investiga a comunicação bidirecional entre sinais corporais e circuitos neurais relacionados a emoções, estresse e comportamentos motivados.
Esses campos mostram como o funcionamento cerebral participa continuamente das necessidades do organismo.
Mas existe uma dimensão adicional.
QUEM ENCONTRA CONDIÇÕES PARA CONTINUAR SENDO?
Imagine duas pessoas subindo os mesmos degraus.
Uma descansou, alimentou-se e dispõe de tempo para recuperar-se.
A outra trabalhou durante a noite, dormiu pouco e ainda procura sua primeira refeição.
O movimento físico pode ter sido semelhante.
As condições corporais e sociais, entretanto, são diferentes.
Podemos investigar como sono, alimentação, esforço e estresse influenciam respostas fisiológicas. Mas também precisamos perguntar por que essas condições são distribuídas de maneira desigual.
O sociólogo brasileiro Jessé Souza, ex-professor titular da UFABC, investiga em A ralé brasileira, cuja nova edição foi publicada em 2022, como desigualdades estruturais e relações de reconhecimento atravessam a vida cotidiana.
Sua pesquisa não pretende explicar circuitos cerebrais.
Ela oferece uma dimensão sociológica essencial: as oportunidades de desenvolvimento e participação dependem também das condições materiais e institucionais em que vivemos.
Damásio nos ajuda a investigar o sentir. Alfredo Pereira Júnior propõe caminhos para estudar a sentiência. Jessé Souza amplia a pergunta sobre as condições sociais da existência.
O coração pode bater em todos nós. Mas os territórios nos quais cada coração precisa continuar batendo oferecem possibilidades muito diferentes de vida.
CORPO-TERRITÓRIO: UMA UNIDADE INDIVISÍVEL
Na BrainLatam, propomos o Corpo-Território como unidade indivisível de existência, sensibilidade e participação no mundo.
Nossa hipótese autoral afirma:
Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.
Utilizamos metabolismo em sentido conceitual ampliado, incluindo movimentos de matéria e energia relacionados às condições de existência do Corpo-Território.
Essa formulação não substitui as definições científicas de metabolismo ou consciência, nem constitui uma teoria experimentalmente validada.
Ela procura ampliar nossas perguntas.
Como as condições ambientais participam da experiência corporal?
Como investigamos o cérebro de alguém sem desconsiderar as condições sociais que acompanham sua existência?
A perspectiva decolonial também nos convida a reconhecer conhecimentos latino-americanos e ameríndios sobre corpo, território e relações entre seres vivos, respeitando suas diferentes origens.
A unidade do Corpo-Território não significa uniformidade entre indivíduos.
Significa reconhecer a singularidade de cada existência.
UM LABORATÓRIO DENTRO DA VIDA
Imagine uma Mata Atlântica preservada, com tecnologias avançadas integradas ao Bioma.
Pesquisadores acompanham atividades cerebrais, cardíacas e respiratórias durante experiências cotidianas.
Hoje, EEG, fNIRS, ECG e sensores respiratórios já permitem investigar diferentes dimensões neurofisiológicas.
A integração dessas medidas pode revelar relações temporais e fisiológicas que registros isolados dificilmente mostrariam.
Como representante da Artinis & NIRx e da Brain Products, a BrainLatam aproxima pesquisadores de tecnologias de neuroimagem funcional, eletroencefalografia e investigação multimodal.
Nenhum instrumento, entretanto, registra sozinho a totalidade da experiência subjetiva.
A tecnologia amplia aquilo que podemos observar. A interpretação exige rigor e diálogo interdisciplinar.
QUANTOS MOVIMENTOS PODEM PARTICIPAR DE UM NÓS?
Voltemos ao coração que acelerou depois dos degraus.
Agora imagine duas pessoas caminhando juntas.
Seus movimentos e ritmos fisiológicos podem apresentar relações durante a atividade compartilhada.
Isso não demonstra uma consciência coletiva.
Cada pessoa continua vivendo sua experiência singular.
Na BrainLatam, utilizamos Jiwasa para pensar a agência compartilhada sem apagar as diferenças individuais.
Podemos participar de processos coletivos e continuar Sendo.
O simpósio da UFABC nos convida a investigar essas possibilidades integrando corpo, cérebro, metabolismo e contexto.
Talvez possamos terminar com uma pergunta que continua acontecendo enquanto lemos:
Quantos movimentos participam da experiência de Ser, e quantas condições precisamos preservar para que todos possam continuar Sendo?
Sobre esta série
Este artigo integra a série especial da BrainLatam, patrocinadora do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC, previsto para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo.
Dialogamos com os temas anunciados por Leonardo Santana Novaes e Renata Frazão. As hipóteses e interpretações autorais da BrainLatam não representam necessariamente as posições dos pesquisadores ou da organização.
Evento oficial: https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/
Referências — Uma segunda leitura do blog
1. Os sentimentos participam da construção de nossa experiência consciente.
Damásio, A. (2021). Feeling & Knowing: Making Minds Conscious. Pantheon Books.
O neurocientista português investiga as relações entre sentimentos, regulação da vida e consciência.
https://search.worldcat.org/title/1200832168
2. Os sinais do coração e de outros órgãos participam da percepção corporal.
Candia-Rivera, D.; Engelen, T.; Babo-Rebelo, M.; Salamone, P. C. (2024). Interoception, network physiology and the emergence of bodily self-awareness. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 165, 105864.
A revisão, liderada pelo pesquisador chileno, examina como sinais internos e informações sensoriais participam da consciência corporal.
https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2024.105864
3. A respiração pode modular a atividade cerebral relacionada à percepção e à cognição.
Tort, A. B. L.; Laplagne, D. A.; Draguhn, A.; Gonzalez, J. (2025). Global coordination of brain activity by the breathing cycle. Nature Reviews Neuroscience, 26, 333–353.
Pesquisadores com vínculos científicos no Brasil e no Uruguai mostram como ritmos respiratórios se relacionam com atividades de diferentes regiões cerebrais.
https://doi.org/10.1038/s41583-025-00920-7
4. A capacidade de sentir também pode ser investigada por seus padrões psicobiológicos.
Pereira Júnior, A.; Aguiar, V. J. (2023). Fundamentos e aplicações da sentiômica: a ciência da capacidade de sentir. Trans/Form/Ação, 46, 57–86, edição especial 1.
Os autores apresentam a Sentiômica como proposta de investigação da capacidade de sentir e distinguem essa abordagem da descrição subjetiva dos qualia.
https://doi.org/10.1590/0101-3173.2023.v46esp1.p57
5. O cérebro integra necessidades metabólicas e sinais corporais na regulação do comportamento.
Frazão, R. Laboratório de Neurofisiologia da Reprodução. Instituto de Ciências Biomédicas, USP.
A linha de pesquisa investiga circuitos relacionados à reprodução e às condições hormonais e metabólicas.
https://sites.usp.br/neuroreplab/pt/home/
6. Corpo e encéfalo comunicam-se continuamente para regular emoções e respostas ao ambiente.
Novaes, L. S. Interação Corpo–Encéfalo na Modulação do Comportamento. Instituto de Ciências Biomédicas, USP.
O grupo investiga mecanismos neurais que conectam estados fisiológicos a respostas emocionais e comportamentais.
https://ww3.icb.usp.br/leonardo-novaes/
7. As desigualdades sociais modificam as condições concretas nas quais vivemos.
Souza, J. (2022). A ralé brasileira. Nova edição. Civilização Brasileira.
O sociólogo brasileiro, ex-professor da UFABC, investiga a reprodução de desigualdades e a experiência de pessoas socialmente invisibilizadas.
https://www.record.com.br/products/a-rale-brasileira/
8. Investigar o cérebro em contexto exige integrar biologia, cognição, tecnologia e sociedade.
UFABC (2026). VIII Simpósio em Neurociência e Cognição — O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar.
O evento reúne diferentes campos de pesquisa para ampliar as perguntas sobre o cérebro e suas relações.
Nota conceitual: Corpo-Território, Consciência 5D e Jiwasa são construções autorais desenvolvidas pela BrainLatam. As fontes científicas e sociológicas fundamentam aspectos específicos da discussão, sem constituir validação dessas propostas.
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