Da experiência à crença - quando começamos a defender a tradução
Da experiência à crença - quando começamos a defender a tradução
Quando as palavras começam a prender
No texto anterior, acompanhamos o momento em que um sentir encontra um nome.
Algo acontece no Corpo-Território. Tentamos perceber. Procuramos uma palavra. Dizemos "medo", "amor", "injustiça", "abandono", "Deus", "liberdade".
Mas raramente paramos aí.
Depois do nome, começamos a contar uma história.
Talvez possamos perceber isso em uma situação simples.
Alguém importante para nós não responde uma mensagem.
Primeiro existe o acontecimento:
a resposta não chegou.
Depois algo acontece conosco.
O corpo muda. A atenção retorna ao telefone. Surge desconforto.
Encontramos palavras:
"Estou ansioso."
Logo aparece uma frase:
"Ela está me evitando."
Depois uma explicação:
"Ela faz isso porque não se importa comigo."
E talvez, algum tempo depois, uma crença mais ampla:
"As pessoas sempre me abandonam."
Podemos percorrer uma distância enorme sem notar.
experiência -> sentir -> palavra -> frase -> explicação -> crença
O mais curioso é que cada etapa pode parecer uma continuação natural da anterior.
Mas não são exatamente a mesma coisa.
O telefone realmente permaneceu sem resposta.
O desconforto realmente aconteceu.
Mas "ela está me evitando" já é uma interpretação.
"As pessoas sempre me abandonam" é algo ainda maior: uma maneira possível de organizar diferentes acontecimentos da vida.
A pergunta que queremos manter conosco é simples:
estou defendendo aquilo que vivi ou as palavras que encontrei para explicar aquilo que vivi?
Toda tradução acrescenta alguma coisa
Quando traduzimos uma experiência em palavras, ganhamos muito.
Podemos comunicá-la.
Podemos pensar sobre ela.
Podemos compará-la com outras experiências.
Podemos pedir ajuda.
Podemos lembrar.
Mas uma tradução nunca é apenas transporte.
Ao escolher determinadas palavras, destacamos algumas relações e deixamos outras em segundo plano.
Agustín Ibáñez e colaboradores, em um artigo de consenso publicado em 2023 sobre linguagem incorporada, chamam atenção justamente para a variabilidade da relação entre palavras, experiências sensório-motoras, diferenças individuais e contexto. O significado linguístico não aparece como uma reprodução rígida de experiências anteriores: ele é flexível e sensível à história e à situação na qual a linguagem está sendo utilizada. (Journal of Cognition)
Talvez isso nos ajude a pensar nossas próprias explicações.
"Ele me abandonou."
"Eu fracassei."
"Isso foi uma injustiça."
"Deus me respondeu."
"Eu não sirvo para isso."
Podem ser formulações importantes.
Podem até se mostrar bastante adequadas.
Mas entre reconhecer sua utilidade e transformá-las no próprio acontecimento existe uma diferença.
Talvez pudéssemos acrescentar discretamente duas palavras:
"Minha interpretação, até agora, é..."
Algo muda quando fazemos isso.
Não precisamos negar nossa experiência.
Apenas devolvemos à explicação sua condição de explicação.
Patañjali já desconfiava do que as palavras conseguem construir
Muito antes da neurociência ou da psicologia contemporânea, o Yogasūtra de Patañjali já distinguia diferentes movimentos da consciência.
Na tradução e análise de Lilian Cristina Gulmini, o sutra 1.9 descreve vikalpa, traduzido como "composição", como algo produzido pelo conhecimento verbal e que pode não possuir um objeto correspondente na realidade física. Gulmini ressalta que o conceito não se refere somente a fantasia: inclui construções possibilitadas pelo próprio pensamento linguístico.
Isso merece ser lido com cuidado.
Patañjali não estava dizendo que palavras são falsas.
Sem linguagem, não conseguiríamos construir "infinito", "nada", "democracia", "justiça" ou inúmeros outros conceitos que ampliam enormemente nosso mundo.
O ponto interessante para nós é outro:
a mente consegue construir com palavras algo que não precisa estar diretamente presente diante dela.
Essa capacidade é uma potência humana.
Mas justamente por ser tão poderosa, uma construção verbal pode ganhar consistência suficiente para começarmos a tratá-la como se fosse o próprio objeto que pretendia explicar.
A descrição deixa de parecer descrição.
Passa a parecer realidade.
"Seja cético, mas aprenda a escutar"
É aqui que o chamado Quinto Compromisso, apresentado por Don Miguel Ruiz e Don José Ruiz, encontra nossa discussão.
Sua formulação é: "Seja cético, mas aprenda a escutar." Na apresentação que Ruiz faz do princípio, o ceticismo não significa recusar tudo o que ouvimos; significa não entregar automaticamente às palavras a condição de verdade e, ao mesmo tempo, continuar disponível para aquilo que o outro tenta comunicar. (don Miguel Ruiz)
Talvez possamos aplicar o compromisso primeiro a nós mesmos.
Escutar nossa própria frase.
"Ele não gosta de mim."
E então perguntar:
Isso aconteceu?
Ou essa é minha melhor tradução neste momento?
Não precisamos responder imediatamente.
O exercício talvez seja justamente não destruir a frase e não obedecê-la completamente.
Escutá-la.
Experimentá-la.
E permanecer disponíveis para o que ainda não cabe nela.
As categorias são necessárias - e deixam alguém do lado de fora
Danilo Silva Guimarães oferece uma imagem especialmente importante para essa questão.
Ao discutir identidades e classificações sociais, ele observa que categorias são necessárias para organizar sentimentos, pensamentos e ações. Mas também mostra que a linguagem fraciona o real e produz fronteiras. Sempre que criamos uma categoria, aparecem também zonas nas quais ela não se ajusta perfeitamente. (Jornal da USP)
Seu exemplo da categoria "pardo" no Brasil é revelador. Uma classificação criada para organizar informações populacionais também pode ocultar histórias de pertencimento que não aparecem quando alguém precisa selecionar apenas uma alternativa. Guimarães chama atenção para pessoas que permanecem justamente nessas regiões fronteiriças e para o perigo de concepções rígidas de verdade eliminarem ambiguidades que continuam existindo na experiência. (Jornal da USP)
Talvez façamos algo semelhante conosco.
"Sou tímido."
"Sou forte."
"Sou ansioso."
"Sou conservador."
"Sou progressista."
"Sou religioso."
"Sou racional."
Uma palavra pode ajudar a dizer algo importante sobre nós.
Mas será que tudo aquilo que podemos ser continua cabendo nela?
Célia Xakriabá oferece um contraponto interessante em seus discursos publicados em 2023: sua própria expressão política atravessa território, ancestralidade, corpo, linguagem, poesia e pertencimento, recusando uma separação simples entre essas dimensões. A publicação preserva inclusive particularidades do português Xakriabá, em vez de corrigir a fala para fazê-la caber integralmente no padrão formal.
Talvez algumas experiências precisem permanecer maiores que a categoria que usamos para apresentá-las.
Quando uma explicação encontra autoridade
Hoje conseguimos observar também pequenos fragmentos desse processo com neuroimagem.
Um estudo publicado em 2026 utilizou fNIRS para acompanhar atividade pré-frontal enquanto participantes julgavam informações verdadeiras e falsas acompanhadas de verificações atribuídas a fontes com diferentes níveis de autoridade institucional.
A autoridade da fonte modificou tanto julgamentos comportamentais quanto padrões hemodinâmicos pré-frontais. Em algumas condições, fontes percebidas como mais autorizadas facilitaram a aceitação; em outras, menor autoridade pareceu aumentar a vigilância diante de informações falsas. Os próprios resultados mostram que a relação não é simples. (Frontiers)
O estudo não demonstra que uma crença seja apenas atividade pré-frontal.
Muito menos que possamos olhar um cérebro e descobrir "a verdade" que alguém acredita.
Mas oferece uma pista relevante:
não avaliamos frases apenas pelo conteúdo delas. O contexto no qual uma frase chega também participa de como a processamos.
Quem disse?
Meu pai?
Minha professora?
Meu grupo?
Um médico?
Uma liderança religiosa?
Uma instituição científica?
Alguém que amo?
Uma frase pode chegar acompanhada de confiança muito antes de verificarmos aquilo que afirma.
E então começamos a defender a tradução
Talvez esse seja o ponto decisivo.
Uma explicação foi útil.
Organizou uma experiência confusa.
Reduziu incerteza.
Foi confirmada pelo grupo.
Passou a participar de outras experiências.
Depois de algum tempo, já não parece uma hipótese.
Parece simplesmente:
"é assim."
E quando alguém questiona a frase, podemos sentir como se estivesse questionando aquilo que vivemos.
Mas talvez não esteja.
Talvez esteja questionando apenas uma das possíveis traduções que construímos para aquilo que vivemos.
Essa diferença preserva algo precioso.
Podemos dizer:
"O que vivi foi real para mim."
E também:
"Posso continuar investigando o que aquilo significa."
Uma coisa não destrói a outra.
Talvez maturidade não seja possuir explicações definitivas para nossas experiências.
Talvez seja conseguir usar explicações suficientemente boas para viver e agir, sem impedir que novos encontros as modifiquem.
Podemos então voltar à pergunta inicial:
estou defendendo aquilo que vivi ou as palavras que encontrei para explicar aquilo que vivi?
Talvez não consigamos responder imediatamente.
E talvez isso seja bom.
Porque enquanto a resposta permanece um pouco aberta, a realidade ainda conserva a possibilidade de nos surpreender.
E nossas palavras continuam sendo ferramentas.
Ainda não se tornaram paredes.
Referências principais
GUIMARÃES, Danilo Silva. Identidades fixas não descrevem as experiências de muitas pessoas e produzem apagamentos históricos. Jornal da USP, 2025. (Jornal da USP)
IBÁÑEZ, Agustín et al. Ecological Meanings: A Consensus Paper on Individual Differences and Contextual Influences in Embodied Language. Journal of Cognition, 2023. (Journal of Cognition)
XAKRIABÁ, Célia; RODRIGUES, Ana Paula. A política e a poética de Célia Xakriabá: três discursos da primeira deputada indígena eleita por Minas Gerais (2022). Mana, 2023.
CHENG, Shuhua; YANG, Xinyue; DING, Yi. Authority reliance vs. deliberative assessment in processing online rumors: evidence from fNIRS. Frontiers in Human Neuroscience, 2026. (Frontiers)
RUIZ, Don Miguel; RUIZ, Don José; MILLS, Janet. The Fifth Agreement: A Practical Guide to Self-Mastery. Amber-Allen Publishing, 2010. A obra é anterior a 2021, mas é mantida como referência conceitual direta para o Quinto Compromisso. (Google Books)
PATAÑJALI. Yogasūtra, sutra 1.9, na tradução e análise de Lilian Cristina Gulmini. Fonte histórica mantida por sua contribuição específica ao conceito de vikalpa como composição possibilitada pela cognição verbal.