Jackson Cionek
14 Views

Da finitude à maturidade: envelhecer, morrer e sustentar pertencimento sem mentir para si

Da finitude à maturidade: envelhecer, morrer e sustentar pertencimento sem mentir para si

Envelhecer não é apenas acumular anos. É também experimentar, de modo cada vez mais concreto, a passagem do tempo, a perda de pessoas, as mudanças do corpo e a proximidade da própria finitude. A literatura recente sobre existential ageing mostra justamente que a consciência de estar mais perto da morte participa da formação da identidade e de mudanças psicológicas importantes na velhice. A questão, portanto, não é apenas biológica. É também existencial: como continuar pertencendo ao mundo quando a vida já não pode mais ser narrada como se fosse infinita? [R1] (PubMed)

A tese deste texto é simples: maturidade não é eliminar a incerteza, mas tolerá-la sem precisar fabricar certezas rígidas. Isso vale para a juventude, mas ganha uma densidade especial na velhice. A proximidade da morte pode aumentar medo, ansiedade e necessidade de controle, mas também pode abrir espaço para reordenações mais honestas da vida. Revisões recentes mostram que a ansiedade diante da morte em idosos está associada a múltiplos fatores físicos, psicológicos e sociais; ao mesmo tempo, estudos sobre “preparedness for well-dying” indicam que variáveis como sentido de vida, apoio familiar, religiosidade intrínseca, hardiness e bem-estar subjetivo se relacionam com uma preparação mais madura para o morrer — e, nesse conjunto, o sentido de vida aparece como um dos fatores mais fortes. [R2][R4] (PubMed)

Isso ajuda a entender um ponto decisivo: a velhice não amadurece automaticamente ninguém. Ela apenas torna mais difícil sustentar certas ilusões sem custo. Quando o indivíduo não tolera ambivalência, pode responder à finitude com negação, endurecimento moral, idealizações espirituais ou falsas certezas sobre o próprio destino. Mas pesquisas recentes sobre como pessoas idosas pensam o futuro e antecipam escolhas de fim de vida mostram que esse terreno é muito mais complexo: aparecem medo, hesitação, sensação de “o tempo está acabando”, tentativas de viver um dia de cada vez e, em alguns casos, a capacidade de pensar para além da finitude. Nessas pesquisas, a ambivalência não surge como defeito; ela aparece como parte real da experiência humana diante do morrer. [R5][R6] (PubMed)

Na nossa linguagem, talvez a forma mais alta de Zona 2 seja justamente essa: conseguir pertencer ao mundo sem anestesiar a crítica e sem negar a finitude. Não se trata de virar indiferente à morte, nem de romantizar o envelhecimento. Trata-se de não vender a lucidez em troca de uma falsa paz. A pessoa madura não precisa transformar toda dúvida em ameaça, nem toda perda em fracasso, nem toda espiritualidade em fuga. Ela pode continuar aberta ao vínculo, ao corpo, ao espaço, à memória e ao limite — sem precisar mentir para si para continuar de pé. Essa formulação conversa com estudos que associam melhor qualidade de vida em idosos a mais apoio social e menos solidão, e também com evidências de que práticas de religiosidade/espiritualidade, quando funcionais e não coercitivas, se associam a menos sintomas ansiosos e depressivos e a maior satisfação com a vida. [R3][R7] (PubMed)

Por isso, pertencimento profundo na velhice não deveria significar fechamento. Não deveria significar “agora eu já sei tudo”. Talvez signifique o oposto: saber que não se sabe tudo, e ainda assim continuar habitando o mundo com dignidade. Há idosos que se protegem endurecendo; há outros que amadurecem flexibilizando. Os primeiros tentam derrotar a finitude por narrativas rígidas. Os segundos aprendem a não depender delas. Esse talvez seja o coração da honestidade existencial: não expulsar a morte do horizonte, mas também não deixar que ela colonize a vida inteira. [R1][R5][R6] (PubMed)

Esse processo também é corporal. Em muitos casos, envelhecer bem não é “sentir-se jovem para sempre”, mas conseguir permanecer presente no corpo que muda sem tratá-lo como inimigo. Pés no chão, gravidade aceita, ritmo mais respeitado, respiração menos apressada, abertura possível ao cuidado e ao vínculo. Não é uma vitória heroica sobre a morte. É uma reconciliação progressiva com o fato de que viver sempre incluiu limite. E que limite não precisa significar isolamento. [R3][R6] (PubMed)

Comentário BrainLatam2026: DREX Cidadão, pertencimento e Neurociência Decolonial

Na nossa leitura, o problema da finitude não é apenas individual. Uma sociedade que humilha, descarta e precariza o envelhecimento empurra as pessoas para duas mentiras ao mesmo tempo: a mentira de que só vale quem continua produtivo como antes, e a mentira de que a morte deve ser escondida até o último instante. Nesse cenário, fica mais difícil sustentar pertencimento real. O DREX Cidadão entra aqui como proposta de base metabólica e dignidade distribuída: envelhecer com menos medo material pode abrir mais espaço para honestidade existencial, cuidado mútuo e preparação menos defensiva para o fim da vida. A crítica decolonial, nesse ponto, não é um detalhe: ela nos lembra que uma sociedade saudável não deveria exigir negação da finitude para conceder valor a alguém. [R3][R4][R6] (PubMed)

Fecho

Talvez a maturidade mais rara não seja a de quem responde tudo, mas a de quem suporta não responder tudo sem colapsar. Envelhecer, então, pode deixar de ser apenas perda e passar a ser depuração: menos fantasia de controle, menos pressa para anestesiar a dúvida, menos necessidade de certezas totais.

No fim, a travessia é esta:
do bebê ao idoso, a questão não é apenas sobreviver; é aprender a não vender a consciência em troca de alívio narrativo.

Referências finais

[R1] Kellehear A, Venturato L. Existential ageing and dying: A scoping review. Archives of Gerontology and Geriatrics. 2023.
Mostra que a proximidade da morte participa da formação da identidade e de mudanças psicológicas na velhice. (PubMed)

[R2] Younes RS, et al. Exploring Death Anxiety Among Older Adults. 2024.
Reúne fatores associados à ansiedade diante da morte em pessoas idosas, mostrando que o tema envolve dimensões físicas, psicológicas e sociais. (PubMed)

[R3] Sulandari S, et al. A Systematic Review and Meta-Analysis of the Association Between Life Satisfaction and Its Determinants in Older Adults. 2024.
Mostra que apoio social, menor solidão e melhores condições psicossociais estão fortemente ligados à satisfação com a vida na velhice. (PubMed)

[R4] Kim SA, et al. Predictors of Preparedness for Well-Dying Among Middle-Aged and Older Adults. 2024.
Indica que sentido de vida, hardiness, religiosidade intrínseca, apoio familiar, bem-estar subjetivo e ansiedade diante da morte se relacionam à preparação para morrer bem; o sentido de vida aparece como o fator de maior peso. (PubMed)

[R5] Wright V, Lovatt M. Thinking about the future in older age. Journal of Aging Studies. 2024.
Descreve diferentes modos de viver o futuro na velhice, incluindo medo do futuro, sensação de tempo se esgotando, viver um dia de cada vez e pensar para além da finitude. (PubMed)

[R6] Antonides MF, van Wijngaarden E. The Lived Experience of Anticipating End-of-Life Choices in Older Adults and Their Close Ones. The Gerontologist. 2024.
Mostra que escolhas de fim de vida são vividas com ambivalência, tentativa de controle e forte dimensão relacional. (PubMed)

[R7] Coelho-Júnior HJ, et al. Religiosity/Spirituality and Mental Health in Older Adults. 2022.
Sugere que religiosidade/espiritualidade, quando vividas de modo funcional, se associam a menos ansiedade e depressão e a maior satisfação com a vida em idosos. (PubMed)


#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States