Jackson Cionek
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Dinâmica - e se cognição depender de computação analógica?

Dinâmica - e se cognição depender de computação analógica?

Quando dizemos que o cérebro “processa informação”, quase imediatamente aparece uma metáfora familiar:

um computador.

Entradas. Saídas. Circuitos. Memória. Cálculo.

Essa metáfora foi extraordinariamente produtiva para a neurociência e para a ciência cognitiva. Mas talvez também tenha criado um ótimo local conceitual: começamos a procurar no cérebro algo parecido demais com as máquinas digitais que nós mesmos construímos.

Em 2026, Earl K. Miller, Scott L. Brincat e Jefferson E. Roy, do MIT, propuseram outra possibilidade em Analog Cognition and Consciousness. Para eles, cognição e consciência podem depender de interações bidirecionais entre disparos neuronais e campos elétricos rítmicos — as ondas cerebrais. Essas ondas não seriam apenas consequência da atividade neural: poderiam participar da própria computação, modulando excitabilidade, roteando sinais e reorganizando rapidamente quais populações neuronais participam de determinada tarefa. PubMed

Os autores não afirmam ter provado uma teoria completa da consciência.

Propõem uma hipótese a ser experimentalmente testada.

E talvez seja exatamente aí que apareça uma das aproximações conceituais mais interessantes com algo que a BrainLatam vem tentando formular:

Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.

As duas propostas não são iguais.

Miller e colaboradores discutem sobretudo dinâmica cortical e computação analógica.

A BrainLatam amplia a pergunta para o Corpo-Território.

Mas ambas nos permitem sair de uma consciência imaginada como coisa e perguntar se ela depende de dinâmica.

A matéria talvez não seja apenas onde a computação acontece

Em computadores digitais, tentamos controlar continuamente a matéria para produzir estados discretos e reproduzíveis.

No organismo, talvez algumas propriedades físicas sejam justamente parte da operação.

Fase.

Frequência.

Amplitude.

Propagação.

Interferência.

Potenciais de membrana.

Gradientes químicos.

Tensões.

Na proposta de Miller, ondas cerebrais podem influenciar a excitabilidade neuronal em escala mesoscópica e organizar populações neuronais em dinâmicas flexíveis e dependentes do contexto. PubMed

Isso conversa com o Monismo de Triplo Aspecto de Alfredo Pereira Jr., frequentemente discutido pela BrainLatam: matéria/energia, organização informacional e experiência não precisariam ser tratadas como três mundos independentes, mas como aspectos de uma mesma realidade. brainlatam

A pergunta então muda:

e se a matéria não for apenas suporte da informação?

E se a maneira como ela se move já participar do processamento?

Os sentidos não são cabos independentes

Aqui precisamos abandonar outra imagem simples: vários sentidos enviando dados independentes para uma central que depois os combina.

Na hipótese BrainLatam, os sentidos podem ser entendidos como níveis de ativação dentro de uma única configuração.

Todos os sentidos qualificam cada sentido.

Quando dizemos que estamos “vendo”, a visão pode possuir maior peso funcional naquele instante, mas audição, olfato, interocepção, propriocepção, equilíbrio, temperatura, nocicepção e os demais níveis sensoriais não desapareceram.

Um som pode modificar a percepção visual.

Uma imagem pode alterar aquilo que ouvimos.

Um odor pode qualificar o sabor.

A posição do corpo modifica aquilo que podemos perceber.

O estado interoceptivo pode modificar o peso de um som ameaçador.

A própria literatura sobre integração multissensorial mostra que modalidades sensoriais interagem em múltiplos estágios e que Atenção e integração multissensorial possuem influências bidirecionais. Trabalhos recentes descrevem a Atenção modulando ganho neural, fase temporal, integração entre modalidades e conectividade distribuída ao longo da hierarquia cortical. Frontiers

Portanto, talvez seja insuficiente pensar:

visão + audição + olfato + tato = percepção.

A proposta BrainLatam é mais dinâmica:

os níveis de ativação qualificam-se mutuamente e produzem uma configuração perceptiva do Corpo-Território naquele instante.

A Atenção não cria essa configuração

Esse ponto é central para a Consciência 5D.

A Atenção não precisa inaugurar aquilo que passa a destacar.

Uma diferença pode já estar sendo materialmente transduzida, modificando excitabilidade, sincronização, postura, respiração e metabolismo sem ocupar o primeiro plano atencional.

Quando a Atenção se dirige a ela, pode aumentar seu peso funcional.

Isso não significa simplesmente “mais eletricidade”.

A Atenção pode aumentar ganho, modificar sincronização, alterar precisão temporal e reorganizar a competição entre representações. Frontiers

Na linguagem BrainLatam:

a Atenção não acende algo que estava apagado. Ela amplia relações dentro de um Corpo-Território que já estava acontecendo.

A dor já modificava quem perceberia a dor

A dor é talvez o exemplo mais intuitivo.

Imagine alguém trabalhando enquanto uma dor nas costas começa a se formar.

Durante alguns minutos, a pessoa continua concentrada.

A dor ainda não domina a Atenção.

Mas isso não significa ausência de processamento.

Atividade nociceptiva, tensão muscular, postura, atividade autonômica, interocepção, memória e possibilidades de movimento já podem estar mudando. Sabemos também que Atenção pode modular significativamente a experiência da dor, sem que isso signifique que a Atenção crie do zero o processamento nociceptivo. ScienceDirect

Quando finalmente a pessoa pensa:

“estou com dor”

a Atenção não encontra um Corpo neutro esperando pela dor.

Encontra um Corpo-Território que já vinha sendo modificado por ela.

Podemos então formular:

o “eu de dor” começou a ser configurado antes de a dor ocupar o primeiro plano atencional.

Isso não significa confundir nocicepção e dor consciente.

Significa reconhecer que processos materiais que participarão da experiência podem começar antes de seu destaque explícito.

Ca²⁺: quando o nível de ativação também é matéria

“Nível de ativação” não precisa permanecer como metáfora psicológica.

Em neurônios, o Ca²⁺ é um mensageiro fundamental. Sua entrada em resposta à atividade sináptica ou a potenciais de ação participa da liberação de neurotransmissores, modulação de canais, plasticidade sináptica e ativação de processos celulares. PubMed

Esses sinais podem ser extremamente locais.

Uma única espinha dendrítica pode apresentar dinâmica própria de Ca²⁺, fazendo com que o encontro sináptico modifique materialmente condições celulares que influenciarão encontros seguintes. PubMed

Também existem ondas de Ca²⁺ em astrócitos, que podem envolver comunicação por junções comunicantes e sinalização extracelular, coordenando grupos de células e interagindo com neurônios, sinapses e vasculatura. PubMed

Isso não permite afirmar que:

“mais ativação sensorial = mais Ca²⁺”.

Seria simplista.

Mas permite dizer que níveis de atividade sensorial e atencional participam de condições eletroquímicas contínuas nas quais Ca²⁺ é um mediador importante.

Assim:

o encontro modifica materialmente as condições do próximo encontro.

ON, OFF e localização: diferença antes do significado

Um pequeno exemplo ajuda a tornar isso concreto.

Na retina, vias ON e OFF começam a separar aumentos e diminuições de luminância desde estágios iniciais do processamento visual. Elas participam da codificação de contraste e de diferentes aspectos da cena antes que exista uma “imagem pronta” esperando interpretação. PubMed Central (PMC)

Na audição ocorre algo igualmente interessante.

Para localizar sons, o sistema utiliza diferenças muito pequenas de tempo e intensidade entre os dois ouvidos. Circuitos especializados com excitação e inibição participam da transformação dessas diferenças físicas em informação espacialmente relevante. PubMed

Antes de sabermos o que foi dito, o Corpo pode já estar processando de onde veio o som.

O ponto não é existir um “neurônio da localização”.

É quase o contrário:

a localização emerge de relações entre níveis de atividade.

Isso combina fortemente com uma lógica analógica.

O sistema não precisa receber primeiro um símbolo chamado “esquerda”.

Pode transformar diferenças contínuas de tempo, intensidade, excitação e inibição em uma configuração espacialmente relevante.

Talvez não exista uma CPU biológica

Outro risco da metáfora computacional é imaginar uma central.

Mas organismos estão repletos de sistemas distribuídos.

Astrócitos comunicam-se.

Ondas de Ca²⁺ propagam estados.

Células imunes respondem localmente a sinais químicos e ao comportamento de outras células. Há inclusive literatura sobre mecanismos semelhantes a quorum sensing em populações imunológicas, nas quais respostas coletivas dependem da densidade e sinalização entre células. Nature

Isso não significa que leucócitos “pensem”.

Também não significa que uma onda de cálcio seja consciente.

Significa algo mais importante:

a vida consegue produzir coordenação sem concentrar toda a causalidade em um único centro.

Então talvez a pergunta não deva ser:

onde está o processador?

Mas:

como múltiplas dinâmicas locais produzem uma configuração global capaz de modificar aquilo que o organismo poderá perceber e fazer em seguida?

Consciência 5D: movimento que percebe Ser

É aqui que a proposta de Miller encontra nossa hipótese — sem validá-la.

Miller, Brincat e Roy propõem que ondas cerebrais possam participar da própria computação e contribuir para estados cognitivos coerentes. PubMed

A BrainLatam pergunta se essas ondas são apenas uma parte de uma dinâmica maior.

Respiração.

CO₂.

pH.

Fluxo sanguíneo.

Ca²⁺.

Spikes.

Campos elétricos.

Tensão muscular.

Movimento visceral.

Propriocepção.

Interocepção.

Dor.

Som.

Luz.

Olfato.

Memória.

Território.

Tudo isso acontece no mesmo organismo.

Tudo isso pode modificar, em escalas diferentes, as condições nas quais o próximo estímulo será encontrado.

No Monismo de Triplo Aspecto, não precisamos imaginar primeiro um corpo físico, depois informação e finalmente uma consciência observando tudo.

Podemos perguntar se o próprio acontecimento possui simultaneamente materialidade, organização e experiência. brainlatam

Talvez seja nesse sentido que nossa formulação ganhe precisão:

Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.

Não estamos dizendo que qualquer oscilação seja consciente.

Nem que qualquer computador analógico possua experiência.

Computar não é sentir.

Sentir não é necessariamente perceber-se Ser.

Mas, se consciência depender de uma configuração material dinâmica, talvez sua unidade não precise vir de um centro.

Talvez venha da coordenação suficiente de um Corpo distribuído.

Miller pergunta se o cérebro pode calcular por meio de suas próprias ondas.

A BrainLatam pode ampliar:

e se o Corpo-Território inteiro estiver continuamente transformando diferenças em estados que modificam aquilo que poderá ser percebido, avaliado e feito a seguir?

Talvez pensar não seja apenas processar dados.

Talvez seja produzir movimento capaz de transformar o próximo encontro.

E talvez a pergunta mais interessante deixe de ser:

onde está a consciência?

para tornar-se:

qual movimento material consegue, em determinado Corpo-Território, perceber-se Ser?

Referências

Miller, E. K., Brincat, S. L., & Roy, J. E. (2026). Analog Cognition and Consciousness. The Journal of Neuroscience, 46(33), e0711262026. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.0711-26.2026
Propõe que cognição e consciência possam depender de interações bidirecionais entre atividade de spikes e ondas cerebrais, permitindo organização flexível e computação analógica em larga escala. PubMed

Pereira Jr., A. — Monismo de Triplo Aspecto, discutido em textos da BrainLatam.
Oferece uma ponte conceitual entre materialidade, organização informacional e experiência, sem tratá-las como substâncias independentes. brainlatam

Kim, Y. J., & Lee, S.-H. (2026). Attentional modulation of multisensory integration across the cortical hierarchy. Frontiers in Neural Circuits, 20. https://doi.org/10.3389/fncir.2026.1920358
Mostra que Atenção e integração multissensorial dependem de mecanismos distribuídos, incluindo modulação de ganho, fase, integração e conectividade. Frontiers

Sabatini, B. L., et al. / Higley, M. J. & Sabatini, B. L. — trabalhos sobre sinalização de Ca²⁺ em espinhas e dendritos.
Mostram como Ca²⁺ conecta atividade sináptica a mudanças celulares locais e plasticidade, oferecendo um exemplo material de processamento dependente do estado. PubMed

Scemes, E., & Giaume, C. (2006). Astrocyte calcium waves: what they are and what they do. Glia, 54(7), 716–725. https://doi.org/10.1002/glia.20374
Descreve ondas de Ca²⁺ como uma forma de excitabilidade e comunicação em redes de astrócitos, ampliando a discussão sobre organização neural distribuída. PubMed

Kondo, M., et al. (2023). On and off signaling pathways in the retina and the visual system.
Revisa como vias ON e OFF separam contrastes desde os estágios iniciais da visão, exemplificando processamento paralelo e relacional antes de uma representação visual completa. PubMed Central (PMC)

Burger, R. M., Fukui, I., Ohmori, H., & Rubel, E. W. (2011). Inhibition in the balance: binaurally coupled inhibitory feedback in sound localization circuitry.
Mostra como diferenças temporais e relações excitatórias/inibitórias participam da localização auditiva em escalas extremamente rápidas. PubMed

Antonioli, L., Blandizzi, C., Pacher, P., Guilliams, M., & Haskó, G. (2018). Quorum sensing in the immune system. Nature Reviews Immunology, 18, 537–538.
Discute como populações de células imunes podem coordenar respostas coletivas por mecanismos dependentes da comunicação e densidade celular, oferecendo um exemplo de organização biológica distribuída. Nature






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States