Jackson Cionek
12 Views

E se a confusão for o momento em que começamos a pensar diferente?

E se a confusão for o momento em que começamos a pensar diferente?

Quando aquilo que sempre funcionou deixa de funcionar, talvez o problema não seja o corpo — talvez seja o modelo que ele está usando para atravessar um novo território

Imagine uma pessoa diante de algumas linhas de código.

Para o computador, não existe problema.

O código está sintaticamente correto.

Ele pode ser executado.

Mas, para quem está tentando compreendê-lo, alguma coisa parece estranha.

A estrutura sugere uma interpretação, enquanto o funcionamento real exige outra.

O programador olha novamente.

Talvez volte algumas linhas.

Reorganize mentalmente o que acabou de ler.

E tente construir uma interpretação diferente.

Foi esse pequeno instante de confusão que Annabelle Bergum e colegas investigaram em um estudo publicado em 2026 na Scientific Reports. (Nature)

A pergunta dos pesquisadores era específica:

o que acontece no processamento cerebral quando um programador encontra um trecho de código correto para a máquina, mas potencialmente confuso para o ser humano?

A resposta abre uma questão muito maior para a BrainLatam.

Talvez confusão não seja apenas aquilo que acontece quando não sabemos.

Talvez, algumas vezes, seja o instante em que aquilo que sabíamos deixa de ser suficiente.


Um código correto que consegue confundir

Bergum e colegas trabalharam com aquilo que a literatura de programação chama de “atoms of confusion”: pequenos padrões de código que funcionam corretamente, mas cuja estrutura pode levar programadores a interpretações equivocadas.

Os pesquisadores apresentaram trechos de código em Java em versões confusas e versões equivalentes mais fáceis de interpretar.

Os participantes podiam ler os códigos livremente, em vez de receber cada elemento isoladamente.

Esse detalhe é importante.

Em uma leitura natural, cada pessoa chega ao ponto problemático em um momento diferente.

Por isso, registrar apenas o EEG a partir do instante em que o código apareceu na tela não seria suficiente para saber exatamente quando ocorreu o encontro com a informação confusa.

Os pesquisadores combinaram então EEG e eye-tracking.

O movimento dos olhos permitia identificar a primeira fixação sobre a região crítica do código.

A partir desse instante, calculavam os potenciais relacionados à fixação — FRPs.

Participaram do experimento 24 pessoas, que analisaram trechos de código contendo ou não esses “átomos de confusão”. (Nature)

E os resultados comportamentais já indicavam uma diferença clara.

Os códigos confusos demoravam mais para ser compreendidos, produziam menos respostas corretas e eram avaliados com menor frequência como fáceis. (Nature)

Mas alguma coisa também acontecia no EEG.


Aproximadamente 400 milissegundos depois

Quando os participantes fixavam pela primeira vez a região contendo o elemento confuso, surgia uma positividade frontal tardia significativamente maior, especialmente entre aproximadamente 390 e 660 milissegundos, em comparação com o código equivalente e mais claro. (Nature)

Os pesquisadores observaram uma semelhança interessante com fenômenos descritos durante a compreensão da linguagem natural.

Palavras inesperadas, mas ainda plausíveis dentro de uma frase, também podem exigir que a pessoa atualize aquilo que estava construindo mentalmente sobre a situação.

Os autores propõem que algo semelhante pode estar acontecendo com o código:

a informação encontrada não é impossível.

Não é simplesmente um erro.

Mas não corresponde ao modelo que estava sendo utilizado até aquele instante.

Por isso, o modelo precisa ser atualizado. (Nature)

E aqui termina a conclusão do estudo.

A partir daqui começa nossa pergunta.


E se a confusão for necessária para perceber que o modelo mudou?

Na vida cotidiana, costumamos tratar confusão como um problema.

A pessoa que sabe é segura.

A pessoa que não sabe está confusa.

Mas talvez existam diferentes formas de confusão.

Existe a confusão porque falta informação.

Existe a confusão porque algo é incompreensível.

Mas talvez exista também uma terceira:

a confusão produzida quando encontramos um mundo no qual nosso modelo anterior já não funciona tão bem.

Nesse caso, confundir-se não seria necessariamente fracassar.

Poderia ser um sinal:

“Pare. O movimento que você preparou talvez não seja suficiente para aquilo que encontrou.”

E essa questão pode ser compreendida muito além da programação.


O migrante e os quatro Biomas

Imagine um migrante realizando uma longa travessia.

Primeiro, ele precisa atravessar uma grande mata.

Ali, determinado repertório pode ser extremamente valioso.

Um facão.

Conhecimento sobre caminhos.

Roupas apropriadas.

Formas específicas de obter alimento.

Conhecimentos transmitidos por sua cultura.

Uma maneira de interpretar sons, plantas, perigo e orientação.

Seu corpo aprende aquele território.

Agora ele chega a uma região de grandes lagos.

O facão continua existindo.

Mas talvez um barco passe a ser muito mais importante.

Aquilo que era indispensável no território anterior pode deixar de ocupar o centro das possibilidades.

Depois vem o deserto.

O barco que permitia atravessar o lago pode agora se transformar em peso.

Outras roupas tornam-se relevantes.

Outra organização de água.

Outro ritmo de deslocamento.

Outra maneira de reconhecer risco.

Depois aparecem os Andes.

Novamente muda o território.

Altitude.

Inclinação.

Temperatura.

Distâncias.

A maneira de caminhar.

O corpo que atravessa essas paisagens também não é abstrato.

Tem idade.

Força.

História.

Limitações.

Aprendizados.

Uma criança, um jovem e uma pessoa idosa não atravessam necessariamente o mesmo território dispondo do mesmo repertório de movimentos possíveis.

E não carregamos apenas tecnologias materiais.

Carregamos também:

linguagem.

cultura.

crenças.

memórias.

formas de cooperação.

formas de interpretar perigo.

formas de reconhecer caminhos.

Elas também são ferramentas construídas ao longo da história de um Corpo-Território.


Uma ferramenta pode deixar de ser ferramenta

Isso produz uma pergunta fundamental:

quando aquilo que nos ajudou a sobreviver em um território começa a dificultar nossa passagem pelo próximo?

O facão não ficou “errado”.

O barco não ficou “errado”.

O repertório anterior não era inútil.

Ele tinha uma história e uma função.

O problema aparece quando uma ferramenta construída para um território continua sendo utilizada como se o território não tivesse mudado.

Talvez algo parecido aconteça com determinadas crenças.

Hábitos.

Estratégias.

Identidades.

Modelos mentais.

Formas de trabalhar.

Formas de ensinar.

Formas de governar.

Aquilo que resolveu um problema no passado pode se tornar insuficiente diante de uma realidade diferente.

E talvez a confusão seja justamente um dos primeiros sinais dessa incompatibilidade.


Onde entra a Zona 2?

Bergum e colegas não estudaram Zona 2.

A positividade frontal observada no estudo não é um marcador de Zona 2.

É importante dizer isso claramente.

Zona 2 é uma hipótese conceitual BrainLatam.

Chamamos de Zona 2 uma condição na qual o organismo consegue criar espaço para Fruição, Metacognição e criticidade, percebendo aquilo que está fazendo antes de simplesmente continuar reproduzindo o mesmo movimento.

A pergunta que o estudo nos permite formular é:

quando uma expectativa falha, podemos utilizar esse instante para perceber o próprio modelo que está falhando?

Porque existem pelo menos duas respostas possíveis à confusão.

Uma delas é insistir.

Tentar fazer o novo território caber dentro do antigo modelo.

Outra é perguntar:

“O que estou usando para interpretar isto?”

Essa segunda pergunta é profundamente metacognitiva.

Não pergunta apenas:

“O que está acontecendo?”

Pergunta também:

“Como estou tentando compreender aquilo que está acontecendo?”


Confusão não é automaticamente transformação

Precisamos fazer outro cuidado.

Encontrar algo inesperado não significa que uma pessoa necessariamente refletirá sobre aquilo.

Podemos rejeitar a informação.

Ignorá-la.

Ficar paralisados.

Voltar rapidamente ao modelo anterior.

Procurar apenas informações que confirmem aquilo em que já acreditávamos.

Portanto:

confusão não é Zona 2.

Mas talvez possa criar uma oportunidade para Zona 2.

O momento em que o modelo deixa de explicar perfeitamente a experiência pode abrir uma pequena janela:

continuar repetindo?

ou observar?


A pergunta latino-americana

A América Latina talvez conheça muito bem esse problema.

Frequentemente utilizamos modelos econômicos, educacionais, urbanos, tecnológicos ou políticos construídos em outros territórios e perguntamos por que não produzem exatamente os mesmos resultados aqui.

Mas e se a pergunta precisar ser invertida?

Esse modelo consegue perceber o território no qual está tentando funcionar?

Uma tecnologia criada para uma grande cidade consegue compreender uma comunidade amazônica?

Uma política desenhada a partir da renda consegue compreender diferentes condições de território?

Uma escola organizada em uma única língua consegue reconhecer outras maneiras de produzir conhecimento?

Uma cidade projetada para determinado corpo considera crianças, idosos, pessoas com deficiência ou pessoas que atravessam longas distâncias?

Talvez algumas de nossas maiores confusões institucionais apareçam quando tentamos atravessar um novo Bioma carregando exclusivamente as ferramentas do anterior.


Onde termina o artigo e começa a BrainLatam

Bergum e colegas mostraram que trechos de código confusos, embora válidos para o computador, produzem maior dificuldade comportamental e uma positividade frontal tardia após o primeiro olhar para a região crítica. Os autores relacionam esse fenômeno à necessidade de atualizar um modelo da situação diante de uma informação inesperada, mas plausível. (Nature)

Até aqui:

Bergum e colegas.

A partir daqui:

BrainLatam.

Nossa hipótese não é que confusão seja necessariamente consciência ou metacognição.

Nossa pergunta é:

a percepção de que nosso modelo deixou de funcionar pode criar as condições necessárias para que outro movimento se torne possível?

E então podemos perguntar experimentalmente.

O que acontece quando o participante consegue resolver a incongruência?

O que acontece quando insiste no modelo anterior?

O que acontece quando recebe tempo para refletir sobre seu próprio erro?

EEG e eye-tracking poderiam distinguir esses momentos?

A resposta fisiológica muda quando a pessoa apenas corrige o problema e quando consegue explicar por que sua interpretação anterior falhou?

Talvez seja possível estudar não apenas quando um organismo encontra algo inesperado.

Mas quando ele consegue transformar esse estranhamento em uma nova maneira de perceber.

Porque inteligência talvez não seja carregar a melhor ferramenta.

Talvez seja perceber quando ela deixou de ser a melhor ferramenta para o território que temos diante de nós.

E isso vale para um código.

Para um migrante.

Para uma cultura.

E talvez também para um Estado.

Neuro Desafio Latam

Imagine que amanhã você precise atravessar um território completamente diferente daquele no qual aprendeu a viver.

Qual conhecimento você levaria consigo — e qual precisaria estar disposto a abandonar para conseguir perceber os novos movimentos que aquele território exige?


Referência científica

Bergum, A., Maurer, A.-M., Peitek, N., Bader, R., Mecklinger, A., Demberg, V., Siegmund, J., & Apel, S. (2026). Fixation-related potentials reveal that confusing program code elicits a late frontal positivity. Scientific Reports, 16, 16833. https://doi.org/10.1038/s41598-026-50946-9







#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States