Jackson Cionek
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Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social

Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social

Soberania Democrática 5.0 — Segurança Nacional a partir do Corpo-Território

Entender sistemas coletivos muda a forma como a gente percebe Segurança Nacional.

Quando olhamos o Brasil como Corpo-Território, percebemos que cada instituição funciona como parte de uma rede viva. Quartéis, escolas, universidades, municípios, centros de pesquisa, sistemas de saúde, redes digitais, infraestruturas críticas e comunidades formam um organismo democrático distribuído.

A lente de Jiwasa nos ajuda a sentir isso.

Jiwasa é o “a gente” percebendo junto.

É a inteligência coletiva que surge quando corpos diferentes, em territórios diferentes, aprendem a cooperar dentro de funções, responsabilidades e competências.

Nas Forças Armadas, isso abre uma possibilidade importante: ampliar a percepção coletiva preservando a hierarquia institucional.

A hierarquia organiza comando, disciplina, prontidão e execução.

A competência qualifica a atuação prática.

Quem entende melhor uma ameaça digital precisa ser ouvido.

Quem domina análise de redes ajuda a ler o ambiente informacional.

Quem conhece ciência de dados apoia a decisão.

Quem compreende psicologia social ajuda a interpretar movimentos coletivos.

Quem conhece direitos constitucionais protege a legitimidade da ação.

Assim, a instituição ganha dinamismo e mantém organização.

Formação militar para o século XXI

A formação militar clássica preparou gerações para disciplina, comando, preparo físico, logística, estratégia, defesa territorial e operação em situações críticas.

Essas capacidades continuam centrais.

Agora, o território também se manifesta em redes digitais, dados, algoritmos, narrativas, infraestrutura computacional, fluxos financeiros, ataques cibernéticos e manipulação emocional coletiva.

Por isso, uma Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social deve formar militares capazes de compreender:

  • análise de redes;

  • ciência de dados;

  • cibersegurança;

  • inteligência artificial;

  • psicologia social;

  • neurociência decolonial;

  • guerra informacional;

  • direitos constitucionais;

  • proteção de infraestruturas críticas;

  • soberania digital;

  • ética pública;

  • comunicação estratégica;

  • cultura democrática.

Essa formação permite que a atuação militar se torne mais precisa, preventiva e conectada às ameaças reais do século XXI.

Sair da percepção colonial

A percepção colonial ensina a ver o mundo por blocos rígidos.

Centro e periferia.

Comando e obediência.

Elite e massa.

Estado e povo.

Tecnologia de fora e território de dentro.

Essa forma de ver reduz a inteligência coletiva.

A Soberania Democrática 5.0 propõe outra base: estudar os movimentos coletivos com ciência e evidência, a partir do território onde a vida acontece.

O Brasil precisa compreender seus próprios padrões.

Como adolescentes são mobilizados por redes sociais.

Como campanhas de desinformação ganham força.

Como emoções coletivas se espalham.

Como grupos econômicos capturam narrativas.

Como ataques reputacionais atingem instituições.

Como algoritmos modulam pertencimento, medo, raiva e confiança.

Como comunidades percebem riscos antes das estruturas centrais.

Como uma crise local pode se transformar em ameaça nacional.

Essa leitura exige ciência, dados, neurociência social, antropologia, ciência política, cibersegurança, inteligência territorial e respeito à Constituição.

Neurociência Decolonial, Psicologia Social e Soberania Cognitiva

A Inteligência Social do século XXI exige uma atualização científica importante.

A Psicologia Social produziu conhecimentos relevantes sobre cooperação, liderança, identidade, influência social, formação de grupos e comportamento coletivo.

Ao mesmo tempo, uma parcela significativa dessas teorias foi construída em contextos culturais específicos da Europa Ocidental e da América do Norte, utilizando populações urbanas, escolarizadas, industrializadas e altamente individualizadas.

Nas últimas décadas, a própria ciência passou a discutir esse fenômeno.

Esse debate ficou conhecido pela literatura sobre populações WEIRD: Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic.

Pesquisadores demonstraram que muitos comportamentos tratados como universais podem representar características específicas de determinadas culturas.

Essa observação possui enorme importância para a Segurança Nacional.

Quando modelos importados passam a orientar a interpretação dos movimentos coletivos brasileiros sem validação territorial adequada, podem surgir distorções na leitura do Corpo-Território.

A Neurociência Decolonial amplia essa reflexão.

Ela propõe que a gente observe como pertencimento, cooperação, autoridade, identidade e confiança emergem dos processos reais de convivência humana dentro do território.

O Brasil emerge de milhares de anos de desenvolvimento ameríndio, das contribuições africanas, europeias, asiáticas e latino-americanas que formaram uma das sociedades mais complexas do planeta.

Por isso, compreender movimentos coletivos brasileiros exige ciência produzida também a partir da realidade brasileira e latino-americana.

A soberania cognitiva depende da capacidade de produzir conhecimento sobre nós mesmos.

Corpo-Território como unidade fundamental do Estado

A Neurociência Decolonial propõe que a unidade fundamental do Estado seja o Corpo-Território.

O Estado deixa de ser percebido apenas como uma estrutura jurídica abstrata.

Ele passa a ser percebido como a organização das necessidades reais dos corpos que vivem em um território.

A alimentação.

A água.

A energia.

A saúde.

A educação.

A segurança.

A mobilidade.

A comunicação.

A cultura.

A ciência.

Tudo isso forma o metabolismo do Corpo-Território.

A defesa nacional passa então a proteger as condições que permitem a continuidade da vida coletiva.

Clãs Inclusivos e Clãs Exclusivos

Acima do Corpo-Território aparecem os Clãs.

Os clãs representam agrupamentos humanos naturais.

Podem ser culturais, profissionais, religiosos, acadêmicos, esportivos, territoriais, empresariais, artísticos, científicos, tecnológicos ou afetivos.

Os Clãs Inclusivos ampliam pontes entre diferentes grupos, favorecendo cooperação, circulação de ideias, compartilhamento de conhecimento e produção coletiva.

Os Clãs Exclusivos expressam a peculiaridade de cada indivíduo em participar deste ou daquele conjunto de pertencimentos.

Aqui, o termo "exclusivo" representa a singularidade natural dos percursos humanos.

Cada pessoa participa de combinações próprias de pertencimento.

Alguns encontram forte regulação emocional em comunidades religiosas.

Outros em ambientes científicos.

Outros em grupos esportivos.

Outros em tradições culturais.

Outros em comunidades artísticas.

Outros em redes profissionais.

Outros em formas híbridas que atravessam diferentes territórios de convivência.

Esses pertencimentos fazem parte da dinâmica natural dos sistemas humanos.

A função do Estado Democrático de Direito é criar condições para que essa diversidade floresça.

O Estado protege o espaço comum.

Os clãs desenvolvem suas identidades.

A Constituição organiza a convivência.

O Corpo-Território mantém a unidade.

Essa estrutura gera uma visão mais dinâmica da sociedade.

Em vez de classificar grupos como corretos ou incorretos com base em preferências culturais ou ideológicas, passamos a observar como diferentes formas de pertencimento contribuem para a estabilidade do território, para a criatividade coletiva e para a capacidade de cooperação social.

Quanto maior a variedade de formas legítimas de pertencimento, maior a resiliência do sistema social diante de radicalizações, polarizações artificiais, operações de influência e tentativas de fragmentação do território.

A força do Brasil nasce da capacidade de permanecer unido sem exigir uniformidade.

A soberania nacional protege o espaço comum.

Os clãs expressam a diversidade.

O Corpo-Território mantém a continuidade da vida coletiva.

Jiwasa dentro da hierarquia

Jiwasa qualifica liderança.

Em sistemas complexos, liderança boa é aquela que percebe onde está a competência necessária para cada situação.

Em uma operação digital, o especialista em redes pode enxergar primeiro.

Em uma crise informacional, o analista de comunicação pode perceber o padrão.

Em uma emergência territorial, a comunidade local pode sentir antes.

Em uma ameaça cibernética, o técnico pode identificar o sinal inicial.

Em uma decisão estratégica, o comando integra tudo.

Esse modelo preserva a cadeia de comando e melhora a resposta.

A escuta técnica se torna mais inteligente.

A decisão final ganha mais qualidade.

A instituição passa a operar como rede neural: cada parte percebe, comunica, processa e responde dentro de sua função.

Cibersegurança como defesa do Corpo-Território

A Estratégia Nacional de Cibersegurança, instituída pelo Decreto nº 12.573/2025, mostra que o Brasil já reconhece a cibersegurança como dimensão estratégica do Estado.

Essa agenda precisa entrar com força na formação militar.

Ataques digitais podem atingir hospitais, energia, telecomunicações, sistemas financeiros, escolas, universidades, prefeituras e serviços públicos.

Quando um sistema público cai, o Corpo-Território sente.

Quando dados são sequestrados, a confiança coletiva sofre.

Quando uma infraestrutura crítica é atacada, a soberania vira urgência.

A Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social deve formar quadros capazes de atuar em parceria com órgãos civis, universidades, centros de pesquisa, empresas estratégicas e estruturas de governo.

Guerra Informacional e Defesa Cognitiva

A guerra informacional atua sobre emoções coletivas.

Ela explora medo, raiva, humilhação, pertencimento, desejo de reconhecimento e sensação de ameaça.

A análise de redes permite identificar campanhas coordenadas, estruturas artificiais de amplificação, operações de influência e ataques reputacionais.

A ciência de dados transforma sinais dispersos em padrões observáveis.

A psicologia social ajuda a compreender dinâmicas coletivas.

A Neurociência Decolonial amplia essa compreensão ao incorporar Corpo-Território, pertencimento, diversidade cultural e realidades latino-americanas.

Isso reduz o risco de interpretar o Brasil exclusivamente através de lentes produzidas para outros contextos históricos.

A defesa cognitiva passa então a proteger a capacidade coletiva de percepção.

A população continua livre para pensar.

A democracia continua aberta ao debate.

A soberania ganha instrumentos para compreender tentativas de manipulação em larga escala.

IA brasileira na formação militar

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê soluções de IA para melhorar serviços públicos, inclusão social, infraestrutura de alto desempenho e desenvolvimento de algoritmos avançados no Brasil.

Essa agenda aponta para a necessidade de o Brasil ser produtor de tecnologia, e não apenas consumidor de sistemas estrangeiros.

Na formação militar, isso significa estudar IA aplicada a:

  • detecção de ataques cibernéticos;

  • análise de redes sociais;

  • proteção de infraestruturas críticas;

  • simulações estratégicas;

  • logística inteligente;

  • triagem de riscos;

  • monitoramento territorial;

  • apoio à decisão;

  • preservação de evidências digitais;

  • identificação de dependências tecnológicas.

A IA deve apoiar decisão humana, auditoria institucional e proteção constitucional.

Ela aumenta a capacidade de percepção do Estado quando opera com transparência, controle, segurança de dados e compromisso democrático.

Ciência, evidência e soberania

O Edital FAPESC nº 60/2025 reforça a conexão entre ciência, tecnologia, soberania e defesa nacionais, com foco em tecnologias estratégicas, formação e cooperação técnico-científica.

Esse tipo de iniciativa mostra o caminho.

A defesa nacional precisa dialogar com universidades, institutos federais, laboratórios, pesquisadores, engenheiros, cientistas de dados, especialistas em comportamento coletivo, juristas, profissionais de saúde mental, educadores e comunidades.

A ciência amplia o alcance da hierarquia.

A evidência melhora a decisão.

O território dá sentido à missão.

A Constituição garante legitimidade.

Direitos constitucionais como tecnologia de defesa

Uma Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social precisa colocar os direitos constitucionais no centro da formação.

Liberdade de expressão.

Privacidade.

Devido processo legal.

Ampla defesa.

Proteção de dados.

Controle civil.

Transparência.

Finalidade pública.

Esses princípios funcionam como tecnologias institucionais de defesa democrática.

Eles impedem que a proteção do Estado se transforme em abuso.

Também protegem as próprias Forças Armadas, mantendo sua atuação dentro de legitimidade, confiança pública e estabilidade constitucional.

Conclusão

A Escola Militar de Cibersegurança e Inteligência Social nasce da necessidade de atualizar a percepção das Forças Armadas para o século XXI.

A gente vive em um Corpo-Território físico, digital, informacional, econômico e ecológico.

A defesa nacional precisa perceber todas essas camadas.

Jiwasa nos mostra que a inteligência coletiva cresce quando cada parte contribui com sua competência.

A hierarquia organiza.

A ciência qualifica.

A tecnologia amplia.

A Constituição legitima.

O território orienta.

A Neurociência Decolonial protege a soberania cognitiva ao lembrar que o Brasil precisa estudar seus próprios movimentos coletivos a partir de sua própria realidade histórica, cultural e territorial.

Com essa formação, as Forças Armadas podem atuar com mais dinamismo, precisão e integração democrática.

A gente deixa de ver o mundo por lentes coloniais e passa a estudar os movimentos coletivos com ciência, evidência e pertencimento.

Assim, Segurança Nacional deixa de ser apenas reação ao perigo.

Ela se torna capacidade coletiva de perceber, cuidar e proteger o Brasil que a gente é.

Referências

  1. Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

  2. Brasil. Decreto nº 12.573/2025 — Estratégia Nacional de Cibersegurança.

  3. Gabinete de Segurança Institucional. Estratégia Nacional de Cibersegurança — E-Ciber.

  4. Governo Federal. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028.

  5. FAPESC. Edital de Chamada Pública nº 60/2025 — Programa de Estímulo a Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais.

  6. FAPESC. Resultado final do Edital nº 60/2025 — Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais.

  7. Muthukrishna, M.; Bell, A. V.; Henrich, J.; Curtin, C. M.; Gedranovich, A.; McInerney, J.; Thue, B. Beyond WEIRD Psychology: Measuring and Mapping Scales of Cultural and Psychological Distance. Psychological Science, 2020.

  8. Henrich, J. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020.

  9. MIT Open Encyclopedia of Cognitive Science. WEIRD. 2024.

  10. Escobar, A. Pluriversal Politics: The Real and the Possible. Duke University Press, 2020.

  11. FGV Direito SP / CEPI; ISOC Brasil. Soberania Digital: Para quê e para quem? 2024.

  12. CNJ. O uso da inteligência artificial generativa no Poder Judiciário brasileiro: relatório de pesquisa. 2024.

  13. CNJ. Pesquisa Inteligência Artificial no Judiciário 2024.

  14. Data Privacy Brasil. IA com Direitos. 2025.

  15. Coradin, C. Contribuições do conceito de corpo-território para a saúde coletiva e perspectivas latino-americanas. 2024.

  16. Gay-Antaki, M. Cuerpo-Territorio and Decolonial Feminist Pathways to Justice. 2025.





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States