Infraestrutura do Pertencimento
Infraestrutura do Pertencimento - Redes sociais sequestro interoceptivo e o papel do CBDC de varejo e DREX Cidadão
Se os textos anteriores mostraram que crises sociais profundas começam no corpo — e que imagens internas organizam pertencimento antes das palavras — chegamos agora à pergunta inevitável:
Quem regula o ambiente onde pertencimento é produzido hoje?
No século XXI, essa resposta mudou radicalmente.
Quando o pertencimento sai da aldeia e entra no algoritmo
Historicamente, pertencimento era regulado por territórios físicos: família, comunidade, língua, espiritualidade local. Esses sistemas funcionavam como reguladores interoceptivos coletivos. Eles modulavam ritmo, identidade, valor e sentido.
Hoje, grande parte dessa regulação foi deslocada para ambientes digitais.
As redes sociais não apenas comunicam conteúdo — elas produzem estados corporais em escala. Operam diretamente sobre comparação social, antecipação de recompensa, vigilância simbólica e humilhação pública.
Em termos BrainLatam:
não disputam apenas atenção,
disputam Utupe e Pei Utupe.
Ou seja, disputam as imagens internas que organizam o corpo.
O sequestro silencioso da interocepção
O ponto mais crítico não é ideológico, mas fisiológico.
Plataformas digitais foram projetadas para maximizar retenção, não regulação humana. Isso gera efeitos previsíveis:
hiperestimulação dopaminérgica intermitente,
ansiedade antecipatória,
comparação permanente,
colapso de pertencimento estável.
A consequência não é apenas psicológica. É interoceptiva.
O corpo perde previsibilidade. E sem previsibilidade, perde capacidade de retornar à Zona 2 (fruição e metacognição). O resultado coletivo é um aumento de estados de contração: mais reatividade, mais polarização, menos senso crítico.
Isso explica por que sociedades hiperconectadas podem apresentar simultaneamente:
mais informação,
menos sabedoria,
mais discurso,
menos pertencimento.
A economia da escassez emocional
Existe um segundo eixo menos discutido, mas igualmente importante: a relação entre escassez material e captura simbólica.
Ambientes de instabilidade econômica aumentam vigilância interoceptiva basal. O cérebro passa a operar em modo de sobrevivência. Nessa condição, torna-se mais vulnerável a narrativas que prometem status, validação ou futuro.
Redes sociais exploram exatamente essa brecha: oferecem pertencimento simbólico onde falta pertencimento material.
Isso cria um ciclo fechado:
escassez material → captura simbólica → mais anergia → menos autonomia → mais captura.
Romper esse ciclo exige mais do que educação digital. Exige infraestrutura de regulação do pertencimento.
CBDC de varejo como tecnologia de regulação social
É nesse ponto que entra uma ideia ainda pouco compreendida: o papel das moedas digitais de banco central (CBDC) em nível cidadão.
A maioria das discussões sobre CBDCs gira em torno de eficiência financeira. Mas existe uma camada mais profunda: regulação interoceptiva coletiva.
Quando desenhado como infraestrutura de base — como no conceito de DREX Cidadão — um CBDC de varejo pode funcionar como:
estabilizador de previsibilidade mínima,
redutor de anergia crônica,
amplificador de autonomia corporal.
Não se trata de assistencialismo. Trata-se de fisiologia social.
Assim como células precisam de fluxo energético estável para manter função, sistemas humanos precisam de um mínimo de estabilidade para sustentar cognição flexível.
Sem isso, o cérebro permanece em modo de sobrevivência.
DREX Cidadão: pertencimento como metabolismo social
O conceito de DREX Cidadão propõe uma inversão simples e radical:
o dinheiro deixa de ser apenas instrumento de mercado e passa a operar também como infraestrutura de pertencimento.
Isso muda o eixo da discussão.
Em vez de perguntar apenas:
“Quanto crescimento econômico produzimos?”
Passamos a perguntar:
“Quanta autonomia interoceptiva uma sociedade consegue sustentar?”
Estabilidade financeira mínima não compra felicidade. Mas reduz ruído fisiológico. E reduzir ruído fisiológico aumenta:
capacidade de atualização cognitiva,
criatividade,
cooperação social,
senso de futuro não capturado.
Em linguagem BrainLatam: aumenta a probabilidade de retorno coletivo à Zona 2.
Regular redes não é censurar ideias
A outra metade da equação é frequentemente mal compreendida.
Se redes sociais modulam estados corporais em escala, então regulá-las não é apenas uma questão de liberdade de expressão — é uma questão de saúde civilizatória.
Isso não implica controle ideológico. Implica regulação estrutural:
transparência algorítmica,
limites ao design aditivo,
proteção interoceptiva para jovens,
auditoria de ambientes que amplificam humilhação pública.
O objetivo não é controlar pensamento. É proteger o corpo coletivo de arquiteturas que sequestram pertencimento.
Política como regulação da fisiologia coletiva
Esse é talvez o ponto mais difícil — e mais necessário.
Durante séculos, política foi discutida como disputa de ideologias. Mas, sob a lente da interocepção, política revela outra camada:
política é engenharia de estados corporais coletivos.
Infraestruturas econômicas regulam previsibilidade.
Infraestruturas simbólicas regulam pertencimento.
Infraestruturas digitais regulam atenção.
Juntas, elas moldam a qualidade da consciência coletiva.
Um novo critério civilizatório
Talvez estejamos entrando em um momento onde o critério de maturidade social deixa de ser apenas PIB, tecnologia ou poder militar.
Um novo critério começa a emergir:
A capacidade de uma sociedade de sustentar pertencimento sem sequestro simbólico.
Sob essa lente:
redes não reguladas fragmentam,
escassez prolongada contrai,
pertencimento estável expande.
Não é uma tese ideológica. É uma hipótese regulatória.
Fechando a trilogia
Se o primeiro texto começou no corpo,
e o segundo nas imagens que organizam o corpo,
este terceiro fecha o círculo no ambiente que molda essas imagens.
Corpo, cultura e infraestrutura não são camadas separadas. São níveis do mesmo sistema.
E talvez a pergunta mais importante do nosso tempo não seja tecnológica nem econômica, mas profundamente humana:
Que tipo de ambiente queremos que forme nossas imagens internas?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas nossas políticas, mas a própria qualidade da consciência coletiva nas próximas gerações.
Referências (pós-2021)
Neurociência, interocepção e regulação
Khalsa, S. S., et al. (2022). Interoception and mental health: a roadmap. Biological Psychiatry CNCN.
Chen, W. G., et al. (2021). The emerging science of interoception. Trends in Neurosciences.
Seth, A. (2023). Being You – updated predictive processing perspectives. (edições recentes e revisões científicas).
Redes sociais e saúde mental
Twenge, J. M., & Campbell, W. K. (2022). Social media use and mental health: meta-analytic updates. Journal of Adolescence.
Orben, A., & Przybylski, A. K. (2023). Adolescent well-being and digital technology. Nature Human Behaviour.
Economia, cultura e sistemas (LatAm incluído)
Gómez-Carrillo, A., et al. (2023). Cultural-ecosocial systems in psychiatry. The Lancet Psychiatry. #eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização