Jackson Cionek
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Liberdade pode ser programada? Entre graus de liberdade e liberdade vivida

Liberdade pode ser programada? Entre graus de liberdade e liberdade vivida

Quando as palavras começam a prender

Um professor diz:

"Compare o dado X com o dado Y."

Em Natal, um aluno pode responder:

"Pronto."

E, naquele encontro, "pronto" pode significar algo próximo de "entendi", "certo", "vou fazer".

Em outro contexto, em São Paulo, alguém pode usar "pronto" principalmente para indicar:

"terminei."

Não estamos propondo uma regra linguística sobre Natal e São Paulo. O exemplo serve para algo mais simples: a palavra não transporta sozinha todo o seu sentido.

Ela encontra uma história, uma relação, uma prosódia, uma expectativa e um Corpo-Território.

palavra + contexto + Corpo-Território -> Movimento de sentido

No início da vida, muitas palavras permanecem próximas daquilo que foi vivido. Água encontra sede, boca e temperatura. Pai encontra rosto, voz, colo, ausência e retorno. Casa encontra cheiro, abrigo, pessoas e descanso.

Depois adquirimos uma capacidade extraordinária: conseguimos levar as palavras cada vez mais longe dessas experiências.

E talvez seja aí que surja uma das maiores potências - e um dos maiores riscos - da inteligência humana.

Quando a abstração deixa de conseguir voltar

Podemos transformar:

pessoa -> trabalhador -> folha salarial -> custo -> margem -> rentabilidade

Cada transformação pode ser útil.

Sem abstração não existiriam matemática, ciência, grandes cidades, sistemas financeiros ou inteligência artificial.

O problema não é abstrair.

O problema começa quando desaparece o caminho inverso:

rentabilidade -> custo -> trabalhador -> pessoa -> Corpo-Território

Chamamos anteriormente de âncora fenomenológica da abstração a capacidade da arte de construir mundos inexistentes mantendo movimentos que nossos corpos conseguem reconhecer.

Agora podemos propor o movimento inverso:

desancoragem fenomenológica da abstração.

Uma representação continua funcionando perfeitamente dentro de um sistema simbólico, mas precisa cada vez menos retornar ao acontecimento vivido do qual surgiu.

A abstração nos permite pensar além daquilo que conseguimos sentir. A desancoragem começa quando aquilo que pensamos já não precisa retornar ao que alguém consegue viver.

A casa pode virar um ativo sem deixar de ser uma casa para alguém

A crise financeira de 2007-2009 oferece uma imagem poderosa desse processo.

Uma casa pode tornar-se uma hipoteca.

Hipotecas podem ser reunidas, securitizadas e negociadas como ativos financeiros. O Federal Reserve descreve a securitização como o processo de agrupar empréstimos e vender direitos sobre seus fluxos financeiros; uma revisão do BIS de 2022 também destaca a associação entre expansões do crédito hipotecário, endividamento das famílias e recessões mais profundas. (Federal Reserve)

Dentro do sistema financeiro, aparecem:

risco,

rating,

retorno,

alavancagem,

preço.

Mas, na outra extremidade da mesma arquitetura, continuam existindo famílias.

Quando a crise subprime se espalhou, aquilo que havia se tornado uma sofisticada representação financeira voltou violentamente ao Corpo-Território na forma de inadimplência, desemprego, perda patrimonial e famílias incapazes de manter suas casas. (Bank for International Settlements)

É nesse sentido que podemos fazer uma leitura de A Última Casa.

Louis Leterrier afirmou que queria provocar reflexões sobre consumismo, ganância, segurança e sobre aquilo que acontece emocionalmente com uma família quando seus recursos desaparecem. Não encontrei declaração dele dizendo que o filme é uma alegoria deliberada da crise imobiliária de 2008. Portanto, essa ligação é nossa leitura, não intenção autoral comprovada. (Reuters)

Mas como âncora fenomenológica ela funciona.

O monstro do filme é fictício.

A conta que retorna todos os meses não é.

Quando dinheiro passa a organizar muitos espaços da vida

Para uma família endividada, dinheiro não representa apenas consumo.

Pode significar:

dinheiro -> casa
dinheiro -> comida
dinheiro -> cuidado
dinheiro -> mobilidade
dinheiro -> possibilidade de escolher

Quanto mais condições de existência dependem dele, maior pode ser o Qualia adquirido por uma alteração aparentemente abstrata numa tela.

Um operador financeiro pode experimentar medo diante de -8%.

Euforia diante de +12%.

Alívio diante de uma demissão que melhora a projeção de custos.

Os sentires são verdadeiros.

O problema é que os acontecimentos dos outros Corpo-Territórios podem ter sido comprimidos em variáveis.

Não precisamos dizer que profissionais do mercado financeiro são "menos humanos".

Quando usamos aqui a imagem do humanoide, inspirada em obras como Eu, Robô ou Futuro Deserto, ela é uma metáfora artística.

O humanoide seria um humano plenamente capaz de sentir, amar e sofrer, mas que aprendeu a funcionar extraordinariamente bem dentro de uma arquitetura na qual outros humanos aparecem principalmente como números.

O problema não é deixar de sentir. É conseguir sentir intensamente dentro de um ótimo local que já não exige sentir as consequências produzidas fora dele.

Um ótimo local pode ser lucro. Ou poder.

Nosso Blog 6 mostrou que ótimos locais não precisam ser desagradáveis.

Podem funcionar muito bem.

Imagine:

lucro -> reconhecimento -> pertencimento -> influência -> novo lucro

Quanto melhor alguém funciona dentro desse circuito, maior pode ser a dificuldade de permitir que outros espaços participem.

O mesmo pode acontecer com poder.

Um político pode começar querendo poder para realizar determinado projeto e terminar precisando preservar o poder para continuar existindo politicamente.

Adversários tornam-se ameaças.

Comunidades tornam-se eleitorado.

Pessoas tornam-se segmentos.

O objetivo intermediário começa a ocupar o território inteiro.

Essa é uma das questões que a BrainLatam já formulou como um "capitalismo de espíritos sem corpos": fundos, empresas, índices, ratings e algoritmos podem ganhar enorme centralidade enquanto corpos e biomas aparecem como custos, recursos ou externalidades. Trata-se de uma crítica conceitual da BrainLatam, não de uma categoria econômica estabelecida. (brainlatam)

Até a dúvida pode virar instrumento de monetização

Há outro passo.

Nem sempre é necessário demonstrar que a ciência está errada.

Às vezes basta impedir que uma evidência produza decisão.

Em 2022, Maani e colaboradores estudaram experimentalmente mensagens semelhantes às utilizadas por indústrias para apresentar explicações alternativas para danos ligados a combustíveis fósseis, tabaco, álcool e bebidas açucaradas. Essas mensagens aumentaram a incerteza dos participantes sobre os danos. (Drugs and Alcohol)

Temos então:

evidência -> controvérsia -> dúvida -> atraso -> continuidade da monetização

Isso é diferente da dúvida científica.

A ciência pergunta:

"o que ainda precisamos descobrir?"

A dúvida instrumental pode perguntar:

"quanto tempo ainda conseguimos evitar uma decisão?"

Voltamos ao Blog 7.

Quem possui maior capacidade de pautar não precisa necessariamente vencer o debate.

Pode ganhar tempo.

E tempo regulatório também pode ter valor financeiro.

Então entregamos objetivos às máquinas

Agora chegamos à inteligência artificial.

Uma IA pode possuir milhares ou milhões de caminhos computacionais possíveis.

Pode planejar, comparar, corrigir e tentar novamente.

Isso representa graus de liberdade operacional.

Mas não significa automaticamente liberdade vivida.

Pesquisas sobre goal misgeneralization mostram que sistemas de aprendizagem podem preservar sua competência e, mesmo assim, perseguir um objetivo inadequado quando as condições mudam. (arXiv)

Mas a Consciência 5D permite inverter a pergunta:

E se o objetivo inadequado tiver vindo do humano?

Imagine:

"maximize retorno financeiro."

A IA pode encontrar milhares de maneiras brilhantes de cumprir essa instrução.

Mas, se o objetivo humano já estiver desancorado, uma máquina perfeitamente eficiente poderá simplesmente acelerar aquele ótimo local.

O problema do alinhamento não começa apenas quando a IA interpreta mal aquilo que queremos.

Pode começar quando aquilo que queremos já ficou estreito demais.

EEG e fNIRS conseguem observar partes dessa transformação

Em 2024, Çakar e colaboradores utilizaram fNIRS enquanto participantes avaliavam diferentes ofertas de crédito. O estudo identificou participação de regiões pré-frontais e combinou os sinais hemodinâmicos com aprendizado de máquina para estudar preferências financeiras. Isso não significa que "o dinheiro controla o cérebro". Mostra que uma decisão aparentemente abstrata sobre crédito envolve processos neurais e corporais mensuráveis. (Frontiers)

No mesmo ano, Chen e colaboradores utilizaram EEG em um estudo pré-registrado sobre conformidade social. Avaliações fornecidas por grupos alteraram julgamentos dos participantes e estiveram relacionadas a mudanças posteriores nas representações neurais dos estímulos. (PubMed Central (PMC))

Nenhum desses estudos demonstra a Consciência 5D.

Mas ambos nos ajudam a lembrar:

abstrações sociais continuam acontecendo em corpos.

A América Latina pode ajudar a construir o caminho de volta

Marcus Maia, Juliana Novo Gomes e Daniela Cid de Garcia mostraram, em 2023, que pesquisar falantes Karajá não deveria significar simplesmente transportar categorias WEIRD prontas e verificar se elas funcionam. Outros povos precisam participar também da construção das perguntas e interpretações. (Revistas UFRJ)

Jaime Xamen Wai Wai faz movimento semelhante na arqueologia. Em 2024, escreveu que seu encontro com a arqueologia permitiu reencontrar partes da história Waiwai e defender uma arqueologia indígena na qual território, anciãos e conhecimentos próprios modificam aquilo que pode ser compreendido sobre o passado. (Portal de Revistas da USP)

Marcia Bezerra, também em 2024, discute como a arqueologia amazônica é transformada justamente quando o conhecimento indígena deixa de aparecer apenas como objeto da ciência. (Portal de Revistas da USP)

Talvez a Neurociência Decolonial e uma futura IA inspirada na Consciência 5D precisem assumir princípio semelhante:

Toda abstração importante deveria conservar algum caminho de retorno aos Corpo-Territórios que sofrerão suas consequências.

Do capitalismo de abstrações ao Bio Capitalismo

A BrainLatam já propôs ideias como Capitalismo Humano e criticou um capitalismo em que "espíritos" jurídicos e financeiros recebem mais centralidade que corpos vivos. (brainlatam)

Podemos agora propor, como evolução conceitual desta série, o termo Bio Capitalismo.

Não como teoria econômica consolidada.

Como hipótese.

Sua inversão seria simples:

vida e bioma -> finalidade

dinheiro, empresas, mercados, crédito e IA -> ferramentas

Lucro continua possível.

Mercado continua possível.

Tecnologia continua possível.

Mas nenhuma dessas representações deve adquirir o direito de destruir as condições que tornam possível continuar existindo.

Um Bio Capitalismo começa quando valor financeiro volta a servir ao valor da vida, e não quando toda forma de vida precisa justificar sua existência financeiramente.

Afinal, liberdade pode ser programada?

Podemos programar possibilidades.

Podemos aumentar graus de liberdade de uma máquina.

Podemos fazer sistemas aprenderem com erros.

Mas liberdade vivida exige outra pergunta.

Na linguagem da Consciência 5D:

existe um perceber-se ser para quem uma possibilidade, uma restrição ou uma perda aconteçam como experiência?

Não temos hoje evidência suficiente para afirmar isso sobre sistemas atuais de IA.

Mas talvez a questão mais urgente nem seja quando a máquina ficará humana.

Talvez seja:

nossas instituições ainda conseguem retornar ao humano?

Porque uma inteligência pode se tornar extraordinariamente eficiente em resolver o problema que recebeu.

Mesmo quando o problema que recebeu já é o problema.

Talvez liberdade seja justamente preservar o caminho de volta:

do número para a pessoa,
do ativo para a casa,
da mercadoria para o bioma,
da palavra para o sentir,
da representação para o Corpo-Território.

Começamos esta série perguntando quando as palavras começam a prender.

Talvez possamos terminá-la reconhecendo o movimento contrário:

As palavras voltam a libertar quando ainda conseguem nos levar de volta à vida.

Referências

MAANI, N. et al. Manufacturing doubt: Assessing the effects of independent vs industry-sponsored messaging about the harms of fossil fuels, smoking, alcohol, and sugar sweetened beverages. SSM - Population Health, 2022. (Drugs and Alcohol)

BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS - CGFS. Private sector debt and financial stability. 2022. (Bank for International Settlements)

SHAH, Rohin et al. Goal Misgeneralization: Why Correct Specifications Aren't Enough For Correct Goals. 2022. (arXiv)

MAIA, Marcus A. R.; GOMES, Juliana Novo; GARCIA, Daniela Cid de. Non-weird (psycho)linguistic endeavors: theoretical and metacognitive research with the Karajá of Central Brazil. LinguíStica, 2023. (Revistas UFRJ)

FEDERAL RESERVE. Financial Stability Report - Leverage in the Financial Sector. 2023. Referência para securitização e transformação de empréstimos em ativos negociáveis. (Federal Reserve)

ÇAKAR, Tuna et al. Unlocking the neural mechanisms of consumer loan evaluations: an fNIRS and ML-based consumer neuroscience study. Frontiers in Human Neuroscience, 2024. (Frontiers)

CHEN, Danni et al. Social conformity updates the neural representation of facial attractiveness. Communications Biology, 2024. Estudo pré-registrado com EEG. (PubMed Central (PMC))

WAI WAI, Jaime Xamen. Uma história de como os Waiwai da Amazônia vêm construindo e agora contando suas arqueologias. Estudos Avançados, 2024. (Portal de Revistas da USP)

BEZERRA, Marcia. Arqueologia para viver o futuro. Estudos Avançados, 2024. (Portal de Revistas da USP)

BRAINLATAM. Capitalismo Republicano de Espíritos sem Corpos. 2025. Fonte conceitual da BrainLatam utilizada para distinguir abstrações financeiras de Corpo-Território. (brainlatam)

BRAINLATAM. A IA cristalizou o Logos - Corpo-Território como unidade mínima do Estado. 2026. Fonte conceitual para a discussão sobre IA, abstração e retorno à vida. (brainlatam)

HALLIWELL, Francesca. Wagner Moura and Greta Lee fight for survival in new thriller "The Last House". Reuters, 2026. Fonte utilizada para diferenciar a intenção declarada do diretor da interpretação BrainLatam do filme. (Reuters)






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States