Jackson Cionek
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Não é preciso controlar tudo o que uma população pensa. Pode bastar controlar aquilo sobre o que ela consegue continuar pensando

Não é preciso controlar tudo o que uma população pensa. Pode bastar controlar aquilo sobre o que ela consegue continuar pensando

Quando as palavras começam a prender

Imagine uma eleição na qual, durante semanas, quase toda conversa pública gira em torno de ameaça.

Ameaça ao emprego. À família. À segurança. À liberdade. Ao futuro.

Algumas notícias podem ser verdadeiras. Outras, parcialmente verdadeiras. Algumas podem ser enganosas ou falsas. Mas antes mesmo de discutirmos a veracidade de cada frase, existe outra pergunta:

O que acontece com os outros espaços de representação enquanto determinados temas são continuamente chamados para participar?

Talvez influenciar uma população não exija controlar tudo aquilo que ela pensa. Pode bastar conquistar uma vantagem sobre aquilo a respeito do que ela continuará pensando amanhã.

A disputa política acontece também sobre a percepção que não veio.

E nossa pergunta central passa a ser:

Para influenciar alguém é necessário controlar a verdade ou basta conhecer os caminhos que levam aos seus sentires?

A propaganda não precisa inventar o sentir

Nos textos anteriores fizemos uma distinção importante:

sentir é acontecimento, não veredicto.

Uma pessoa pode sentir medo verdadeiro diante de uma interpretação equivocada. Pode experimentar pertencimento verdadeiro dentro de uma narrativa falsa. Pode sentir alívio real ao encontrar uma explicação que reduza sua incerteza.

A comunicação política pode trabalhar justamente nesse intervalo.

Não precisa criar medo, raiva, esperança, orgulho ou ressentimento do zero. Pode encontrar sentires já presentes e oferecer palavras, imagens, grupos ou personagens capazes de funcionar como endereços para eles.

Surge então um circuito:

palavra -> sentir conhecido -> interpretação -> confirmação da crença

McLoughlin e colaboradores mostraram, em 2024, que conteúdos de desinformação tinham maior probabilidade de evocar indignação moral e que essa indignação estava associada a maior compartilhamento. O estudo não mostra que indignação seja falsa nem que toda indignação produza desinformação. Mostra que certos conteúdos podem explorar um sentir com grande capacidade de circulação. (Science)

A propaganda eficiente talvez não precise fabricar um sentir. Pode aprender onde ele já existe e oferecer um caminho para fazê-lo voltar.

A âncora fenomenológica da abstração entra na política

Chamamos de âncora fenomenológica da abstração a capacidade de uma representação afastar-se da realidade do referente sem perder contato com movimentos que o Corpo-Território reconhece.

Na ficção, um monstro não precisa existir para que o medo exista. Na política, uma narrativa também pode partir de perda de renda, violência, abandono ou insegurança e acrescentar:

"Você sente isso por causa deles."

A experiência e o sentir podem ser reais.

A atribuição causal ainda precisa ser investigada.

Uma correção factual pode atingir a frase sem alcançar o mundo corporal que ela conseguiu abrir.

Quem pauta entra na disputa com vantagem

Aqui podemos afirmar com mais clareza:

quem consegue pautar o debate conquista uma vantagem competitiva.

Não é vantagem absoluta, nem garantia de vitória.

É vantagem porque ajuda a definir parte do terreno no qual os demais precisarão competir.

Em 2026, Daniel Sandvej Eriksen, na American Political Science Review, apresentou um modelo de "Issue Initiation" para descrever como partidos podem iniciar atenção sobre temas antes pouco explorados e tentar elevá-los na agenda política e midiática. A competição, portanto, não acontece apenas dentro de uma lista fixa de assuntos. Os atores também disputam quais assuntos entrarão nessa lista. (Cambridge University Press)

Quem introduz um tema com sucesso pode fazer adversários, imprensa e cidadãos responderem.

E responder também é oferecer atenção, mesmo para negar ou corrigir.

Na linguagem da Consciência 5D, podemos propor que quem pauta conquista uma vantagem de pré-ativação.

Quando o adversário chega, determinados espaços já estão em Movimento.

Algumas palavras já adquiriram Qualia.

Certas relações causais já se tornaram familiares.

O segundo ator não começa do zero.

Ele começa respondendo dentro de uma paisagem parcialmente organizada por quem chegou antes.

Esta talvez seja uma das vantagens políticas menos percebidas de quem consegue determinar a pauta:

não precisa necessariamente convencer primeiro. Pode obrigar os demais a pensar dentro da pergunta que conseguiu colocar em circulação.

Se durante uma semana um candidato consegue fazer com que todos discutam segurança, inclusive seus adversários passam a utilizar parte de seu tempo explicando o que pensam sobre segurança.

Outro candidato pode possuir propostas excelentes sobre educação, bioma ou distribuição de renda.

Mas agora precisa disputar a eleição dentro de um espaço que outro ajudou a pré-ativar.

Você também pode ser massificado pela percepção que não veio

Normalmente imaginamos massificação como milhões de pessoas recebendo a mesma mensagem.

Mas podemos ser massificados também pela ausência repetida de outras possibilidades.

Se um pequeno conjunto de temas recebe atenção contínua, outros assuntos precisam competir por recursos limitados da esfera pública e dos próprios Corpo-Territórios.

Saúde preventiva, saneamento, infância, ciência, bioma, desigualdade ou infraestrutura podem continuar disponíveis em algum lugar.

Mas disponibilidade não significa participação.

Lorenz-Spreen e colaboradores reuniram 496 estudos sobre mídia digital e democracia. Meios digitais aparecem associados tanto a maior participação quanto, em vários contextos, a polarização, populismo e redução de confiança. Os efeitos variam conforme sistema político, plataforma e população. (Nature)

Não precisamos imaginar um manipulador central.

Há uma competição por atenção.

E quem consegue manter seu assunto vivo por mais tempo pode fazer os demais gastarem parte de seus próprios recursos respondendo à pauta que recebeu prioridade.

Nesse sentido, existe uma forma diferente de massificação:

Você pode ser massificado não apenas pelo que percebe repetidamente, mas pelas possibilidades que deixam de receber condições para participar da sua percepção.

O espaço de busca consciente

Na hipótese Consciência 5D da BrainLatam, podemos chamar de espaço de busca consciente o conjunto de configurações que, em determinado momento, possui condições suficientes para participar da percepção, elaboração e decisão.

Isso não corresponde a tudo aquilo que uma pessoa sabe.

Alguém pode conhecer muitos problemas de uma eleição e ainda decidir principalmente a partir dos poucos que foram continuamente pré-ativados.

Alguns espaços estão ativos ou pré-ativados.

Outros permanecem disponíveis, mas não conseguem entrar naquele Movimento.

Nossa hipótese conceitual seria:

repetição -> pré-ativação -> recrutamento -> Movimento -> Qualia -> menor participação de alternativas -> decisão

Não estamos dizendo que uma campanha controla mecanicamente a consciência.

Estamos perguntando se a disputa política também pode ser compreendida como competição pela disponibilidade momentânea dos espaços capazes de participar da escolha.

Essa diferença é importante.

A pessoa pode possuir uma informação e, ainda assim, aquela informação não participar do Movimento no momento da decisão.

Saber não significa necessariamente recrutar.

O grupo continua falando depois que a mensagem termina

Um estudo pré-registrado com EEG publicado por Chen e colaboradores em 2024 oferece uma pequena aproximação.

Participantes avaliaram a atratividade de rostos e depois receberam avaliações atribuídas a membros de grupos. Posteriormente, mesmo sem avaliação social explícita, os pesquisadores observaram mudanças nas representações neurais espontâneas associadas à atratividade. O estudo tratava de percepção facial, não de política, e não deve ser usado como explicação direta do voto. (Nature)

Mas ele permite uma pergunta:

quanto de uma relação social continua participando de nossa percepção depois que o grupo saiu da sala?

Talvez algumas palavras tragam consigo não apenas significados, mas comunidades, expectativas e histórias de pertencimento.

Por que corrigir a informação pode não bastar

Corrigir desinformação continua sendo necessário.

A revisão de Ecker e colaboradores mostra que correções podem reduzir crenças falsas, mas também descreve o continued influence effect: informações corrigidas podem continuar influenciando inferências posteriores. (Nature)

Na nossa linguagem, talvez exista diferença entre:

corrigir a frase

e

reabrir o espaço de busca.

Uma pessoa pode aceitar que uma notícia específica era falsa e continuar dentro da arquitetura causal que a tornava plausível:

"Essa notícia era falsa, mas eles fariam isso."

A proposição caiu.

O Movimento permaneceu.

O debate factual continua indispensável, mas talvez precise ser acompanhado por novas perguntas, experiências e relações capazes de permitir que outros espaços participem.

Neuromarketing é apenas parte do problema

Neuromarketing pode utilizar EEG, eye tracking e outras medidas fisiológicas para investigar atenção, emoção, memória e decisão. Revisões recentes mostram justamente essa tentativa de combinar diferentes medidas para compreender como estímulos ganham relevância durante decisões. (Frontiers)

Mas aquilo que estamos discutindo é mais amplo.

Envolve agenda-setting, framing, propaganda, influência social, repetição e pertencimento.

A contribuição possível da Consciência 5D seria mudar a pergunta experimental.

Não apenas:

"Qual mensagem recebeu mais atenção?"

Mas:

"Que espaços essa mensagem tornou mais disponíveis e quais deixaram de participar da trajetória seguinte?"

Liberdade pode depender do que ainda consegue participar

Uma democracia não precisa eliminar persuasão.

Mas liberdade de escolha talvez dependa também da diversidade de espaços que conseguem chegar ao momento da decisão.

Quem pauta possui vantagem porque começa a organizar esse espaço antes dos demais.

Se seus adversários passam a semana inteira negando sua pergunta, podem continuar ajudando a mantê-la no centro.

Por isso, uma estratégia democrática madura talvez não seja apenas responder melhor, mas recuperar a capacidade de formular outras perguntas, outros problemas e outros futuros possíveis.

Não é preciso controlar tudo o que uma população pensa.

Talvez seja suficiente obter vantagem sobre os caminhos que continuarão recebendo Movimento e Qualia enquanto outros deixam de chegar.

Por isso, diante de uma mensagem que nos produz medo, raiva, orgulho ou esperança, podemos acrescentar:

Que outros espaços poderiam participar desta decisão se eu não precisasse responder exatamente à pauta que me foi entregue?

Porque às vezes a maior vantagem política não é convencer alguém da sua resposta.

É conseguir escolher, antes dos outros, qual será a pergunta que todos passarão o tempo tentando responder.

Referências

ERIKSEN, Daniel Sandvej. Initiate and Elevate! How Political Parties Can Set an Agenda. American Political Science Review, 2026. (Cambridge University Press)

MCLOUGHLIN, Killian L. et al. Misinformation exploits outrage to spread online. Science, 2024. (Science)

CHEN, Danni et al. Social conformity updates the neural representation of facial attractiveness. Communications Biology, 2024. Estudo pré-registrado com EEG. (Nature)

LORENZ-SPREEN, Philipp et al. A systematic review of worldwide causal and correlational evidence on digital media and democracy. Nature Human Behaviour, 2023. (Nature)

ECKER, Ullrich K. H. et al. The psychological drivers of misinformation belief and its resistance to correction. Nature Reviews Psychology, 2022. (Nature)

VALENZUELA, Sebastián; HALPERN, Daniel; ARANEDA, Felipe. A Downward Spiral? A Panel Study of Misinformation and Media Trust in Chile. The International Journal of Press/Politics, 2022. Pesquisa longitudinal realizada no Chile, importante para deslocar a discussão também para a realidade latino-americana. (journals.sagepub.com)

GUPTA, R. et al. Neuro-insights: a systematic review of neuromarketing perspectives across consumer buying stages. Frontiers in Neuroergonomics, 2025. (Frontiers)






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States