Jackson Cionek
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Nem Todo Desejo é Meu

Nem Todo Desejo é Meu

Consumo, aparência, dinheiro, status e prazer imediato

A gente segue em Jiwasa — a gente juntos — com uma pergunta delicada:

todo desejo que aparece em mim nasceu realmente em mim?

Às vezes, a gente sente vontade de comprar, aparecer, mudar algo, provar valor, ganhar dinheiro rápido, ser mais visto, mais desejado, mais admirado ou mais parecido com alguém. Mas antes de obedecer esse desejo, a gente pode fazer uma pausa de Metacognição:

de onde esse desejo veio?

Ele nasceu do corpo?
Nasceu de uma necessidade real?
Nasceu de uma comparação?
Nasceu de um anúncio?
Nasceu de um influenciador?
Nasceu de uma insegurança tocada pelo algoritmo?
Nasceu da vontade de pertencer?

Essa pergunta não acusa. Ela devolve liberdade.

Desejo também pode ser induzido

Na linguagem BrainLatam2026, o desejo não é apenas uma ideia na cabeça. Ele passa pelo corpo, pelo olhar, pela respiração, pela comparação, pela memória, pelo medo de ficar para trás e pela necessidade de pertencimento.

O mercado sabe disso.

Por isso, muitas plataformas não vendem apenas produtos. Elas vendem sensação:

“você será mais aceito.”
“você será mais bonito.”
“você será mais desejado.”
“você será mais rico.”
“você será mais interessante.”
“você será mais livre.”
“você será alguém.”

Um estudo de 2023 estimou que grandes plataformas de redes sociais geraram quase US$ 11 bilhões em receita publicitária anual a partir de usuários menores de 18 anos nos Estados Unidos, mostrando como a atenção de crianças e adolescentes também se torna valor econômico. (PMC)

Na nossa linguagem:

quando meu desejo vira mercado, meu Tekoha vira território de mineração.

O desejo entra pelo APUS e vira Tekoha

O APUS é o corpo-território: aquilo que a gente vê, escuta, toca, come, consome, caminha, habita e compartilha.

O Tekoha é quando esse território entra no corpo.

Então, quando a gente vê milhares de imagens de sucesso, beleza, dinheiro, romance, corpo editado, vida perfeita, viagem, roupa, carro, festa, pele, cabelo, casa, comida e status, isso não fica apenas fora. Entra.

Entra como comparação.
Entra como falta.
Entra como pressa.
Entra como vontade.
Entra como vergonha.
Entra como urgência.
Entra como sensação de atraso.

E aí a gente pode começar a desejar não porque escolheu, mas porque foi colocado em um ambiente onde tudo diz:

“você ainda não é suficiente.”

Este texto não vai dizer como o corpo deveria ser. Não vamos reforçar ideal de aparência. A pergunta aqui é outra:

quem lucra quando a gente deixa de pertencer ao próprio corpo?

Aparência sem crítica corporal

Falar de aparência exige cuidado.

A proposta não é dizer que vaidade é errada. Também não é julgar quem gosta de roupa, cabelo, skincare, treino, maquiagem, estilo ou estética. O corpo pode brincar, criar, se enfeitar e se expressar.

O problema começa quando aparência deixa de ser expressão e vira cobrança.

Quando cada foto vira prova.
Quando cada espelho vira julgamento.
Quando cada comparação vira vergonha.
Quando cada detalhe vira defeito.
Quando o corpo vira projeto infinito para merecer amor.

Revisões recentes mostram que o uso de redes sociais pode se associar a preocupações com imagem corporal em adolescentes e jovens, especialmente quando há comparação social e exposição a imagens idealizadas. Uma revisão sistemática de 2023 analisou 21 estudos sobre redes sociais, imagem corporal e bem-estar em adolescentes e jovens adultos, reforçando que o impacto depende do tipo de uso, conteúdo e vulnerabilidades individuais. (PubMed)

Uma meta-análise de 2025 também examinou a associação entre comparação social online, preocupações com imagem corporal e comportamentos ligados à alimentação, mostrando que comparação online pode ser um mecanismo importante nessa relação. (ScienceDirect)

A leitura BrainLatam2026 é suave:

a gente não precisa odiar o espelho.
A gente precisa perceber quando o espelho foi sequestrado pelo mercado.

Dinheiro, status e a promessa de pertencimento

Dinheiro é necessário. Ter estabilidade importa. Querer uma vida melhor é legítimo.

O problema é quando o sistema transforma dinheiro em medida total de valor humano.

Aí o adolescente começa a sentir que precisa ganhar cedo, aparecer cedo, vencer cedo, consumir cedo, performar cedo, enriquecer cedo. O corpo entra em pressa. A vida vira corrida. O desejo deixa de ser caminho e vira cobrança.

Em muitos conteúdos digitais, status aparece como pertencimento:

se eu tiver isso, entro no grupo.
se eu comprar isso, sou visto.
se eu parecer assim, sou aceito.
se eu ganhar tanto, tenho valor.

Estudos sobre influenciadores mostram que a exposição a influenciadores pode acionar comparação social, medo de ficar de fora e desejo de imitar, favorecendo consumo de produtos de status ou consumo conspícuo em alguns contextos. Um estudo de 2024, por exemplo, encontrou que exposição a influenciadores pode disparar comparação social e FOMO, influenciando aquisição de produtos conspícuos. (ScienceDirect)

Mesmo quando o estudo não fala apenas de adolescentes, ele ajuda a explicar um mecanismo social: desejo pode ser mediado por comparação, imitação, pertencimento e medo de exclusão.

Na linguagem BrainLatam2026:

status é um atalho artificial de pertencimento.
Jiwasa é pertencimento real.

Dopamina, recompensa e saliência

Aqui entra a dopamina com cuidado.

Dopamina não é simplesmente “prazer”. Ela está ligada a saliência, busca, motivação, aprendizado por recompensa e erro de previsão. Uma revisão de 2023 sobre reward prediction error explica como sinais dopaminérgicos participam da atualização de expectativas e de comportamentos ligados ao aprendizado por recompensa. (Frontiers)

Isso ajuda a entender por que o desejo imediato é tão forte.

O corpo não responde apenas ao produto.
Responde à promessa.
Responde à possibilidade.
Responde ao “talvez”.
Responde ao “e se eu for visto?”
Responde ao “e se isso resolver minha falta?”

A recompensa mais poderosa muitas vezes não é o prazer final. É a busca.

É o carrinho cheio.
É o clique.
É a notificação.
É o desconto.
É o antes e depois.
É a promessa de transformação.
É a sensação de que, depois daquilo, a gente finalmente vai descansar.

Mas muitas vezes não descansa.

Porque o algoritmo entrega outro desejo.

Zona 3 do desejo

A Zona 3 do desejo acontece quando o corpo não consegue mais diferenciar escolha de captura.

A gente compra sem precisar.
Compara sem querer.
Rola o feed sem perceber.
Busca aprovação sem descansar.
Sente falta sem saber de quê.
Confunde impulso com identidade.
Confunde consumo com pertencimento.
Confunde aparência com valor.

Não é culpa moral.

É um corpo tentando regular falta, vergonha, ansiedade, solidão, comparação ou insegurança com recompensas rápidas.

O problema é que recompensa rápida pode aliviar por pouco tempo, mas não necessariamente devolve elasticidade. Às vezes, ela mantém o corpo preso no ciclo:

desejo → busca → micro-recompensa → queda → novo desejo.

Na linguagem BrainLatam2026:

quando o desejo é capturado, o Tekoha fica em looping.

Metacognição: perguntar antes de obedecer

A saída não é reprimir todo desejo.

Desejo também é vida.
Desejo move.
Desejo cria.
Desejo aproxima.
Desejo pode ser alegria, curiosidade e expressão.

A questão é criar uma pausa antes de obedecer.

Essa pausa é Metacognição.

Antes de comprar, postar, comparar, mudar, responder, consumir ou buscar aprovação, a gente pode perguntar:

esse desejo aumenta meu espaço interno ou diminui?
esse desejo nasceu de alegria ou de vergonha?
eu quero isso ou quero ser aceito por causa disso?
isso me aproxima do meu corpo ou me afasta dele?
isso é expressão ou tentativa de consertar uma falta colocada em mim?
quem lucra se eu me sentir insuficiente agora?

Essas perguntas não proíbem. Elas devolvem autoria.

Fruição: desejar sem se perder

A Fruição não mata o desejo. Ela muda a relação com ele.

Em Fruição, a gente pode gostar de uma roupa sem achar que precisa dela para ter valor.
Pode cuidar da aparência sem transformar o corpo em inimigo.
Pode querer dinheiro sem reduzir a vida a status.
Pode usar redes sociais sem entregar todo o Tekoha.
Pode admirar alguém sem se diminuir.
Pode comprar algo sem tentar comprar pertencimento.

Fruição é quando o corpo consegue sentir:

eu posso querer, mas não preciso me abandonar para ter.

Essa frase é central.

Pequenas práticas para recuperar desejo próprio

A gente pode treinar pequenas pausas de território:

esperar alguns minutos antes de comprar por impulso,
salvar um item e voltar depois com calma,
perguntar se o desejo veio de comparação,
perceber o corpo depois de ver certos conteúdos,
seguir perfis que ampliam vida e não apenas falta,
diminuir exposição a conteúdos que geram vergonha,
conversar com alguém antes de uma decisão movida por ansiedade,
fazer algo com o corpo antes de obedecer o impulso: caminhar, tomar água, respirar, dançar, comer com calma, escrever.

Não é sobre virar uma pessoa “controlada” o tempo todo.

É sobre recuperar elasticidade.

Janela EEG/NIRS/fNIRS: como estudar desejo, recompensa e saliência?

Um estudo BrainLatam sobre Nem Todo Desejo é Meu poderia investigar como estímulos de consumo, status, aparência e recompensa social modulam atenção, corpo e tomada de decisão.

Com EEG/ERP, a gente poderia observar marcadores como P300, LPP, N2 e RewP, dependendo da tarefa. Esses marcadores poderiam ajudar a estudar saliência atencional, controle inibitório, processamento emocional e resposta a recompensa social ou monetária. Um estudo de 2024 com adolescentes examinou a Reward Positivity — RewP para recompensas sociais e monetárias, mostrando como a reatividade neural à recompensa social pode ajudar a explicar diferenças na relação entre uso de redes sociais e afeto momentâneo. (PMC)

Com NIRS/fNIRS, a gente poderia medir a atividade hemodinâmica pré-frontal durante escolhas de consumo, comparação social, espera por recompensa, decisão de compra simulada ou pausa metacognitiva. Um estudo de 2024 com fNIRS investigou estudantes de 17 a 26 anos durante a Iowa Gambling Task e encontrou diferenças em tomada de decisão associadas à pontuação de dependência de smartphone, mostrando como fNIRS pode observar córtex pré-frontal em decisões sob risco e recompensa. (PubMed)

Com eye-tracking, seria possível ver para onde o olhar vai: preço, rosto, corpo, produto, curtidas, comentários, promessa de status. Com HRV/RMSSD, GSR, respiração e EMG, a gente poderia observar se o corpo fica mais regulado ou mais capturado diante de certos estímulos.

A pergunta experimental seria:

quando um desejo aparece, ele amplia Fruição ou estreita o Tekoha?

Fechamento

Nem todo desejo é meu.

Alguns desejos nascem do corpo vivo.
Alguns nascem da curiosidade.
Alguns nascem da beleza de existir.
Alguns nascem do encontro, da criação e da alegria.

Mas outros são plantados em nós pela comparação, pela publicidade, pelo medo de exclusão, pela promessa de status e pela sensação fabricada de insuficiência.

Em Jiwasa — a gente juntos, a proposta não é culpar quem deseja. É recuperar a pergunta.

Antes de obedecer um desejo, a gente pode perguntar:

de onde ele veio?
o que ele faz com meu corpo?
ele aumenta meu APUS ou estreita meu Tekoha?
ele me aproxima da vida ou me prende em Zona 3?

Desejar com Metacognição é não entregar o corpo inteiro ao mercado.

Quando a gente recupera a origem do desejo, recupera também um pedaço do nosso território interno.

Referências pós-2021

Documento-base do bloco: Bloco de Blogs Épico para Estudos Comportamentais — Neurociências Decolonial.

Raffoul, A., Ward, Z. J., Santoso, M., Kavanaugh, J. R., & Austin, S. B. (2023). Social media platforms generate billions of dollars in revenue from U.S. youth: Findings from a simulated revenue model. PLOS ONE. (PMC)

Vincente-Benito, I., & Ramírez-Durán, M. del V. (2023). Influence of Social Media Use on Body Image and Well-Being Among Adolescents and Young Adults: A Systematic Review. Journal of Psychosocial Nursing and Mental Health Services. (PubMed)

Bonfanti, R. C., et al. (2025). The association between social comparison in social media, body image concerns, and eating disorder symptoms: A systematic review and meta-analysis. Body Image. (ScienceDirect)

Dinh, T. C. T., Wang, M., & Lee, Y. (2024). Social media influencers and followers’ conspicuous consumption: The mediation of social comparison, desire to mimic, materialism, and fear of missing out. Heliyon. (ScienceDirect)

Deng, Y., Wang, Z., & Chen, X. (2023). Reward prediction error in learning-related behaviors. Frontiers in Neuroscience. (Frontiers)

Politte-Corn, M., Pegg, S., Kujawa, A., et al. (2024). Neural Reactivity to Social Reward Moderates the Association Between Social Media Use and Momentary Positive Affect in Adolescents. Affective Science. (PMC)

Liu, X., Tian, R., Bai, X., Liu, H., Li, T., Zhou, X., & Lei, Y. (2024). Exploring the Impact of Smartphone Addiction on Risk Decision-Making Behavior among College Students: An fNIRS Study Based on the Iowa Gambling Task. Frontiers in Psychiatry. (PubMed)













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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States