Jackson Cionek
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O cérebro decide o que vale a pena. Mas quem ensinou o valor?

O cérebro decide o que vale a pena. Mas quem ensinou o valor?

Da codificação neural da recompensa ao Corpo-Território: um diálogo entre Neurociência, antropologia e pensamento decolonial latino-americano.

Artigo editorial: aproximadamente 1.300 palavras, excluindo referências, descrição SEO e hashtags.

O cérebro decide o que vale a pena. Mas quem ensinou o valor?

Da codificação neural da recompensa ao Corpo-Território: um diálogo entre Neurociência, antropologia e pensamento decolonial latino-americano.

Antes de decidir, o corpo já começou a sentir

Imagine encontrar um alimento que marcou sua infância. Antes de experimentar o primeiro pedaço, a respiração muda, uma lembrança aparece e o corpo antecipa algo agradável. Para outra pessoa, o mesmo alimento pode provocar indiferença ou repulsa.

O estímulo é semelhante. A experiência não.

Como o cérebro aprende o que devemos procurar ou evitar? Onde nasce o valor atribuído a uma experiência? E quanto desse valor foi construído pelas relações que vivemos?

Essas perguntas aproximam a BrainLatam do Neurobucano — II Seminário de Neurociências em Pernambuco, realizado em Recife, em novembro de 2024, dedicado especialmente aos mecanismos neurais de codificação de valência e recompensa.

Propomos ampliar esse diálogo com a Neurociência Decolonial Latino-Americana: investigar como o cérebro aprende a valorizar sem esquecer que os organismos vivem em corpos, histórias, culturas e territórios.

1. Como os neurônios aprendem o valor?

Nas pesquisas apresentadas pelas neurocientistas Ana João Rodrigues e Carina Soares-Cunha, da Universidade do Minho, encontramos uma pergunta experimental fundamental: como diferentes populações neuronais participam da aprendizagem relacionada a estímulos recompensadores e aversivos?

Em 2024, Catarina Deseyve e colaboradores, incluindo essas pesquisadoras, publicaram um estudo sobre neurônios do núcleo accumbens, região envolvida na motivação e na aprendizagem associativa.

Utilizando fotometria de fibra em camundongos, observaram a atividade de populações neuronais relacionadas aos receptores dopaminérgicos D1 e D2 durante tarefas envolvendo recompensa e aversão.

Os resultados mostraram respostas dinâmicas dessas populações durante diferentes formas de aprendizagem, questionando interpretações excessivamente simples que atribuem funções exclusivamente opostas aos dois grupos neuronais.

A importância desses resultados está em compreender como organismos aprendem relações entre sinais ambientais e suas consequências.

Entretanto, existe uma diferença entre identificar mecanismos de aprendizagem e compreender todos os significados atribuídos àquilo que foi aprendido.

Uma recompensa em determinado protocolo experimental não representa automaticamente aquilo que uma pessoa considera valioso na sua existência.

Recortamos para saber, não para ser.

O experimento produz conhecimento sobre uma dimensão real do fenômeno. O problema começa quando confundimos essa dimensão com sua totalidade.

2. Luiz Pessoa: o cérebro não funciona sozinho

O neurocientista brasileiro Luiz Pessoa, em The Entangled Brain (2022), questiona a compreensão do cérebro como uma coleção de regiões independentes, cada uma responsável por uma função psicológica isolada.

Percepção, emoção, atenção e cognição emergem de interações entre circuitos amplamente distribuídos.

Essa perspectiva aproxima a Neurociência dos sistemas complexos: uma atividade localizada participa de processos que dependem de redes, estados fisiológicos e condições ambientais.

O núcleo accumbens não desaparece dessa explicação. Sua importância aumenta quando investigamos as relações que estabelece com outros circuitos.

Na BrainLatam, esse entendimento dialoga com nossa reflexão sobre a maravilha dos sistemas complexos e com a necessidade de evitar explicações exclusivamente localizacionistas.

A pergunta deixa de ser apenas onde o cérebro representa uma recompensa e passa a incluir como diferentes processos participam da formação de comportamentos motivados.

Mas ainda existe outro participante frequentemente esquecido: o corpo que sente.

3. A Mente Damasiana: sentir antes de julgar

António Damásio e Hanna Damásio defendem a importância da regulação corporal e dos sentimentos homeostáticos para compreender a experiência consciente.

Fome, sede, desconforto e segurança não são simplesmente informações periféricas enviadas ao cérebro. Participam da organização de um organismo que precisa manter condições adequadas para continuar vivendo.

Essa perspectiva fundamenta o que desenvolvemos na BrainLatam como Mente Damasiana.

Um alimento pode ser especialmente atraente quando sentimos fome. Uma aproximação social pode ser agradável em determinadas condições e ameaçadora em outras.

O estado do organismo modifica as possibilidades de perceber, agir e aprender.

Mas a interpretação BrainLatam amplia essa reflexão: quando a fome não decorre apenas de necessidades fisiológicas momentâneas, mas de desigualdades persistentes, compreender o comportamento exige investigar também suas condições sociais.

A Neurociência explica mecanismos indispensáveis. A antropologia, a história e a economia ajudam a compreender as circunstâncias nas quais esses mecanismos operam.

4. Alfredo Pereira Jr.: medir o sentir não é possuir a experiência

O filósofo e pesquisador brasileiro Alfredo Pereira Jr., em colaboração com Vinícius Jonas de Aguiar, apresentou em 2023 uma proposta para investigar cientificamente a capacidade de sentir.

Os autores distinguem a Sentiômica, voltada à identificação de padrões dinâmicos associados à sentiência, da Qualiômica, relacionada à diversidade das experiências conscientes descritas em primeira pessoa.

Essa distinção permite reconhecer que uma medição neural e um relato subjetivo oferecem informações diferentes sobre um mesmo acontecimento.

Na BrainLatam, relacionamos essa discussão ao Monismo de Triplo Aspecto, proposta filosófica de Alfredo Pereira Jr. que considera aspectos físicos, informacionais e experienciais de uma realidade integrada.

Não apresentamos essa ontologia como demonstração experimental da natureza da recompensa.

Ela nos ajuda a formular perguntas que os protocolos convencionais nem sempre conseguem responder.

Se observamos alterações na atividade neural durante uma experiência agradável, o que aprendemos sobre o fenômeno? E quais dimensões permanecem inacessíveis àquela medição?

A tela mostra um recorte do recorte. Não o organismo inteiro.

5. Arturo Escobar: quem ensinou o que devemos desejar?

O antropólogo colombiano Arturo Escobar propõe repensar a relação entre conhecimentos, territórios e formas de vida.

Em Feeling-Thinking with the Land, ele destaca contribuições de movimentos indígenas, afrodescendentes, camponeses e ambientais para imaginar alternativas aos modelos dominantes de desenvolvimento.

Essa reflexão abre uma pergunta para a Neurociência da recompensa.

Uma sociedade pode valorizar prioritariamente acumulação material, competição e consumo. Outras experiências coletivas podem atribuir maior importância à reciprocidade, ao cuidado e à continuidade territorial.

Isso não significa que existam circuitos neurais exclusivos de cada cultura.

Significa que as condições de aprendizagem, os contextos sociais e as experiências compartilhadas influenciam aquilo que adquire relevância para os indivíduos.

A Neurociência pode investigar mecanismos dessa aprendizagem. A antropologia pode investigar como os próprios critérios de valor são construídos, disputados e transformados.

Uma investigação interdisciplinar não precisa reduzir uma explicação à outra.

6. Ailton Krenak: o valor de um rio não cabe numa recompensa monetária

Em Futuro ancestral (2022), Ailton Krenak questiona a separação entre humanidade e natureza e recupera a importância das relações com rios, florestas, ancestrais e outros seres vivos.

Sua contribuição não constitui uma teoria dos circuitos dopaminérgicos.

Ela questiona os limites dos critérios pelos quais uma sociedade decide o que merece ser preservado.

Quando uma atividade econômica recompensa a destruição de um território, mas seus habitantes valorizam sua continuidade, não estamos apenas diante de preferências individuais diferentes.

Existe uma disputa política sobre o significado do valor.

A Neurociência pode investigar processos envolvidos na motivação e na decisão. Entretanto, não pode determinar, exclusivamente a partir desses processos, qual projeto de sociedade deve prevalecer.

Essa decisão exige participação dos envolvidos, reconhecimento das diferenças e responsabilidade coletiva.

7. Corpo-Território: uma hipótese para novas pesquisas

Na BrainLatam, utilizamos APUS e Tekoha como janelas conceituais para investigar as relações entre corpo e território.

Tekoha abre perguntas sobre pertencimento, regulação corporal e território vivido. APUS convida a investigar orientação, movimento e possibilidades de ação.

Essas aproximações não são traduções neurocientíficas dos conceitos originários guarani e andinos, cujos significados precisam permanecer reconhecidos em seus próprios contextos.

Podemos imaginar pesquisas que combinem tarefas de aprendizagem, EEG, fNIRS, indicadores fisiológicos, entrevistas e observações etnográficas.

Como segurança alimentar, vínculos comunitários e condições territoriais influenciam a aprendizagem de recompensas e aversões?

Os métodos não revelariam automaticamente os valores de um coletivo. Poderiam produzir evidências complementares, interpretadas conjuntamente com os participantes.

Essa seria uma contribuição experimental possível para uma Neurociência Decolonial Latino-Americana.

8. Quem poderá interpretar aquilo que sentimos?

Imagine sistemas de inteligência artificial capazes de identificar padrões associados às nossas preferências.

Quem controlará esses dados? Quem decidirá o significado das informações? Os próprios participantes poderão contestar as interpretações?

Na BrainLatam, essas perguntas fundamentam a proposta de IA Personalíssima e de uma Democracia Real na qual cada Corpo-Território tenha condições de participar das decisões que afetam sua existência.

Precisamos distinguir:

Experimento → Resultado → Interpretação → Julgamento → Decisão.

A passagem de uma medição científica para uma decisão política não é automática.

FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.

O Neurobucano representa uma contribuição importante ao fortalecer o diálogo entre Física, Computação, Medicina e Neurociências em Pernambuco.

A BrainLatam propõe ampliar esse encontro, valorizando a autonomia latino-americana para formular perguntas científicas a partir de seus próprios problemas e territórios.

Descolonizar a Neurociência não significa abandonar o rigor experimental. Significa também perguntar quem define os objetos de investigação, quem interpreta os resultados e quem participa de suas consequências.

O cérebro participa da aprendizagem do valor.

Mas a vida que aprendemos a valorizar não acontece apenas dentro do cérebro.

Talvez a próxima pergunta da Neurociência não seja somente o que nos recompensa, mas quem constrói as condições para que diferentes vidas possam florescer.

Referências científicas e intelectuais

As referências abaixo seguem a ordem de desenvolvimento do artigo. Cada uma inclui uma frase que apresenta sua contribuição específica, permitindo compreender o argumento central mesmo pela leitura isolada desta seção.

1. NEUROBUCANO (2024). II Seminário de Neurociências em Pernambuco. Universidade Federal de Pernambuco e Real Hospital Português do Recife.

O evento reuniu pesquisadores em torno da codificação neural de valência e recompensa, promovendo o diálogo entre Neurociências, Física, Computação e Engenharia Biomédica.

Programação oficial do Neurobucano

 

2. DESEYVE, Catarina et al. (2024). Nucleus accumbens neurons dynamically respond to appetitive and aversive associative learning. Journal of Neurochemistry, 168(3), 312–327.

Com participação de Ana João Rodrigues e Carina Soares-Cunha, o estudo demonstra como populações neuronais D1 e D2 participam dinamicamente da aprendizagem associativa de recompensa e aversão em camundongos.

Artigo científico — DOI

 

3. VIEITAS-GASPAR, Natacha; SOARES-CUNHA, Carina; RODRIGUES, Ana João (2025). From valence encoding to motivated behavior: A focus on the nucleus accumbens circuitry. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 172, 106125.

A revisão atualiza os modelos de codificação de valência, mostrando que populações neuronais tradicionalmente associadas a funções opostas podem atuar conjuntamente em processos motivacionais.

Revisão científica — DOI

 

4. PESSOA, Luiz (2022). The Entangled Brain: How Perception, Cognition, and Emotion Are Woven Together. MIT Press.

O neurocientista brasileiro apresenta o cérebro como um sistema integrado de redes distribuídas, questionando explicações que isolam rigidamente emoção, cognição e comportamento.

Livro — MIT Press

 

5. DAMASIO, Antonio; DAMASIO, Hanna (2024). Homeostatic Feelings and the Emergence of Consciousness. Journal of Cognitive Neuroscience, 36(8), 1653–1659.

Os autores relacionam sentimentos interoceptivos, imagens sensoriais e subjetividade à emergência da experiência consciente, destacando a importância da regulação corporal.

Artigo científico — DOI

 

6. PEREIRA JR., Alfredo; AGUIAR, Vinícius Jonas de (2023). Fundamentos e aplicações da sentiômica: a ciência da capacidade de sentir. Trans/Form/Ação, 46, número especial, 57–86.

Os pesquisadores brasileiros distinguem o estudo dos padrões envolvidos na capacidade de sentir da investigação das qualidades subjetivas da experiência, ampliando a discussão sobre os limites das medidas fisiológicas.

Artigo — Trans/Form/Ação

 

7. ESCOBAR, Arturo (2020). Feeling-Thinking with the Land: Transitions. Re-visiones, n. 10.

O antropólogo colombiano reconhece movimentos indígenas, afrodescendentes, camponeses e ambientais como produtores de conhecimentos fundamentais para imaginar diferentes formas de organização territorial e social.

Artigo acadêmico — Re-visiones

 

8. KRENAK, Ailton (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

O intelectual indígena brasileiro questiona a separação entre humanidade e natureza, ampliando a discussão sobre o valor das relações com rios, territórios, ancestrais e outros seres vivos.

Livro — Companhia das Letras

 

9. BRAINLATAM (2025). Monismo de triplo aspecto: uma possível nova forma de entender a consciência.

Apresenta a interpretação filosófica de Alfredo Pereira Jr. sobre os aspectos físicos, informacionais e experienciais da realidade, estabelecendo uma ponte conceitual com a investigação da consciência.

Artigo BrainLatam

10. BRAINLATAM (2026). APUS e Tekoha — Como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo.

Desenvolve a reflexão sobre Corpo-Território, interocepção, movimento e pertencimento, preservando a distinção entre interpretações neurocientíficas e significados originários indígenas.

Artigo BrainLatam

BRAINLATAM | W46/2026 | NEUROBUCANO | BLOG 01/08

 
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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States