Neurodiversidade, Jiwasa e circulação das lideranças
Neurodiversidade, Jiwasa e circulação das lideranças
Proteger a diferença sem transformar proteção em blindagem para o dano
Vamos imaginar duas cenas.
Na primeira, uma pessoa autista solicita que as reuniões tenham pauta antecipada, linguagem direta, intervalos e possibilidade de responder por escrito. Sem essas adaptações, o excesso sensorial e a velocidade da conversa reduzem sua participação. O apoio não lhe oferece vantagem: remove barreiras para que sua percepção possa integrar o grupo.
Na segunda, uma liderança humilha funcionários, pune discordâncias, mente sobre impactos ambientais e justifica tudo dizendo:
“Este é meu jeito de funcionar. Vocês precisam respeitar minha diferença.”
As duas situações não são equivalentes.
A primeira pede condições para participar.
A segunda tenta transformar uma explicação — verdadeira ou não — em licença para ferir.
Chegamos, assim, ao dilema que precisamos pensar juntos:
Como proteger integralmente as pessoas neurodivergentes sem permitir que a linguagem da inclusão seja apropriada por quem usa poder, dinheiro ou ideologia para escapar das consequências do dano que produz?
Neurodivergência não é ausência de humanidade
Por muito tempo, o autismo foi associado de forma simplificada à falta de empatia. Pesquisas recentes mostram um cenário muito mais complexo.
A empatia não é uma capacidade única. Podemos distinguir, por exemplo, o reconhecimento do estado da outra pessoa, a ressonância afetiva com seu sofrimento e a disposição moral para cuidar. Além disso, estudos sobre o chamado problema da dupla empatia indicam que as dificuldades de compreensão podem ser recíprocas: pessoas não autistas também interpretam com menor precisão experiências narradas por pessoas autistas. (PubMed)
Portanto, diferenças na comunicação, no contato visual, na expressão facial ou na velocidade de resposta não demonstram ausência de afeto ou de compromisso com o coletivo.
Uma pessoa pode não perceber imediatamente uma ironia e sofrer profundamente ao descobrir que feriu alguém.
Outra pode reconhecer com precisão as emoções alheias e utilizar esse conhecimento para manipular.
Uma revisão de 2023 sobre a chamada Tríade Sombria — maquiavelismo, narcisismo e psicopatia como traços de pesquisa, não diagnósticos automáticos — mostra que a empatia cognitiva pode, em determinados casos, facilitar estratégias de influência e manipulação. Compreender o que o outro sente não garante que exista preocupação com seu bem-estar. (MDPI)
Não devemos confundir dificuldade de traduzir sinais sociais com decisão de utilizar pessoas como meios para obter lucro, poder ou vitória ideológica.
O “mercenário da monetização” não é um neurotipo
A expressão mercenário da monetização deve funcionar aqui como crítica ética e política, não como categoria psiquiátrica.
Ela descreve uma pessoa ou organização educada para converter quase tudo em resultado mensurável:
o território em ativo;
a floresta em fluxo de caixa;
a atenção em engajamento;
o trabalhador em custo;
a criança em consumidor;
o sofrimento em externalidade.
Essa forma de agir não precisa surgir de uma condição neurodivergente. Pode ser ensinada por sistemas de recompensa.
Uma metanálise com 67 estudos e mais de vinte mil participantes encontrou associação entre desengajamento moral e comportamentos antiéticos praticados em benefício da organização. Identificação intensa com a empresa ou com a liderança também pode favorecer condutas nas quais a pessoa viola princípios acreditando estar protegendo o grupo. (Vrije Universiteit Amsterdam)
O mecanismo é humano e perigoso:
“Não estou prejudicando pessoas; estou reduzindo custos.”
“Não estou destruindo um território; estou aumentando produtividade.”
“Não estou mentindo; estou defendendo a organização.”
“Não estou matando inocentes; estou cumprindo uma missão contra os maus.”
A revisão científica sobre desumanização publicada em 2022 mostra que retirar ou obscurecer a humanidade de indivíduos e grupos reduz barreiras morais contra exploração, exclusão e violência. Pesquisas de 2024 também encontraram associação robusta entre desumanização do adversário e apoio à violência política. (ScienceDirect)
O problema, portanto, não é apenas alguém “não sentir empatia”.
É um sistema que ensina a não escutar a empatia quando ela atrapalha a meta.
Não precisamos diagnosticar o autoritarismo para contê-lo
Quando políticos, executivos ou líderes religiosos demonstram crueldade, pode surgir a tentação de explicar tudo por um diagnóstico psiquiátrico.
Esse caminho é tardio e perigoso.
Primeiro, porque não se deve diagnosticar publicamente uma pessoa sem avaliação clínica adequada. A própria ética psiquiátrica proíbe opiniões diagnósticas profissionais sobre figuras públicas não examinadas. (American Psychiatric Association)
Segundo, porque transformar autoritarismo em doença pode ocultar sua dimensão institucional.
Não precisamos saber se uma liderança possui determinado transtorno para reconhecer que ela:
desumaniza adversários;
ameaça instituições;
elimina mecanismos de contestação;
utiliza mentira sistemática;
estimula violência;
captura recursos públicos;
pune quem denuncia;
transforma grupos inteiros em inimigos.
Esses são comportamentos e efeitos observáveis. Podem e devem ser avaliados politicamente, juridicamente e eticamente antes que alguém produza um laudo.
O diagnóstico pertence ao cuidado clínico. A responsabilização pertence aos atos, aos danos e às relações de poder.
Quando confundimos os dois, podemos estigmatizar pessoas neurodivergentes e, ao mesmo tempo, deixar estruturas autoritárias intactas.
Adaptação razoável não é impunidade
A Lei Brasileira de Inclusão estabelece igualdade de oportunidades, proteção contra discriminação e direito às adaptações razoáveis. A Convenção da ONU determina que os apoios sejam adequados às circunstâncias, proporcionais e acompanhados por salvaguardas contra abuso, conflito de interesse e influência indevida. (Senado Legislativo)
Isso permite formularmos uma distinção fundamental:
A adaptação modifica a barreira; não apaga o dano causado a outra pessoa.
Uma pessoa pode precisar de comunicação direta. Isso não lhe dá direito de humilhar.
Pode precisar de previsibilidade. Isso não lhe concede controle absoluto sobre os demais.
Pode necessitar de isolamento sensorial. Isso não autoriza punição contra quem discorda.
Pode comunicar-se de maneira incomum. Isso não transforma corrupção, coerção ou violência em características protegidas.
Também precisamos admitir que uma pessoa pode necessitar de apoio e, ainda assim, ser responsável por reparar um dano. As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:
“Eu preciso de adaptação.”
“Minha ação feriu alguém e preciso responder por isso.”
Proteger a dignidade não significa infantilizar. Reconhecer responsabilidade não significa retirar direitos.
A regra precisa mudar conforme o poder aumenta
Existe, porém, um cuidado decisivo.
Não podemos criar uma burocracia tão desconfiada que toda pessoa neurodivergente precise provar repetidamente sua condição para obter apoio básico. Isso devolveria a exclusão pela porta dos fundos.
As adaptações cotidianas devem ser acessíveis, individualizadas e centradas nas barreiras reais.
Já o exercício de poder precisa de outro princípio:
A proteção deve acompanhar a pessoa; a fiscalização deve acompanhar o poder.
Quanto maior a capacidade de uma liderança afetar trabalhadores, comunidades, recursos públicos e territórios, maiores devem ser:
a transparência;
a auditoria independente;
a rastreabilidade das decisões;
a proteção de denunciantes;
a avaliação de impactos humanos e ambientais;
a limitação do mandato;
a possibilidade de contestação;
a obrigação de reparar danos.
Essas regras não existem porque a liderança é neurodivergente ou neurotípica.
Existem porque nenhum Weichö, qualquer que seja seu neurotipo, deve possuir poder suficiente para transformar seus limites perceptivos em destino coletivo.
Multiplicação Dialógica e instituições que possam corrigir quem lidera
Danilo Silva Guimarães alerta contra a metodolatria: quando um método passa a decidir antecipadamente quais experiências serão reconhecidas como legítimas. Sua proposta de Psicologia Indígena exige que o encontro transforme também quem pesquisa, quem interpreta e quem detém autoridade. (Repositório da Produção USP)
Podemos levar essa Multiplicação Dialógica à liderança:
A pessoa neurodivergente não deve ser silenciada pelo padrão dominante.
Mas nenhuma liderança deve utilizar sua singularidade para silenciar o coletivo.
A pergunta deixa de ser:
“Esta pessoa é normal ou diferente?”
E passa a ser:
“Quais condições permitem sua participação e quais instituições impedem que qualquer pessoa converta diferença, riqueza ou ideologia em poder sem correção?”
A arqueologia do México Central pré-colonial mostra que sociedades complexas combinaram de maneiras diversas autoridade pessoal, conselhos, grupos corporativos, ação coletiva e bens públicos. Não encontramos um passado perfeito, mas encontramos evidências de que concentrar permanentemente o poder em uma personalidade não é uma necessidade universal. (Frontiers)
Jiwasa não é tolerância sem limites
O Jiwasa não é um grupo que aceita tudo para parecer inclusivo.
É um “nós” em que cada pessoa continua humana — inclusive quem sofreu o dano.
Por isso, uma instituição orientada pelo Jiwasa precisa perguntar:
A adaptação ampliou a participação ou concentrou poder?
A explicação ajudou a compreender ou foi usada para evitar reparação?
Quem sofreu foi escutado?
A liderança consegue ser corrigida?
Quem denuncia continua pertencendo?
A troca de liderança é possível antes que o dano se torne irreversível?
Podemos, então, construir juntos a tese deste blog:
Proteger a neurodiversidade exige combater a falsa associação entre diferença cognitiva e ausência de empatia. Proteger o Jiwasa exige reconhecer que a crueldade instrumental pode ser aprendida, premiada e organizada por empresas, ideologias e Estados. A inclusão não pode tornar-se impunidade, e a responsabilização não pode tornar-se perseguição à diferença.
O desafio não será resolvido procurando antecipadamente quem é “bom” ou “mau”.
Precisamos construir instituições nas quais todas as pessoas recebam os apoios de que necessitam, mas nenhuma fortuna, diagnóstico, cargo ou missão possa comprar o direito de ferir sem contestação.
Como proteger cada Weichö em sua diferença e, ao mesmo tempo, impedir que alguém utilize a linguagem da diferença para dominar, desumanizar e destruir o Jiwasa?
Referências comentadas
Milton, D.; Gurbuz, E.; Lopez, B. (2022). The Double Empathy Problem: Ten Years On.
Questiona a ideia de que as dificuldades empáticas residam exclusivamente nas pessoas autistas e destaca a dimensão recíproca da incompreensão. (PubMed)
Fletcher-Watson, S. et al. (2024). Do You Feel Me? Autism, Empathic Accuracy and the Double Empathy Problem.
Mostra que pessoas não autistas podem interpretar com menor precisão relatos emocionais produzidos por pessoas autistas. (PubMed)
Duradoni, M. et al. (2023). Cognitive Empathy and the Dark Triad: A Literature Review.
Discute como a compreensão cognitiva das emoções pode coexistir com estratégias manipulativas quando não é acompanhada por preocupação afetiva e responsabilidade moral. (MDPI)
Luan, Y. et al. (2022). Exploring the Antecedents of Unethical Pro-Organizational Behavior: A Meta-Analysis.
Mostra que desengajamento moral e identificação acrítica com organizações ou líderes podem favorecer condutas antiéticas realizadas em nome do grupo. (Vrije Universiteit Amsterdam)
Landry, A.; Druckman, J.; Willer, R. (2024). Need for Chaos and Dehumanization Are Robustly Associated with Support for Partisan Violence.
Relaciona desumanização de adversários e disposição para o caos ao apoio à violência política. (DOI)
Guimarães, D. S. (2022). Indigenous Psychology as a General Science for Escaping the Snares of Psychological Methodolatry.
Defende uma ciência que permita ao encontro ético modificar métodos e categorias apresentados como universais. (Repositório da Produção USP)
Carballo, D. M. (2022). Governance Strategies in Precolonial Central Mexico.
Apresenta a diversidade de combinações entre centralização, autoridade compartilhada e instituições coletivas na Mesoamérica pré-colonial. (Frontiers)
Lei Brasileira de Inclusão e Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Estabelecem igualdade, adaptações razoáveis e salvaguardas proporcionais para garantir autonomia, participação e proteção contra abuso. (Senado Legislativo)