Jackson Cionek
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O cérebro nunca esteve sozinho - por que o contexto muda tudo?

O cérebro nunca esteve sozinho - por que o contexto muda tudo?

Enquanto você lê, seu corpo continua acontecendo. E talvez seja nele que possamos começar a compreender onde nasce aquilo que chamamos de cognição.

Série especial BrainLatam | VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC — 2026

ONDE COMEÇA A SUA LEITURA?

Enquanto seus olhos percorrem estas palavras, talvez você consiga perceber sua respiração.

O ar entrando. O ar saindo.

Talvez também perceba a temperatura do ambiente, o contato dos pés com o chão ou algum som que continua acontecendo ao redor.

Você já respirava antes de encontrar esta frase. Seu coração continuava trabalhando. Milhares de processos metabólicos sustentavam sua existência sem exigir atenção consciente.

Mas alguma coisa pode ter mudado quando você percebeu a respiração.

O que aconteceu?

As palavras encontraram seus olhos, sua memória, sua história. Sua atenção alcançou um movimento corporal que já acontecia.

Onde começou essa cognição?

No cérebro que processou as palavras? No corpo que respira? No ambiente que permite a leitura? Ou nas relações entre essas dimensões?

Essa pergunta acompanha o VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), programado para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo, sob o tema:

“O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar”.

Como patrocinadora, a BrainLatam desenvolve esta série de reflexões inspiradas nos temas anunciados pelos pesquisadores, procurando ampliar nossas possibilidades de investigação e participação científica.

O CÉREBRO QUE ESTUDA A SI MESMO

Imagine um cérebro capaz de observar seus próprios circuitos.

Identificamos neurônios, sinapses, neurotransmissores e padrões de atividade elétrica. Descobrimos mecanismos envolvidos na memória, no movimento e na percepção.

Mas esse cérebro nunca existiu isoladamente.

Enquanto você caminha, seu sistema nervoso integra informações visuais, musculares, vestibulares e fisiológicas. Sua respiração acompanha demandas metabólicas. O coração participa da circulação que sustenta os tecidos.

Ao reconhecer alguém conhecido, seu comportamento também encontra memórias, emoções e experiências anteriores.

Podemos estudar cada componente separadamente. Mas compreender a experiência exige investigar suas relações.

A neurociência contemporânea tem ampliado essa perspectiva ao estudar a comunicação entre cérebro, órgãos e ambiente.

Não significa abandonar a investigação dos circuitos neurais. Significa reconhecer que esses circuitos participam da regulação de um organismo inteiro.

Talvez possamos perguntar: quantas condições precisam continuar acontecendo para que um pensamento se torne possível?

QUANDO A RESPIRAÇÃO PARTICIPA DA COGNIÇÃO

Voltemos à sua respiração.

Você consegue perceber em qual momento do ciclo respiratório está?

Não precisamos modificá-la. Basta reconhecer que esse movimento continua acontecendo.

Uma revisão publicada em 2025 na Nature Reviews Neuroscience, liderada pelo pesquisador brasileiro Adriano B. L. Tort, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, reuniu evidências de associações entre o ritmo respiratório e atividades neurais em humanos e outros mamíferos.

A pesquisa mostra que oscilações relacionadas à respiração podem alcançar regiões envolvidas em processos emocionais e cognitivos.

Entre os autores está Joaquin Gonzalez, pesquisador vinculado à Universidade da República, no Uruguai.

Essa contribuição latino-americana amplia nossa compreensão sobre a organização temporal da atividade cerebral.

Isso significa que respirar determina nossos pensamentos?

Não. Os resultados demonstram relações fisiológicas específicas, cujos efeitos variam conforme o contexto, a espécie, a região cerebral e a tarefa investigada.

Mas revelam uma possibilidade fascinante: um movimento que sustenta a vida também pode participar da dinâmica neural relacionada àquilo que percebemos.

O CORPO TAMBÉM PRODUZ INFORMAÇÕES

Existe um conceito científico particularmente importante para compreender essas relações: interocepção.

Ele se refere à detecção e integração de sinais provenientes das condições internas do organismo.

Mudanças na pressão arterial, composição química do sangue, distensão de órgãos e necessidades fisiológicas podem influenciar processos regulatórios, emoções e comportamentos.

Em 2024, Diego Candia-Rivera e colaboradores publicaram uma revisão sobre interocepção, fisiologia de redes e consciência corporal.

O trabalho discute como diferentes sistemas fisiológicos participam das condições relacionadas à percepção do próprio corpo.

Podemos encontrar uma aplicação cotidiana dessas pesquisas quando percebemos cansaço, fome, desconforto ou alterações respiratórias.

Entretanto, cada experiência envolve mecanismos específicos. Uma sensação subjetiva não permite identificar diretamente todos os processos fisiológicos que a produziram.

Sentir e medir são possibilidades complementares, mas diferentes, de conhecer o corpo.

Essa distinção é especialmente importante quando investigamos a consciência.

DA UFABC ÀS RELAÇÕES ENTRE CORPO E CÉREBRO

Entre os pesquisadores anunciados para o simpósio está Leonardo Santana Novaes, da Universidade de São Paulo.

Sua apresentação provisória, “Do corpo ao encéfalo: vias integrativas que moldam a emoção e o comportamento”, abordará mecanismos de comunicação entre sinais fisiológicos periféricos e circuitos neurais.

Também participará André Fujita, da USP, com o tema anunciado “Além do Cérebro: Sinais do Corpo, Cognição e Comportamento na Era da Inteligência Artificial”.

Essas investigações aproximam campos que frequentemente utilizam instrumentos e linguagens diferentes.

A fisiologia observa processos corporais. A neurociência investiga circuitos e suas funções. A ciência computacional oferece métodos para analisar relações complexas entre variáveis.

O encontro dessas perspectivas permite formular perguntas que dificilmente caberiam em uma única disciplina.

E se pudéssemos acompanhar, simultaneamente, determinadas atividades cerebrais, ritmos cardíacos e movimentos respiratórios durante uma experiência compartilhada?

Quais relações encontraríamos?

Como distinguiríamos uma correlação de um mecanismo causal?

Essas perguntas aproximam a interdisciplinaridade de possibilidades experimentais concretas.

A COGNIÇÃO PODE ULTRAPASSAR O CÉREBRO?

Imagine duas pessoas lendo estas mesmas palavras.

Uma recorda uma caminhada na floresta. Outra se lembra de uma conversa. Uma terceira talvez esteja pensando nos instrumentos utilizados pela neurociência.

As palavras permanecem semelhantes. As experiências, não.

A pesquisadora Lucia Santaella, da PUC-SP, participará do simpósio com o tema provisório “Expansões no conceito de cognição e os limites da neurociência”.

Sua trajetória acadêmica contribui para discutir linguagens, tecnologias, semiótica e transformações dos processos cognitivos.

A cognição corporificada, a cognição estendida e a cognição distribuída oferecem interpretações distintas sobre a participação do corpo, do ambiente e das ferramentas nos processos cognitivos.

Essas abordagens apresentam divergências importantes. Não constituem uma teoria única.

Ainda assim, convidam a investigar como pensar envolve ações, experiências e recursos que encontramos no mundo.

Enquanto você lê, o texto oferece uma organização de palavras. Sua experiência participa da elaboração dos significados.

Podemos compartilhar uma pergunta sem produzir respostas idênticas.

CORPO-TERRITÓRIO: UMA POSSIBILIDADE DE INVESTIGAÇÃO

Na BrainLatam, propomos o Corpo-Território como uma unidade indivisível de existência, sensibilidade e participação nas relações que sustentam a vida.

Nossa formulação autoral parte de uma hipótese:

Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.

Utilizamos aqui metabolismo em sentido conceitual ampliado, incluindo movimentações de matéria e energia relacionadas às condições de existência do Corpo-Território.

Essa proposta não substitui as definições científicas estabelecidas de metabolismo ou consciência.

Ela procura abrir perguntas investigáveis.

Quais movimentos corporais participam das experiências conscientes? Como nossas relações modificam as condições nas quais percebemos? Que dimensões permanecem inacessíveis aos instrumentos disponíveis?

A perspectiva decolonial também nos convida a reconhecer conhecimentos latino-americanos e ameríndios sobre corpo, território e relações entre seres vivos.

Esses conhecimentos possuem histórias e fundamentos próprios. O diálogo científico ganha profundidade quando respeitamos suas diferenças, em vez de reduzi-los a equivalências automáticas.

E SE O LABORATÓRIO PARTICIPASSE DA VIDA?

Imagine um futuro em que tecnologias avançadas possam acompanhar processos fisiológicos enquanto pessoas caminham por uma Mata Atlântica preservada.

A floresta continua sendo floresta. Seus habitantes permanecem participando dos ciclos ecológicos.

A tecnologia procura ampliar nossa capacidade de investigar sem transformar o Bioma em simples infraestrutura.

Hoje, instrumentos como EEG, fNIRS, ECG e sensores respiratórios já permitem registrar diferentes dimensões neurofisiológicas.

Sua integração exige atenção aos limites de cada método, à qualidade dos sinais e às condições experimentais.

Como representante da Artinis & NIRx e da Brain Products, a BrainLatam aproxima pesquisadores de tecnologias avançadas de neuroimagem funcional (fNIRS), eletroencefalografia (EEG) e investigação multimodal, ampliando as possibilidades de estudar o cérebro, o corpo e suas interações em diferentes contextos.

Mas a tecnologia não representa o objetivo final.

O objetivo é ampliar as perguntas que podemos construir sobre a vida, preservando as condições que tornam possível investigá-la.

O QUE CONTINUA ACONTECENDO ENTRE NÓS?

Talvez sua respiração tenha mudado desde o início da leitura.

Talvez você tenha percebido alguma sensação. Talvez sua atenção tenha seguido por caminhos completamente diferentes daqueles que imaginamos.

Cada possibilidade merece permanecer aberta.

Chamamos de Jiwasa nossa perspectiva de agência compartilhada: participar de uma elaboração coletiva preservando a singularidade de cada Ser.

A ciência oferece evidências, conceitos e instrumentos. Quem lê participa com experiências, perguntas e interpretações.

O VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC nos convida justamente a ampliar as relações entre diferentes campos do conhecimento.

Podemos continuar estudando os circuitos cerebrais.

Podemos investigar os movimentos que sustentam o corpo.

Podemos reconhecer como ambientes, tecnologias e relações participam das condições da cognição.

E talvez possamos retornar à pergunta inicial percebendo novas possibilidades:

Onde começa a cognição quando o cérebro nunca esteve sozinho?

A resposta permanece aberta à investigação.

E você continua participando dela.

Jiwasa: construir conhecimento juntos, sem que ninguém precise deixar de Ser.


Sobre a série

Este texto integra a série especial da BrainLatam, patrocinadora do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC, com realização prevista de 16 a 19 de novembro de 2026.

As reflexões dialogam com os temas anunciados pela organização. As hipóteses e propostas autorais pertencem à BrainLatam e não representam necessariamente as posições dos pesquisadores ou da UFABC.

Evento oficial: https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/

Referências científicas

  1. Tort, A. B. L. et al. (2025). Global coordination of brain activity by the breathing cycle. Nature Reviews Neuroscience, 26, 333–353. https://doi.org/10.1038/s41583-025-00920-7

  2. Candia-Rivera, D. et al. (2024). Interoception, network physiology and the emergence of bodily self-awareness. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 165, 105864. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2024.105864

  3. Wang, R. L.; Chang, R. B. (2024). The Coding Logic of Interoception. Annual Review of Physiology, 86, 301–327. https://doi.org/10.1146/annurev-physiol-042222-023455

  4. UFABC (2026). VIII Simpósio em Neurociência e Cognição — programação temática provisória e informações institucionais.



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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States