Jackson Cionek
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O instante em que A deixa de Ser A

O instante em que A deixa de Ser A

Respiração, alostase e completude do movimento na transcendência entre estados

Antes de continuar, perceba

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Enquanto seus olhos percorrem estas palavras, seu corpo respira, ajusta a postura e participa de movimentos que talvez ainda não tenham encontrado sua atenção.

Sem tentar controlar nada, perceba uma inspiração.

Conseguiu?

Talvez o movimento tenha mudado quando você decidiu observá-lo. Talvez não.

Não precisamos chegar à mesma resposta.

Mas algo interessante aconteceu: começamos a investigar uma experiência que nenhum de nós pode viver pelo outro.

Agora vamos entrar juntos em outra situação.

Cinco caçadores na Mata Atlântica

Estamos na Mata Atlântica, milhares de anos atrás.

Imagine cinco caçadores de um grupo associado àquilo que os arqueólogos hoje denominam tradição Umbu.

Pedro Ignácio Schmitz e Jairo Henrique Rogge documentaram sítios dessa tradição em Taió, Santa Catarina, com pontas de projéteis, instrumentos de pedra e vestígios de ocupações antigas. Mercedes Okumura e Astolfo Araujo investigaram a diversidade dessas tecnologias no Sul do Brasil.

Não sabemos como aqueles grupos organizavam suas caçadas. A cena que construiremos é imaginada, embora inspirada nesse contexto arqueológico.

O chão está úmido.

A vegetação dificulta enxergar adiante.

Você escuta uma ave. Depois, o movimento de folhas.

Um dos caçadores percebe algo entre as árvores.

Seu passo diminui.

O segundo ainda não viu o animal, mas percebe a mudança corporal do companheiro.

O terceiro modifica sua posição.

O quarto interrompe um movimento que havia começado.

O quinto permanece atento a outra direção.

Talvez alguém faça um som breve. Talvez exista um gesto. Talvez nenhum sinal deliberado seja necessário naquele instante.

Quando os cinco começaram a agir como coletivo?

Ainda não sabemos.

Talvez estejam apenas seguindo o mais experiente. Talvez cada um esteja antecipando movimentos dos demais.

Mas podemos perceber algo: todos continuam sendo Corpos-Territórios distintos.

Um movimento não precisa ser igual ao outro para participar da mesma ação.

O movimento que não aconteceu

Voltemos ao quarto caçador.

Ele estava prestes a avançar.

Preparou o corpo.

Então percebeu que o primeiro havia parado.

Seu movimento não aconteceu.

Mas será que desapareceu?

Talvez tenha sido inibido. Talvez tenha sido substituído por outro. Talvez a pausa permita perceber algo que o avanço impediria.

Agora o animal muda de direção.

As possibilidades anteriores já não correspondem à situação.

Os caçadores precisam reorganizar-se.

Um movimento preparado torna-se desnecessário. Outro passa a ser possível. Uma informação percebida por apenas um participante pode modificar a ação dos demais.

Em que instante A começou a deixar de Ser A?

Não precisamos imaginar uma transformação sobrenatural.

Estamos procurando o momento em que uma organização funcional começa a dar lugar a outra.

E precisamos observar também aquilo que não chegou a transformar-se em gesto.

Alostase: preparar possibilidades

O organismo não espera imóvel pelos acontecimentos.

Prepara respostas, ajusta recursos e antecipa demandas.

Chamamos de alostase os processos de regulação pelos quais sistemas fisiológicos se adaptam às necessidades presentes e previstas.

Pesquisadores latino-americanos como Joaquín Migeot, Carolina Panesso, Claudia Duran-Aniotz, Agustín Ibáñez e Sebastián Lipina destacaram a importância de compreender a alostase considerando condições ambientais, desigualdades e trajetórias de desenvolvimento.

Isso aproxima a neurobiologia de nossa concepção de Corpo-Território.

Os cinco caçadores não respondem apenas ao animal.

Respondem à floresta, ao terreno, às próprias condições metabólicas e aos movimentos dos companheiros.

Podemos imaginar mudanças respiratórias, musculares e cardiovasculares acompanhando essas ações.

Mas não podemos afirmar que todos respiravam sincronizadamente.

Nem que suas atividades cerebrais apresentavam acoplamento.

A cena nos oferece perguntas, não medições.

O que acontece quando o corpo prepara um movimento e as condições exigem que ele seja transformado antes da execução?

Completude do Movimento: continuar não significa executar

Na BrainLatam, desenvolvemos a hipótese da Completude do Movimento.

Propomos investigar um percurso possível:

Mobilização → Percepção → Intenção → Gesto → Retorno → Significado → Escolha → Transição.

Não é uma sequência obrigatória.

O quarto caçador pode interromper voluntariamente seu avanço.

Isso não significa fracasso.

Talvez sua melhor ação seja justamente não realizar o movimento inicialmente preparado.

A completude não exige executar todos os impulsos.

Ela nos convida a investigar se a mobilização encontra condições de percepção, reorganização, retorno e nova escolha.

Em nossa formulação autoral, utilizamos o termo Anergia para questionar situações nas quais uma mobilização não encontra condições suficientes de transformação ou recuperação.

Não estamos propondo uma energia física armazenada nos músculos.

Estamos tentando compreender experiências nas quais possibilidades de ação permanecem restringidas.

Agora deixe a floresta por um instante.

Imagine uma reunião em que você deseja discordar, mas teme perder pertencimento.

A resposta começa a formar-se.

Você permanece em silêncio.

Foi uma escolha livre? Uma inibição apropriada? Ou uma restrição produzida pelas relações?

Podemos investigar essas diferenças sem presumir que toda ação interrompida produza sofrimento.

A respiração participa dessa história?

Retornemos aos caçadores.

Um percebe.

Outro espera.

Um terceiro modifica sua trajetória.

Todos continuam respirando.

A frequência respiratória pode mudar com esforço, atenção, emoção e preparação da ação.

Em estudos com animais, Daniel Rojas-Líbano, José Ignacio Egaña e colaboradores investigaram relações entre respiração diafragmática e ritmos neurais.

Em humanos, Christina Zelano e colaboradores demonstraram que a respiração nasal pode acompanhar oscilações límbicas e influenciar determinados desempenhos cognitivos.

Esses resultados não demonstram que a coordenação entre caçadores dependa da sincronização respiratória.

Mas permitem perguntar:

A respiração se reorganiza antes, durante ou depois de uma mudança na ação compartilhada?

Talvez diferentes participantes apresentem respostas distintas.

Talvez um respire mais rapidamente enquanto outro diminui sua movimentação.

Por isso, não devemos procurar apenas ritmos iguais.

Precisamos investigar relações temporais entre percepção, respiração, preparação motora e acontecimentos coletivos.

O que Hutcheon nos ensinou sobre transições

Em 2023, Evan Hutcheon e colaboradores investigaram associações entre saturação de oxigênio e atividade EEG durante hipóxia experimental.

Um aspecto merece atenção: na fase inicial de dessaturação, determinadas relações entre oxigenação e medidas eletroencefalográficas diferiram daquelas observadas em condições estabilizadas.

O estudo não investigou caçadores, pertencimento ou transcendência.

Tampouco devemos provocar hipóxia para estudar o Jiwasa.

Sua contribuição aqui é metodológica.

A passagem entre estados pode conter informações que não aparecem quando observamos somente o início e o final.

Imagine conhecer apenas duas imagens da caçada.

Na primeira, os cinco caminham.

Na segunda, permanecem imóveis.

Quanto perderíamos sobre os movimentos preparados, as percepções compartilhadas e as decisões transformadas entre essas imagens?

Talvez precisemos estudar os acontecimentos enquanto emergem.

Da coordenação ao Jiwasa

O neurocientista chileno Francisco Varela e Humberto Maturana contribuíram para compreender a cognição em relação à organização dos sistemas vivos e à história de suas interações.

Essa perspectiva nos ajuda a reconhecer que os caçadores não são cinco cérebros desconectados.

Mas também não formam automaticamente uma mente única.

Podem estar coordenados pela necessidade.

Podem seguir comandos.

Podem aprender reciprocamente.

A hipótese BrainLatam distingue essas possibilidades.

Um Jiwasa verdadeiro exige investigar se cada Corpo-Território preserva a capacidade de perceber, propor, modificar e recusar ações.

Talvez o mais experiente reconheça um caminho.

Talvez o mais jovem perceba algo inesperado.

Se essa informação puder modificar a decisão compartilhada, teremos uma possibilidade de reciprocidade.

Não sabemos se isso aconteceu entre antigos grupos Umbu.

Mas podemos construir experimentos contemporâneos para investigar situações semelhantes.

E a Reserva Conectômica?

Roberto Lent, Fernanda Tovar-Moll e Diego Szczupak apresentaram, em 2026, a hipótese da Reserva Conectômica: a possibilidade de conexões anatômicas disponíveis contribuírem para processos de neuroplasticidade.

A BrainLatam propõe investigar uma questão adicional.

Será que determinadas relações permitem recrutar configurações funcionais pouco utilizadas individualmente?

Chamamos essa possibilidade de Reserva Conectômica Relacional.

Precisamos distinguir experiência, reorganização funcional e demonstração de conexões anatômicas de reserva.

Uma transformação percebida não comprova automaticamente as demais.

É justamente por isso que desejamos pesquisar.

Cinco Corpos-Territórios em um experimento

Podemos transportar a questão da floresta para uma tarefa cooperativa segura.

Cinco participantes precisam localizar informações, antecipar mudanças e decidir conjuntamente como agir.

Utilizamos EEG, fNIRS, ECG, análise da variabilidade cardíaca e duas faixas respiratórias por participante.

Registramos movimentos, comunicação e momentos de decisão.

Comparamos ações individuais, respostas comandadas e situações em que qualquer participante pode modificar a estratégia do grupo.

Procuramos identificar movimentos preparados, inibidos, executados ou reformulados.

Também precisamos controlar fala, esforço, movimento e variações fisiológicas que influenciam os sinais cerebrais.

O objetivo não é provar antecipadamente o Jiwasa.

É descobrir quais condições permitem que possibilidades individuais se transformem em capacidades compartilhadas.

Quando A começa a deixar de Ser A

Voltemos à Mata Atlântica.

Os cinco caçadores continuam atentos.

O animal pode escapar.

A caçada pode terminar sem alimento.

Mesmo assim, seus movimentos podem ter produzido aprendizagem.

Talvez um tenha percebido algo que os demais ainda não percebiam.

Talvez outro tenha preparado um gesto que precisou abandonar.

Talvez o grupo tenha descoberto uma nova maneira de agir.

Não sabemos.

Mas agora temos perguntas que podemos levar ao laboratório.

Na Política, quantos movimentos de participação são preparados e não encontram possibilidades de expressão?

Na Ciência, quantas perguntas permanecem sem investigação?

Na Religião, quantas experiências poderiam encontrar novos caminhos quando a liberdade de consciência permite pertencer sem obrigação de obedecer?

O Estado-Jiwasa surge como proposta de investigar instituições que preservem a agência dos Corpos-Territórios enquanto ampliam suas possibilidades de construção coletiva.

Antes de terminar, perceba novamente sua respiração.

Você não é um dos cinco caçadores.

Mas talvez tenha acompanhado seus movimentos, antecipado decisões e imaginado possibilidades que não existiam no início desta leitura.

Algo mudou em sua experiência?

Não precisamos concordar.

Podemos investigar.

Talvez transcender-se Ser não signifique abandonar aquilo que somos, mas encontrar condições para perceber, transformar e escolher movimentos que antes não estavam disponíveis.

E nossa pergunta permanece aberta:

A respiração antecede, acompanha ou sucede o instante em que um Corpo-Território transforma um movimento preparado em uma nova possibilidade de ação coletiva?


Referências comentadas

Schmitz, Pedro Ignácio; Rogge, Jairo Henrique (2015). Tradição Umbu na Mata Atlântica de Taió, SC. Cuadernos del Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano – Series Especiales, 2(4), 154–166. Documenta ocupações associadas à tradição Umbu na Mata Atlântica catarinense. Fundamenta o cenário arqueológico, não os comportamentos imaginados na narrativa.

Okumura, Mercedes; Araujo, Astolfo G. M. (2014). Long-term cultural stability in hunter–gatherers. Journal of Archaeological Science, 45, 59–71. Examina a continuidade tecnológica de pontas bifaciais no Sul do Brasil, contribuindo para compreender tradições de aprendizagem entre gerações.

Migeot, Joaquín; Panesso, Carolina; Duran-Aniotz, Claudia; et al. (2024). Allostasis, health, and development in Latin America. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 162, 105697. Articula alostase, condições sociais e trajetórias de desenvolvimento na América Latina.

Hutcheon, Evan A.; Vakorin, Vasily A.; Nunes, Adonay; et al. (2023). Associations between spontaneous electroencephalogram oscillations and oxygen saturation across normobaric and hypobaric hypoxia. Human Brain Mapping, 44, 2345–2364. Demonstra a importância de examinar mudanças fisiológicas transitórias, sem estabelecer relação direta com a emergência coletiva.

Rojas-Líbano, Daniel; Frederick, Donald E.; Egaña, José I.; Kay, Leslie M. (2014). The olfactory bulb theta rhythm follows all frequencies of diaphragmatic respiration in the freely behaving rat. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 8, 214. Investiga o acoplamento entre ritmos respiratórios e atividade neural em modelo animal, com participação chilena.

Zelano, Christina; Jiang, Heidi; Zhou, Guangyu; et al. (2016). Nasal respiration entrains human limbic oscillations and modulates cognitive function. The Journal of Neuroscience, 36, 12448–12467. Relaciona respiração nasal, oscilações cerebrais e processos cognitivos humanos.

Lent, Roberto; Tovar-Moll, Fernanda; Szczupak, Diego (2026). The secret connections of the brain: a connectomic reserve for neuroplasticity?. Brain, 149, 2273–2285. Apresenta a hipótese da Reserva Conectômica, abrindo novas possibilidades de investigação sobre reorganização funcional.

Maturana, Humberto; Varela, Francisco (1984). El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Editorial Universitaria. Contribuição chilena para compreender cognição, organização dos sistemas vivos e relações entre organismo e ambiente.

BrainLatam (2026). Completude do Movimento. Desenvolve a hipótese autoral sobre mobilização, percepção, retorno, escolha e transição, central neste artigo.

BrainLatam (2026). Quando eu Sinto o Retorno, eu Viro Dono do Passo. Explora a relação entre retorno sensorial, movimento e senso de agência.

Texto principal: aproximadamente 1.330 palavras, excluídas as referências. A narrativa arqueológica foi mantida como hipótese imaginativa; as afirmações sobre tradição Umbu, alostase, respiração e Reserva Conectômica foram apoiadas nas publicações citadas.

BrainLatam | W44/2026 - Respiração · Alostase · Completude do Movimento · Reserva Conectômica Relacional









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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States