O que a Neurociência chama de normal - e quem ficou fora dessa medida?
O que a Neurociência chama de normal - e quem ficou fora dessa medida?
Quando as palavras começam a prender
Série Especial BrainLatam — SBNeC 2026
Vamos imaginar que nós dois fazemos um teste de memória.
Existe uma pontuação média.
Um tempo esperado.
Um número de respostas considerado adequado.
Quem se aproxima da média recebe uma palavra:
normal.
Mas antes de aceitarmos a palavra, podemos perguntar juntos:
Normal em relação a quem?
Quem construiu aquela média?
Qual língua falava?
Quantos anos estudou?
Onde cresceu?
Que objetos reconhecia?
Que relação tinha com escola, tempo, números, território e escrita?
A Ciência precisa de medidas.
O problema não está em medir.
O problema começa quando esquecemos que:
a régua também possui uma história.
O “normal” não nasce pronto na natureza
Normas neuropsicológicas são essenciais.
Elas ajudam a reconhecer alterações, acompanhar doenças e orientar cuidados.
Mas não são propriedades naturais descobertas prontas no cérebro.
São construídas a partir de populações de referência.
E grande parte da Ciência Cognitiva moderna foi construída com populações chamadas WEIRD: ocidentais, escolarizadas, industrializadas, relativamente ricas e inseridas em determinadas formas de democracia.
Em 2022, pesquisadores latino-americanos organizaram o livro Cognitive Sciences and Education in Non-WEIRD Populations: A Latin American Perspective, reunindo pesquisas feitas com populações social e etnicamente diversas da região e defendendo uma Ciência Cognitiva mais social, afetiva, moral, política e interpessoal. (Springer)
Isso não significa que pesquisas realizadas em Boston, Londres ou Berlim estejam erradas.
A pergunta é outra:
Quanto podemos universalizar antes de testar se a mesma regularidade permanece em Manaus, Bogotá, Cusco ou em um território indígena?
Às vezes o problema está na própria tarefa
No Amazonas encontramos um exemplo muito concreto.
Em 2024, Camila Bezerra, Noeli Toledo e colaboradores desenvolveram e validaram o Brazilian Indigenous Cognitive Assessment — BRICA com uma comunidade indígena urbana multiétnica de Manaus.
O desafio não era simplesmente reduzir a pontuação necessária para alguém com menor escolaridade.
Era adaptar culturalmente a própria avaliação.
Palavras, figuras, tarefas e situações podem não possuir o mesmo significado em todos os Corpos-Territórios.
O BRICA foi desenvolvido com participação de especialistas e da comunidade e validado em 141 participantes indígenas com 50 anos ou mais. (PubMed)
Isso produz uma pergunta desconfortável:
E se alguém parecer ter dificuldade cognitiva porque nossa tarefa não conseguiu encontrar aquilo que pretendia medir?
Agora Neurociência Decolonial deixa de ser apenas discurso.
Pode modificar diagnóstico.
Mas incluir mais pessoas ainda não resolve tudo
Podemos ampliar nossa amostra.
Incluir Brasil.
Colômbia.
Peru.
Povos indígenas.
Isso é necessário.
Mas ainda podemos continuar fazendo exatamente as mesmas perguntas.
Sandra Báez e Agustín Ibáñez argumentaram em 2023 que pesquisas do Sul Global não deveriam servir apenas para “adicionar diversidade” aos modelos existentes. Elas são necessárias para construir modelos melhores de envelhecimento e saúde cerebral. (PubMed)
E os dados começam a mostrar por quê.
Em 2025, Lucas Da Ros, Eduardo Zimmer, Agustín Ibáñez e colaboradores analisaram uma grande coorte brasileira e bases de Colômbia, Chile, Equador e Uruguai. O peso de fatores sociais e de saúde sobre cognição e funcionalidade variou entre os países. (PubMed)
Outro estudo latino-americano de 2025 avaliou 2.211 pessoas de seis países e incorporou um exposoma social: educação, insegurança alimentar, recursos financeiros, acesso à saúde, infância, trauma e outras condições acumuladas ao longo da vida. Essas combinações estiveram associadas a diferenças de cognição, funcionalidade e características cerebrais em determinadas populações. (Nature)
Isso não significa:
“a pobreza determina o cérebro”.
Significa:
um cérebro nunca chega sozinho ao laboratório.
Chega uma história junto.
Quem construiu a categoria?
Aqui Danilo Silva Guimarães nos ajuda a dar mais um passo.
Professor do Instituto de Psicologia da USP, Danilo trabalha com Psicologia Indígena e vem problematizando categorias rígidas usadas para representar experiências humanas.
Em 2025, ao discutir identidades fixas, ele mostrou como experiências históricas e ambivalentes podem ser comprimidas em classificações discretas que são úteis administrativamente, mas podem também produzir apagamentos. (Jornal da USP)
Em outro texto do mesmo ano, propôs uma ideia especialmente importante:
universalidade e generalidade não precisam significar homogeneidade e exclusão. (Jornal da USP)
Isso muda nossa crítica.
Não precisamos abandonar a busca por mecanismos compartilhados pela espécie humana.
Podemos procurar o universal.
Mas precisamos perguntar:
Aquilo que chamamos de universal continua verdadeiro quando outros Corpos-Territórios também participam da construção da pergunta?
Uma categoria pode ser útil e ainda esconder alguma coisa
Imagine um gradiente:
azul
→ azul-arroxeado
→ roxo.
Para organizar dados, precisamos em algum momento colocar uma fronteira.
Azul deste lado.
Roxo daquele.
A fronteira pode ser útil.
Mas não significa que a natureza tenha desenhado uma linha exatamente ali.
Podemos ter algo parecido quando usamos:
normal / anormal
típico / atípico
saudável / doente
cognitivo / emocional
individual / social.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
Encontramos uma fronteira no fenômeno ou colocamos uma fronteira para conseguir estudá-lo?
As duas coisas não são iguais.
Talvez “normal” seja também um ótimo local
Já falamos em BrainLatam sobre ótimos locais.
Criamos uma categoria.
Ela funciona.
Publicamos.
Outros pesquisadores utilizam.
Criamos testes melhores.
Treinamos especialistas.
Quanto mais a categoria funciona, mais conhecimento produzimos dentro dela.
Isso é ótimo.
Até que talvez deixemos de procurar aquilo que ela não consegue perceber.
O perigo de um ótimo local não é estar completamente errado. É funcionar bem o suficiente para que deixemos de procurar fora dele.
A Neurociência latino-americana também enfrenta limitações anteriores ao próprio experimento.
Em 2022, Ana Silva, Elaine Del-Bel, Zulma Dueñas, Valeria Ramirez-Castañeda e outros pesquisadores chamaram atenção para desigualdades de financiamento, infraestrutura, idioma, oportunidades e visibilidade que afetam quem consegue produzir Neurociência na região. (Nature)
Então surge nossa Pergunta Zero:
Quem teve condições de considerar esta pergunta importante?
E talvez uma Pergunta Menos Um:
Que pergunta nunca foi feita porque ninguém naquele laboratório possuía território, língua ou experiência para imaginá-la?
Palavras ancestrais podem abrir janelas
É aqui que palavras dos povos de nossos Biomas entram na BrainLatam.
Não como provas.
Não como misticismo.
Não para substituir estatística, EEG, fNIRS ou ressonância.
Elas podem entrar como janelas heurísticas.
Uma palavra pode fazer aparecer uma variável que nosso jargão não colocou no experimento.
Tekoha
Em 2023, o pesquisador Kaiowá Izaque João descreveu tekoha como um lugar no qual se torna possível viver segundo o próprio modo de existência, envolvendo autonomia, relações, território e dimensões cosmológicas. (Revistas USP)
BrainLatam pode perguntar:
Quando chamamos tudo isso apenas de “ambiente”, quais variáveis desapareceram?
Jiwasa
Jiwasa, em aimara, abre outra pergunta:
Quando medimos cooperação apenas como “eu ajudando o outro”, conseguimos perceber aquilo que emerge quando o resultado passa a ser representado como “nosso”?
Não substitui cooperação.
Amplia a pergunta.
Yãy hã mĩy
Entre os Tikmũ’ũn/Maxakali, Yãy hã mĩy aparece ligado à transformação; Sueli e Isael Maxakali descrevem imitação e transformação profundamente relacionadas em sua apresentação do conceito. (Universidade Federal de Minas Gerais)
BrainLatam não traduz isso como teoria da plasticidade.
No Yãy hã mĩy Estendido, perguntamos:
Estamos medindo apenas aquilo que alguém aprendeu a repetir ou também sua capacidade de perceber, variar e transformar aquilo que aprendeu?
Uma nova palavra não entrega uma nova verdade.
Ela pode entregar uma nova pergunta.
E nossas próprias palavras?
Aqui precisamos aplicar a crítica a nós mesmos.
BrainLatam também produz conceitos.
Eus Tensionais é um deles.
Mas uma Neurociência Decolonial coerente não pode transformar os Eus Tensionais em um novo “Eu verdadeiro”.
Eles devem permanecer uma hipótese.
Podemos investigar se aquilo que percebemos como “eu” muda com:
atenção;
estado fisiológico;
memória;
relações;
contexto;
território.
Se a evidência contrariar a hipótese, precisamos modificá-la.
O mesmo vale para:
Corpo-Território;
Jiwasa;
Yãy hã mĩy Estendido;
ou qualquer palavra que criarmos amanhã.
Decolonizar também significa não colonizar o futuro com nossas próprias categorias.
Multiplicar a pergunta
A contribuição de Danilo Guimarães à Psicologia Indígena ajuda a perceber outra diferença.
Em seu trabalho de 2022, ele discute a necessidade de construir Psicologia em diálogo com experiências e conhecimentos indígenas, em vez de simplesmente aplicar sobre esses mundos categorias psicológicas já terminadas. (SciELO)
Isso nos leva a uma transformação metodológica.
Não apenas:
“como medir memória nesta população?”
Mas também:
“o que esta população chama de lembrar que nossa tarefa nunca tentou medir?”
Não apenas:
“como adaptar nossa categoria ao outro?”
Mas:
“o encontro com o outro pode transformar nossa própria categoria?”
Isso é muito diferente.
É a passagem de:
traduzir o outro para nossa Ciência
para:
permitir que o encontro com o outro multiplique a Ciência que conseguimos fazer.
Ciência, Política e Religião voltam para nós
Podemos finalmente trazer tudo para primeira pessoa.
Religião → Expectar / Transcender
Que modelo de ser humano estou tomando como referência?
Política → Julgar / Escolher
Com qual régua estou classificando o outro?
Ciência → Fazer
O que acontece quando aplico essa classificação na realidade?
E Religare pergunta:
Quando alguém não cabe na minha categoria, consigo revisar minha categoria — ou começo a tentar corrigir aquela pessoa para que ela caiba nela?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da Neurociência Decolonial.
O recorte é necessário. A vida não é recortada.
Podemos estudar:
neurônio;
rede;
cérebro;
comportamento.
Depois subir:
cérebro
→ Corpo-Território
→ relações
→ língua
→ comunidade
→ Tekoha
→ Estado
→ Bioma.
E voltar.
Em cada passagem:
qual é a evidência?
qual é a mediação?
o que ficou de fora?
Porque precisamos recortar para conhecer.
Mas nós não vivemos recortados.
Pergunta BrainLatam
Quando nossa medida diz que alguém está fora do “normal”, conseguimos perguntar primeiro se encontramos uma diferença naquele Corpo-Território — ou apenas o limite de uma categoria que nós mesmos aprendemos a repetir?
Referências latino-americanas — pós-2021
Guimarães, D. S. (2022). A Tarefa Histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da Regulamentação da Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 42. Discussão sobre Psicologia Indígena e produção de conhecimento em diálogo com diferentes mundos de experiência. (SciELO)
Silva, A.; Iyer, K.; Cirulli, F.; Del-Bel, E.; Dueñas, Z.; Ramirez-Castañeda, V. et al. (2022). Addressing the opportunity gap in the Latin American neuroscience community. Nature Neuroscience, 25, 1115–1118. (Nature)
Alves, M. V.; Ekuni, R.; Hermida, M. J.; Valle-Lisboa, J. et al., eds. (2022). Cognitive Sciences and Education in Non-WEIRD Populations: A Latin American Perspective. Springer. (Springer)
Báez, S.; Alladi, S.; Ibáñez, A. (2023). Global South research is critical for understanding brain health, ageing and dementia. Clinical and Translational Medicine, 13, e1486. (PubMed)
João, I. (2023). Autonomia kaiowá e guarani: a ação dos ñanderu e ñandesy na criação do tekoha. Revista de Antropologia, 66. (Revistas USP)
Bezerra, C. C.; Toledo, N. N.; da Silva, D. F. et al. (2024). Culturally adapted cognitive assessment tool for Indigenous communities in Brazil: Content, construct, and criterion validity. Alzheimer's & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring, 16(2), e12591. (PubMed)
Fittipaldi, S.; Legaz, A.; Maito, M.; Hernández, H.; Ibáñez, A. et al. (2024). Heterogeneous factors influence social cognition across diverse settings in brain health and age-related diseases. Nature Mental Health, 2, 63–75. (Nature)
Guimarães, D. S. (2025). Identidades fixas não descrevem as experiências de muitas pessoas e produzem apagamentos históricos. Jornal da USP. (Jornal da USP)
Guimarães, D. S. (2025). Universalidade e generalidade não significam homogeneidade e exclusão. Jornal da USP. (Jornal da USP)
Da Ros, L. U.; Borelli, W. V.; Aguzzoli, C. S.; Zimmer, E. R.; Ibáñez, A. et al. (2025). Social and health disparities associated with healthy brain ageing in Brazil and in other Latin American countries. The Lancet Global Health, 13, e277–e284. (PubMed)
Migeot, J.; Pina-Escudero, S. D.; Hernández, H.; Fittipaldi, S.; Ibáñez, A. et al. (2025). Social exposome and brain health outcomes of dementia across Latin America. Nature Communications, 16, 8196. (Nature)
Fonte conceitual originária
Sueli Maxakali e Isael Maxakali — Yãy hã mĩy. Curadoria Tikmũ’ũn/Maxakali da exposição Mundos Indígenas, Espaço do Conhecimento UFMG. É utilizada aqui para preservar a origem do conceito; o Yãy hã mĩy Estendido é uma elaboração BrainLatam, e não uma tradução literal. (Universidade Federal de Minas Gerais)
“Nenhuma palavra — europeia, ameríndia ou BrainLatam — deveria encerrar a percepção. Uma boa palavra deveria reabri-la.”