Jackson Cionek
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Produtividade de excesso

Produtividade de excesso

Quando trabalhar mais deixa de melhorar a vida

A gente começa este texto com uma cena que muitos brasileiros conhecem no corpo.

A pessoa acorda cedo. Arruma a casa. Prepara café. Pega ônibus, metrô, van, moto, bicicleta, carro ou caminhada. Entra no fluxo de outros corpos que também saíram de suas casas. Cada um leva uma história, uma preocupação, um cansaço, uma esperança, uma conta vencendo, uma criança para cuidar, um idoso para visitar, um sonho guardado.

Nesse deslocamento, antes mesmo do trabalho começar, pode aparecer um Jiwasa verdadeiro.

A gente sente isso quando o transporte permite dignidade. Quando existe espaço para respirar. Quando alguém cede lugar. Quando olhares se reconhecem. Quando o trajeto tem segurança, luz, sombra, tempo humano e cidade funcionando. Quando o corpo percebe que está se movendo com outros corpos, dentro de um território compartilhado.

O deslocamento pode ser sofrimento.
Também pode ser pertencimento.

Tudo depende da forma como o Estado organiza o território.

O trabalho também pode gerar Jiwasa verdadeiro. A gente sente isso quando colegas cooperam, quando um ensina o outro, quando a equipe resolve algo junto, quando existe confiança, quando a liderança serve ao grupo, quando o ambiente permite rodízio, aprendizado, respeito e criação. Nesses momentos, trabalhar com outras pessoas pode ampliar nosso Corpo-Território. A gente sente que está produzindo algo com sentido.

Mas existe outro tipo de trabalho.

Existe o trabalho que move o corpo por abstração. A pessoa se desloca, cumpre horário, obedece metas, vende tempo, entrega energia vital e faz movimentos que talvez jamais escolheria naturalmente. O corpo se move menos por desejo vivo e mais pela necessidade de dinheiro. A marcação do tempo externo passa a dominar os espaços interiores. O relógio da empresa se sobrepõe ao ritmo do corpo.

Aqui aparece uma diferença essencial.

Existe Jiwasa verdadeiro, quando o corpo se move com sentido, pertencimento e cooperação real.

E existe Jiwasa capturado, quando a força coletiva dos trabalhadores é usada apenas para produzir valor financeiro distante da vida concreta de quem trabalha e do território onde a produção acontece.

Trabalhar para alguém pode gerar valor. Pode sustentar famílias. Pode criar serviços importantes. Pode produzir alimento, tecnologia, cuidado, saúde, educação, energia e infraestrutura. Mas, quando a organização do trabalho captura o corpo apenas como peça de produção, a vida perde fruição.

A pessoa recebe salário, mas perde sono.
Recebe salário, mas perde tempo com os filhos.
Recebe salário, mas adoece.
Recebe salário, mas vê o território ser destruído.
Recebe salário, mas sente que sua força vital serve a um projeto que empobrece o mundo onde ela mesma vive.

Esse é o drama da produtividade de excesso.

Ela junta pessoas, mas pode esvaziar o “a gente”.
Ela paga salários, mas pode destruir territórios.
Ela organiza equipes, mas pode produzir medo.
Ela cria metas, mas pode quebrar corpos.
Ela gera lucro, mas pode deixar a cidade mais cansada, mais endividada e mais distante de si.

A gente aprendeu a chamar isso de produtividade.

Mas talvez seja excesso organizado.

Excesso de cobrança.
Excesso de dívida.
Excesso de deslocamento.
Excesso de tela.
Excesso de meta.
Excesso de medo.
Excesso de comparação.
Excesso de trabalho sem pertencimento.
Excesso de riqueza indo embora do território onde o corpo fica.

A pergunta central nasce daqui:

que tipo de produtividade a Constituição brasileira deve proteger?

A Constituição fala em valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Isso abre uma possibilidade bonita. Trabalho e iniciativa podem caminhar juntos. Empresa e trabalhador podem gerar vida juntos. Produção e território podem se fortalecer juntos. Mas, para isso, a produtividade precisa ser medida pelo que melhora a vida concreta, e também pelo que preserva a energia vital dos corpos que produzem.

A produtividade constitucional precisa sair da contagem fria de volume, lucro e crescimento bruto. Ela precisa sentir o corpo.

A pergunta muda.

Em vez de perguntar apenas “quanto a gente produziu?”, a gente passa a perguntar:

essa produção melhorou a vida da gente no território?

Aumentou saúde?
Aumentou tempo de vida?
Aumentou descanso?
Aumentou moradia?
Aumentou água segura?
Aumentou energia limpa?
Aumentou alimento bom?
Aumentou educação?
Aumentou segurança?
Aumentou pertencimento?
Aumentou soberania do município?
Aumentou preservação do bioma?
Aumentou autonomia do cidadão?
Aumentou valor agregado no Brasil e na América Latina?

Essa pergunta precisa virar regra de Estado.

A primeira proposta constitucional seria incluir o princípio da Produtividade Vital do Corpo-Território.

Art. 170-A — A ordem econômica brasileira observará o princípio da Produtividade Vital do Corpo-Território, entendido como a produção de bens, serviços, tecnologias, alimentos, energia, dados, conhecimento e infraestruturas capazes de ampliar saúde, soberania, bem-estar, pertencimento, regeneração ambiental, valor agregado nacional e tempo de vida da população.

Em linguagem simples: produzir bem é produzir vida melhor.

A economia ganha sentido quando fortalece o corpo, o território e o futuro.

A segunda proposta seria medir desenvolvimento por indicadores que aparecem na vida real.

Art. 174-B — O planejamento nacional utilizará, além dos indicadores econômicos tradicionais, indicadores de bem-estar territorial, saúde mental, tempo de deslocamento, qualidade do trabalho, segurança alimentar, acesso à moradia, água, energia, educação, conectividade, preservação dos biomas, carbono territorial e pertencimento comunitário.

Em linguagem simples: o Brasil precisa medir o que a população realmente vive.

O país pode registrar crescimento econômico enquanto o corpo perde sono.
Pode aumentar produção enquanto a floresta cai.
Pode aumentar exportação enquanto a cidade perde água.
Pode aumentar lucro enquanto a família perde tempo de vida.

Por isso, a gente propõe o PIP: Produto Interno de Pertencimento.

O PIP mede aquilo que aumenta vida concreta no território: moradia, água, luz, saúde, alimento, educação, energia limpa, dados seguros, bioma vivo, tempo de deslocamento menor, trabalho saudável, renda estável, cuidado de crianças e idosos, segurança antes da tragédia, cultura, ciência e pertencimento.

A terceira proposta seria proteger o trabalho contra formas predatórias de organização.

Art. 7º-A — O trabalho, em todas as suas formas, deverá respeitar a saúde física, mental, familiar e territorial da pessoa, vedadas formas de organização produtiva que gerem esgotamento sistemático, adoecimento coletivo, humilhação, insegurança extrema, exposição abusiva a jornadas excessivas ou transferência permanente de riscos econômicos ao trabalhador.

Em linguagem simples: a produtividade precisa caber dentro da vida.

O corpo brasileiro pode trabalhar com dignidade, descanso, cooperação e possibilidade de futuro. O trabalho pode ser lugar de aprendizado e criação, e também precisa ser protegido contra lideranças predatórias que transformam comando em prazer de dominação.

Toda organização produtiva cria clima emocional.
Existe clima que abre confiança.
Existe clima que fecha o corpo.
Existe liderança que organiza o grupo.
Existe liderança que sequestra o grupo.
Existe comando que serve ao objetivo comum.
Existe comando que extrai prazer da submissão dos outros.

Uma Constituição Corpo-Território precisa reconhecer que ambiente de trabalho também é território.

A quarta proposta seria vincular incentivos públicos ao benefício real no território.

Art. 170-B — Empresas, setores ou atividades que recebam subsídios, incentivos, crédito público, renúncias condicionadas ou apoio estatal deverão demonstrar benefício concreto ao Corpo-Território impactado, incluindo geração de trabalho saudável, valor agregado nacional, proteção ambiental, inovação, formação técnica, melhoria local e rastreabilidade do recurso público.

Em linguagem simples: quem recebe apoio do Estado precisa devolver vida concreta ao território.

A quinta proposta seria estimular uma economia de alto valor para o Brasil e para a América Latina.

Art. 219-C — O Estado fomentará cadeias produtivas estratégicas voltadas às necessidades brasileiras e latino-americanas, incluindo energia limpa, produção de alimentos saudáveis, manutenção de servidores e centros de dados, inteligência artificial pública, saúde, educação, saneamento, reflorestamento, tecnologias de água, carbono territorial, biomas vivos e soberania digital.

Em linguagem simples: o Brasil pode produzir o que a gente realmente precisa, com mais valor agregado, mais tecnologia, mais soberania e mais cuidado territorial.

Aqui a produtividade deixa de ser corrida cega.

Ela vira direção.

Produzir energia limpa para alimentar casas, escolas, hospitais, agricultura, servidores e cidades inteligentes.
Produzir alimentos com tecnologia, solo vivo, água protegida e valor local.
Manter centrais de dados e servidores com soberania digital, segurança e energia renovável.
Desenvolver IA pública para saúde, educação, planejamento territorial e transparência.
Reflorestar para gerar carbono, água, clima, renda e pertencimento.
Criar serviços de alto valor para o Brasil e a América Latina.
Transformar excedentes em conhecimento, tecnologia, cuidado, cultura e soberania.

A sexta proposta seria colocar o tempo de vida como valor constitucional.

Art. 6º-B — O Estado reconhecerá o tempo de vida, o descanso, o cuidado familiar, a convivência comunitária, a saúde mental e a fruição cultural como dimensões essenciais do bem-estar do Corpo-Território.

Em linguagem simples: viver bem também é ter tempo para existir.

Tempo para respirar.
Tempo para cuidar dos filhos.
Tempo para olhar o céu.
Tempo para aprender.
Tempo para dormir.
Tempo para visitar a mãe.
Tempo para cozinhar.
Tempo para caminhar no bairro.
Tempo para sentir que a vida pertence ao corpo.

A produtividade de excesso rouba tempo existencial.

E quando rouba tempo, rouba consciência.
Quando rouba consciência, rouba participação.
Quando rouba participação, enfraquece a democracia.
Quando enfraquece a democracia, abre espaço para captura.

Por isso, este texto fala de produtividade e também fala de soberania.

Um povo exausto participa menos.
Um corpo endividado aceita mais humilhação.
Uma família sem moradia vive em sobrevivência.
Um trabalhador sem tempo perde pertencimento.
Uma cidade sem bioma perde futuro.
Um país que mede apenas crescimento pode esquecer a vida.

Jiwasa ajuda a recolocar a vida no centro.

A gente trabalha para viver.
A gente produz para cuidar.
A gente cria tecnologia para liberar tempo.
A gente organiza a economia para fortalecer território.
A gente mede produtividade pelo que aumenta bem-estar, soberania e futuro.

O Brasil tem uma potência enorme. Tem sol, água, vento, floresta, solo, biodiversidade, juventude, criatividade, ciência, agricultores, engenheiros, professores, pesquisadores, artistas, povos originários, trabalhadores e uma latinidade viva capaz de criar soluções para o mundo.

A produtividade vital nasce quando essa potência encontra direção constitucional.

A pergunta deixa de ser apenas: quanto dinheiro circulou?

A pergunta vira:

quanto corpo ficou mais saudável?
quanto território ficou mais forte?
quanta água foi protegida?
quanta energia limpa foi criada?
quanto alimento bom chegou à mesa?
quanto tempo de vida foi devolvido?
quanta floresta ficou de pé?
quanto conhecimento ficou no Brasil?
quanto valor agregado ficou na América Latina?
quanta soberania nasceu no Corpo-Território?

A gente pode melhorar a Constituição para que o trabalho seja mais que sobrevivência e a economia seja mais que extração.

A Constituição Corpo-Território pode afirmar que o crescimento econômico precisa caber dentro da vida.

Produtividade de excesso faz o corpo correr até esquecer por que corre.
Produtividade vital faz o corpo caminhar com sentido, pertencimento e futuro.

Quando trabalhar mais melhora a vida da gente, existe Jiwasa.

Quando produzir mais fortalece o território, existe Jiwasa.

Quando o deslocamento permite encontro digno entre corpos, existe Jiwasa.

Quando colegas de trabalho cooperam com confiança, existe Jiwasa.

Quando a liderança roda, escuta e serve ao grupo, existe Jiwasa.

Quando o tempo volta para o corpo, existe Jiwasa.

Quando a economia protege água, alimento, energia, dados, floresta, saúde, educação e descanso, existe Jiwasa.

A gente pode transformar produtividade em energia vital.

E talvez esta seja uma das mudanças constitucionais mais importantes do nosso tempo: medir o Brasil pela vida que ele consegue sustentar, e também pela vida que ele deixa florescer.

Referências e bases para aprofundamento

Organização Mundial da Saúde — burnout como fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho.

Organização Internacional do Trabalho e Organização Mundial da Saúde — longas jornadas associadas a maior risco de doenças cardiovasculares e AVC.

Agência Brasil e Previdência Social — crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no Brasil.

IBGE — informalidade, trabalho por conta própria, renda, emprego e condições do mercado de trabalho brasileiro.

Bruce McEwen — carga alostática e custo fisiológico do estresse crônico.

Antonio Damasio — corpo, homeostase, sentimento, decisão e consciência.

Amartya Sen e Martha Nussbaum — liberdade como capacidade real de ser e fazer.

Elinor Ostrom — governança de bens comuns e organização coletiva em torno de recursos compartilhados.

Pensamento Corpo-Território e saberes de povos originários — território como vida, cuidado, pertencimento e continuidade.




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Jackson Cionek

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