Jackson Cionek
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Quando a laicidade permite deixar Ser

Quando a laicidade permite deixar Ser

Religião, arte, pertencimento e a flexibilidade de uma consciência que pode transcender-se no encontro

A imagem que ainda não conhecíamos

Imagine que você entra em uma exposição.

Uma pintura chama sua atenção.

Você observa suas cores, formas e movimentos.

Talvez reconheça uma paisagem. Talvez recorde alguém. Talvez experimente uma emoção que não consiga explicar.

Agora imagine outra pessoa contemplando a mesma pintura.

Ela percebe detalhes que você ignorou.

Sente algo diferente.

Ambos estão diante do mesmo objeto.

Mas não vivem necessariamente a mesma experiência.

A pintura é uma. Quantas possibilidades de Ser podem emergir de seu encontro com diferentes Corpos-Territórios?

Agora imagine que você retorne à exposição dez anos depois.

A pintura permanece.

Mas você viveu outras experiências.

Talvez ela desperte sentimentos que antes não estavam disponíveis.

O objeto não precisou mudar para que você pudesse mudar.

Essa experiência nos aproxima de uma pergunta sobre religiosidade:

Aquilo que aprendemos a acreditar permite reconhecer novas possibilidades de Ser ou nos obriga a encontrar sempre a mesma imagem da realidade?

Yãy hã mĩy: aprender a Ser

Nos conhecimentos Tikmũ'ũn/Maxakali, Yãy hã mĩy integra um universo próprio de relações entre seres, experiências e transformações.

Precisamos respeitar esses conhecimentos sem reduzi-los a uma explicação neurocientífica.

Na BrainLatam, desenvolvemos uma interpretação autoral denominada Yãy hã mĩy Estendido.

Imagine uma criança aprendendo uma canção.

Observa.

Imita.

Repete.

Desenvolve habilidades.

Com o tempo, aquilo que exigia atenção torna-se familiar.

A criança já consegue cantar com confiança.

O mesmo acontece quando aprendemos movimentos esportivos, práticas religiosas, instrumentos musicais e maneiras de interpretar acontecimentos.

Nossas experiências participam da formação de hábitos, costumes e crenças.

Essas crenças podem tornar-se ferramentas para o Fazer.

A imitação permite incorporar possibilidades. A transcendência permite transformar aquilo que incorporamos.

A fé pode produzir alta performance

Imagine uma pianista preparando uma apresentação.

Ela praticou determinada composição centenas de vezes.

Conhece os movimentos.

Confia em sua capacidade.

Essa confiança pode favorecer concentração e persistência.

Na BrainLatam, investigamos a fé também como convicção incorporada que sustenta um Fazer.

Não estamos afirmando que toda confiança seja religiosidade.

Estamos perguntando como expectativas, aprendizagem e sentimentos participam da organização de nossas ações.

Em diferentes atividades, sistemas neurobiológicos relacionados à motivação, atenção e recompensa participam da experiência.

Chamamos provocativamente esses recursos de nossas drogas para cada Fazer.

Não existe, entretanto, uma substância exclusiva da fé.

E a intensidade de uma emoção não comprova a verdade de nossa interpretação.

O sentir confirma que experimentamos algo. Não demonstra necessariamente que aquilo em que acreditamos seja verdadeiro.

Quando a fé encontra um ótimo local

Agora imagine que nossa pianista consiga executar sua composição com extraordinária precisão.

Mas alguém propõe uma improvisação.

A música muda.

Surge uma pausa inesperada.

Será que ela consegue abandonar temporariamente a sequência aprendida?

Talvez sua preparação favoreça determinada performance, mas dificulte outra.

Na matemática da otimização, um ótimo local representa uma solução favorecida em determinada região de possibilidades.

Utilizamos essa expressão como metáfora.

Uma crença pode funcionar suficientemente bem para orientar nossas ações durante muitos anos.

Mas não precisa representar todas as possibilidades de existência.

A fé pode conduzir-nos a um ótimo local. A fé cega pode exigir que permaneçamos nele.

A transcendência começa quando conservamos a flexibilidade de reconhecer que outras possibilidades podem existir.

Não precisamos abandonar toda experiência anterior.

Precisamos poder transformá-la.

Quando A encontra um novo objeto

Chamemos de A nossa organização atual de percepção, sentimentos, crenças e possibilidades de ação.

Agora encontramos um objeto.

Uma pintura.

Uma poesia.

Uma música.

Uma arquitetura.

Ou uma pessoa que interpreta o mundo de maneira diferente.

O encontro pode não modificar nada significativo.

Mas também pode apresentar uma experiência inesperada.

Uma memória encontra outro significado.

Uma emoção modifica nossas expectativas.

Uma pergunta revela uma possibilidade ainda não considerada.

Chamemos essa nova organização de B.

B não precisa existir antecipadamente como destino. Pode emergir do encontro entre A e aquilo que A ainda não conhecia.

Na hipótese da Consciência 5D, propomos compreender a consciência como um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.

Em nossa formulação autoral, esse metabolismo inclui movimentos de matéria e energia dentro do perímetro de sensibilidade do Corpo-Território.

Assim, investigamos a transformação de A para B como possível reorganização da experiência consciente diante de condições internas e externas.

Isso não demonstra o nascimento de uma consciência independente.

Deixar de Ser pode significar permitir uma nova maneira de perceber-se Ser.

A arte não exige uma única verdade

Imagine uma música que desperta alegria em você.

Em outra pessoa, a mesma melodia provoca saudade.

Uma poesia pode revelar sentidos diferentes conforme as experiências de quem a lê.

Uma arquitetura pode convidar ao recolhimento, à contemplação ou ao encontro.

A experiência estética não precisa produzir interpretações idênticas.

Podemos compartilhar um objeto sem compartilhar exatamente seus significados.

E podemos conversar.

Talvez alguém revele um detalhe que não havíamos percebido.

Nossa interpretação se transforma.

A experiência do outro torna-se também um novo objeto de encontro.

A arte pode permitir que cada Corpo-Território descubra possibilidades de Ser que não estavam disponíveis antes daquele encontro.

Mas isso não significa que toda experiência artística produza transformações profundas ou permanentes.

Precisamos investigar suas condições, diferenças individuais e consequências.

Espiritualidade e território

Ailton Krenak questiona concepções que separam humanidade e natureza.

Davi Kopenawa, em diálogo com Bruce Albert, apresenta conhecimentos espirituais Yanomami profundamente relacionados à floresta.

Essas experiências possuem histórias e significados próprios.

Não devem ser tratadas como versões incompletas das religiões europeias nem reduzidas à nossa Consciência 5D.

Entretanto, podemos reconhecer uma pergunta compartilhável:

Quantas possibilidades de compreender nossa existência permanecem invisíveis quando apenas uma tradição pode determinar quais experiências são legítimas?

Uma comunidade religiosa pode oferecer aprendizado, acolhimento e pertencimento.

Também pode possuir regras que seus participantes considerem importantes.

A questão surge quando discordar significa perder a liberdade de continuar sendo.

A alostase de pertencer

Imagine que você participa de uma comunidade há muitos anos.

Construiu amizades.

Aprendeu práticas.

Encontrou confiança.

Agora surge uma dúvida.

Você consegue expressá-la?

Talvez encontre acolhimento.

Talvez experimente medo de perder relações importantes.

Essas situações podem envolver diferentes respostas emocionais e fisiológicas.

A alostase descreve processos de regulação que permitem ao organismo responder a demandas variáveis.

Respiração, frequência cardíaca, atenção e outras medidas podem participar de sua investigação.

Mas nenhum sinal fisiológico isolado demonstra liberdade, pertencimento ou coerção.

Precisamos escutar a experiência vivida.

Talvez a possibilidade de discordar transforme não apenas aquilo que pensamos, mas também as condições corporais em que conseguimos participar.

Essa é uma hipótese experimental.

Não uma conclusão universal sobre comunidades religiosas.

A Egrégora precisa permitir o contraditório

No Religare, desenvolvemos a Egrégora como espaço de encontro entre diferentes possibilidades percebidas de Ser.

Durante um sonho, um único Corpo-Território pode produzir experiências envolvendo muitos personagens.

Na vigília, memórias, sentimentos e expectativas também oferecem perspectivas distintas.

A metacognição permite reconhecer e avaliar determinados processos internos.

Agora imagine que apenas uma perspectiva tenha autorização para existir.

As demais precisam permanecer silenciosas.

Podemos falar em liberdade de Ser quando não conseguimos reconsiderar aquilo que aprendemos a acreditar?

A verdade pode estar entre Nós sem pertencer exclusivamente a nenhum de Nós.

Na experiência espiritual de algumas pessoas, Deus pode ser sentido nesse encontro.

Outras pessoas poderão compreendê-lo de maneira diferente ou não acreditar em Deus.

A laicidade protege a convivência entre essas possibilidades sem exigir uma interpretação espiritual comum.

Deixar de Ser para se permitir Ser

Na BrainLatam, propomos uma sequência:

Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser → Pode desobedecer → Deixa ir.

Podemos conhecer uma crença.

Experimentar suas práticas.

Escolher permanecer.

Desenvolver nossas próprias interpretações.

E, posteriormente, discordar ou deixar uma comunidade.

Isso não elimina responsabilidades perante outras pessoas.

Significa reconhecer que pertencimento não deveria converter-se em propriedade sobre a consciência alheia.

A flexibilidade também vale para o encontro com a arte.

Talvez uma pintura apresente um significado hoje.

Outro amanhã.

Talvez uma música permita recordar algo que não conseguíamos reconhecer.

Talvez uma conversa transforme nossa interpretação anterior.

Não precisamos saber antecipadamente quem desejamos Ser. Precisamos conservar a flexibilidade de permitir que os encontros transformem aquilo que conseguimos Ser.

Como investigar essa transformação?

Podemos imaginar um experimento no qual participantes encontram pinturas, músicas e poemas com diferentes possibilidades interpretativas.

Primeiro, registramos suas percepções e sentimentos individualmente.

Depois, permitimos que conversem e apresentem interpretações diferentes.

Em outra condição, precisam seguir uma interpretação previamente determinada.

Investigamos autonomia, pertencimento, flexibilidade interpretativa e mudanças posteriores na avaliação das obras.

EEG, fNIRS, ECG e respiração podem ajudar a caracterizar aspectos das respostas fisiológicas.

Mas não demonstrariam, isoladamente, transcendência ou uma consciência coletiva.

A pergunta seria se encontros livres e recíprocos ampliam o repertório de interpretações e ações posteriormente disponíveis a cada participante.

Quando a laicidade permite continuar Ser

Voltemos à pintura.

Ela permanece diante de nós.

Você encontrou um significado.

Eu encontrei outro.

Podemos conversar.

Talvez nossas experiências se transformem.

Talvez continuemos discordando.

Nenhuma dessas possibilidades exige que alguém abandone sua dignidade.

O mesmo princípio pode orientar nossa investigação do Estado-Jiwasa.

Um Estado laico não precisa retirar Deus da experiência de quem crê.

Precisa proteger a liberdade de consciência de todos, incluindo quem interpreta a espiritualidade de outra maneira ou não possui crenças religiosas.

A fé pode ensinar-nos a reconhecer uma imagem. A arte pode revelar outras. E a transcendência pode começar quando conservamos a flexibilidade de não permanecer presos à primeira imagem que aprendemos a chamar de verdade.

A liberdade não exige que deixemos definitivamente de Ser A.

Permite que A encontre B.

Que B encontre C.

E que cada Corpo-Território continue participando da construção de suas próprias possibilidades.

Nossa pergunta permanece aberta:

Como a possibilidade de crer, discordar, encontrar novas experiências ou deixar uma comunidade modifica o pertencimento, a regulação fisiológica e a flexibilidade com que permitimos emergir novas maneiras de Ser?


Referências comentadas

Espaço do Conhecimento UFMG (2019–2023). Mundos Indígenas.

Exposição desenvolvida com curadorias indígenas, incluindo representantes Tikmũ'ũn/Maxakali. Apresenta Yãy hã mĩy em seu contexto cultural próprio, distinguindo-o das interpretações estendidas da BrainLatam.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2025). Yãy hã mĩy — Imitar-se Ser para Transcender-se Ser.

Desenvolve a interpretação autoral sobre imitação, aprendizagem, confiança, hábitos e transcendência das possibilidades anteriormente incorporadas.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Yãy hã mĩy (Maxakali): Imitar, Crer e Repetir — Quando a Fé Liberta ou Aprisiona.

Examina a passagem da aprendizagem à crença e à fé, destacando a bifurcação entre desenvolvimento de capacidades e repetição inflexível.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2024). Fé é o Quadro que Sufoca sua Imagem.

Apresenta a fé como possível recurso de alta performance e discute a necessidade de flexibilidade para transformar crenças, hábitos e interpretações.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). O contexto entrou no cérebro — ou nunca esteve fora dele?.

Desenvolve a hipótese de que o encontro com o objeto participa da transformação do sujeito, que poderá viver diferentemente seus encontros posteriores.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Quando nos reunimos — liberdade, alostase e o “um entre nós”.

Relaciona encontros coletivos, arte, ritual, liberdade e pertencimento, respeitando a diferença entre coordenação fisiológica e experiência compartilhada.

Krenak, Ailton (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras.

Questiona a separação entre humanidade e natureza e amplia a compreensão das relações entre existência, pertencimento e território.

Kopenawa, Davi; Albert, Bruce (2015). A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. Companhia das Letras.

Apresenta conhecimentos espirituais Yanomami e reflexões sobre floresta, ancestralidade, relações entre seres e consequências do colonialismo.

Chatterjee, Anjan; Vartanian, Oshin (2014). Neuroaesthetics. Trends in Cognitive Sciences, 18(7), 370–375.

Revisão sobre processos perceptivos, emocionais e de avaliação envolvidos nas experiências estéticas. Oferece bases para investigar como objetos artísticos participam da construção de significados.

Vessel, Edward A.; Starr, G. Gabrielle; Rubin, Nava (2012). The brain on art: Intense aesthetic experience activates the default mode network. Frontiers in Human Neuroscience, 6, 66.

Investiga diferenças individuais em respostas a pinturas e relaciona experiências estéticas intensas à atividade de redes cerebrais associadas ao processamento autorreferencial.

Janata, Petr (2009). The neural architecture of music-evoked autobiographical memories. Cerebral Cortex, 19(11), 2579–2594.

Investiga as relações entre música, memórias autobiográficas e atividade cerebral, oferecendo fundamentos para compreender como uma melodia pode encontrar diferentes histórias pessoais.

McEwen, Bruce S.; Wingfield, John C. (2003). The concept of allostasis in biology and biomedicine. Hormones and Behavior, 43(1), 2–15.

Fundamenta o conceito de alostase como regulação fisiológica diante de demandas ambientais variáveis.

De Jaegher, Hanne; Di Paolo, Ezequiel (2007). Participatory sense-making: An enactive approach to social cognition. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 6, 485–507.

Apresenta a produção participativa de sentido, relevante para investigar como diferentes interpretações de uma obra podem transformar-se durante o encontro entre pessoas.

Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Artigos 5º e 19.

Estabelece garantias de liberdade de consciência e crença e os limites constitucionais às relações entre Estado e instituições religiosas.

Cionek, Jackson. Religare — Religiosidade Plena em um Estado Democrático, Laico e de Direito.

Obra filosófica autoral que desenvolve os conceitos de Egrégora, CRIAturas e liberdade de Ser, em diálogo com a multiplicidade experiencial e a convivência democrática.

A base autoral sobre o encontro com o objeto, a fé como ferramenta do Fazer e o Yãy hã mĩy Estendido foi conferida nos textos da BrainLatam; a origem Tikmũ'ũn/Maxakali foi contextualizada com a exposição da UFMG.

Nota científica: O texto diferencia evidências sobre experiência estética, memória, aprendizagem e alostase da hipótese autoral da Consciência 5D. A passagem de A para B descreve uma possível transformação da experiência e do repertório do Corpo-Território, não a comprovação de uma consciência independente ou de que qualquer encontro artístico produza necessariamente uma mudança duradoura.


BrainLatam | W44/2026 Consciência 5D -  Yãy hã mĩy Estendido -  Arte - Religiosidade - Alostase - Estado-Jiwasa






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States