Jackson Cionek
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Respiração e Corpo-Território - o ritmo que acompanha a mudança

Respiração e Corpo-Território - o ritmo que acompanha a mudança

Imagine que estamos caminhando nos Andes.

No começo da subida, ainda conversamos sem pensar na respiração. Depois a inclinação aumenta. O passo encurta. Uma frase precisa esperar a próxima expiração. O coração acelera. Em algum momento, continuar subindo exige algo que parece contraditório: diminuir a velocidade.

Não porque o caminho terminou.

Porque o território mudou aquilo que precisamos fazer para continuar nele.

Talvez essa seja uma das formas mais simples de sentir o que chamamos, na extensão BrainLatam, de APUS. Não apenas “onde estou?”, mas:

como preciso me modificar porque estou aqui?

Em comunidades quechua-falantes dos Andes peruanos, montanhas podem ser reconhecidas como Apus e participar de relações de proteção, água, cultivo, peregrinação e oferenda. Um estudo etnográfico recente sobre o Apu Razuhuillca descreve peregrinações a pé e relações rituais em que o cerro não aparece apenas como paisagem passiva. Não precisamos transformar essa cosmologia em fisiologia. Podemos, porém, permitir que ela preserve uma pergunta que a fisiologia também encontra:

atravessamos um território sem que ele nos atravesse? (SciELO)

Quanto mais subimos, menor é a pressão barométrica e menor a pressão parcial de oxigênio ao longo da cadeia que leva O₂ do ar aos tecidos. Em pessoas recém-chegadas à altitude, isso desencadeia mudanças na ventilação, nas trocas gasosas, na circulação e, com o tempo, na aclimatação. A montanha não é apenas algo que vemos; ela altera concretamente aquilo que o organismo precisa fazer para permanecer funcional. (PubMed)

Na extensão BrainLatam, APUS pode então ser pensado como a dimensão relacional pela qual o Corpo-Território se posiciona e ajusta sua ação ao território que encontra.

A inclinação modifica a marcha.
A altitude modifica a ventilação.
O frio modifica comportamento.
O cansaço modifica decisão.

APUS é: preciso mudar para estar aqui.

Mas essa mudança também é sentida. A respiração ocupa a atenção. As pernas pesam. O coração parece mais presente. Surge calor, talvez depois frio. A necessidade de diminuir o ritmo deixa de ser uma informação abstrata e ganha qualidade.

É nesse recorte que Tekoha nos ajuda:

como essa relação com o território está sendo sentida e metabolizada pelo organismo?

A interocepção respiratória não depende de um único “sensor de respiração”. Revisões recentes descrevem múltiplas aferências somáticas e viscerais, além do comando motor respiratório, convergindo em redes relacionadas tanto à discriminação quanto à dimensão afetiva do respirar. Quando sentimos “preciso parar”, não estamos lendo uma tela escondida de O₂ ou CO₂. Estamos sentindo uma configuração corporal integrada. (PubMed)

Samay: respirar, repousar e continuar

E então chegamos a uma palavra que pode aprofundar a caminhada: Samay.

Em registros lexicais do quéchua, samay aparece ligado a respiração, alento, descanso e repouso. Há variações entre regiões e variedades da língua, por isso não devemos transformá-la numa definição única para todo o mundo quechua. Ainda assim, essa proximidade entre respirar e repousar é linguisticamente documentada. (Illaa)

Samay não significa CO₂.

E não devemos transformar a palavra ancestral numa teoria bioquímica que ela nunca pretendeu formular.

Mas ela pode nos fazer perceber algo que a imagem mecânica “entra ar, sai ar” deixa escapar:

respirar também contém transições.

Inspiramos.

Expiramos.

E entre uma expiração e a inspiração seguinte pode existir uma pausa espontânea.

Essa pausa não é um vazio fisiológico. Mesmo quando o fluxo de ar cessa por alguns instantes, o metabolismo continua, o CO₂ continua sendo produzido e as relações entre CO₂, pH e controle ventilatório continuam mudando. A ventilação é regulada de maneira especialmente estreita em torno da PaCO₂; alterações do CO₂ e do pH associado são detectadas por sistemas quimiorreceptores que participam do controle respiratório. (ScienceDirect)

Por isso, talvez Samay — respirar e repousar — nos permita formular uma pergunta contemporânea sem colonizar seu significado:

Será que aprendemos a respirar imaginando que sempre precisamos acrescentar mais ar, quando um organismo saudável precisa, na verdade, ajustar ritmo, volume e pausa às demandas do metabolismo e do território?

Na montanha, essa questão deixa de ser abstrata.

O esforço muscular aumenta a produção metabólica de CO₂. Ao mesmo tempo, a menor disponibilidade de O₂ em altitude aumenta o estímulo ventilatório. Ventilar mais ajuda a responder à hipóxia, mas também reduz a PaCO₂ e eleva o pH, produzindo alcalose respiratória. Com a aclimatação, os rins aumentam a compensação ácido-base, inclusive por alterações na manipulação de bicarbonato. (Frontiers)

Portanto, a regulação não procura maximizar uma única variável.

Ela precisa negociar relações.

Isso também impede uma conclusão inadequada: Samay não deve ser transformado em prescrição para prender a respiração em altitude. A resposta ventilatória à hipóxia é parte importante da adaptação aguda.

O ponto não é:

respirar menos.

É reconhecer que respirar adequadamente depende da condição real daquele Corpo-Território.

Talvez, então, a pausa durante a caminhada não seja o oposto do caminho.

Ela pode ser a condição do próximo passo.

Samay: respirar, repousar e encontrar novamente a configuração a partir da qual continuar se torna possível.

Cada respiração também encontra outra dinâmica cerebral

Mas a respiração não reorganiza apenas gases e pH.

Ela também se relaciona com a dinâmica cerebral.

Na lista EEG que orienta W40/2026 aparece o trabalho de Daniel Kluger e colaboradores, publicado em 2023. Os pesquisadores registraram respiração simultaneamente com MEG e EEG e separaram a atividade espectral em componentes periódicos — oscilações identificáveis — e aperiódicos, o fundo aproximadamente 1/f sobre o qual essas oscilações aparecem.

Ambos apresentaram modulação relacionada à fase respiratória, mas com temporalidades diferentes. (Nature)

Isso é importante porque impede uma imagem simplista:

pulmão produz ritmo → cérebro copia ritmo.

A respiração relaciona-se com diferentes dimensões da atividade neural, e essas dimensões não precisam mudar juntas.

O próximo estímulo não encontra necessariamente o mesmo Corpo-Território daquele que chegou alguns segundos antes.

Respirar também participa de quando percebemos

Em 2026, Chalas, Kluger e colaboradores avançaram nessa direção.

Participantes precisavam detectar estímulos visuais próximos ao limiar perceptivo enquanto MEG, pupila e respiração eram registrados. A sensibilidade visual variou com a fase respiratória. Quando a temporalidade do estímulo era previsível, os participantes também adaptaram espontaneamente seus padrões respiratórios, e maior alinhamento esteve associado a melhor desempenho. O estudo também encontrou modulação respiratória de oscilações e de fluxos funcionais numa rede associada à integração interoceptiva e sensorial. (Nature)

O experimento não aconteceu numa montanha.

Portanto, não devemos afirmar que determinada inspiração fará alguém enxergar melhor uma pedra na trilha.

Mas podemos perguntar:

respiração, percepção e ação conseguem ser temporalmente coordenadas?

Imagine isso novamente na subida.

Você procura onde colocar o pé.

Avalia a inclinação.

Sente o esforço.

Modifica o ritmo.

Respira.

Olha novamente.

Dá o próximo passo.

Não há uma linha simples em que o território termina e o corpo começa.

O mesmo caminho não encontra o mesmo Corpo-Território

O conceito latino-americano de cuerpo-territorio, desenvolvido em diálogo com feminismos indígenas e comunitários, já insiste que vida corporal, terra, animais, plantas e relações territoriais não podem ser compreendidos como realidades totalmente independentes. BrainLatam não precisa afirmar que esses conhecimentos “já conheciam respiration-brain coupling”. Isso seria anacrônico.

Podemos dizer algo mais respeitoso:

eles preservam uma pergunta relacional que nossas medições contemporâneas também tornam impossível ignorar. (Revista ANPHLAC)

Nem todos, porém, encontram fisiologicamente a mesma montanha.

Uma revisão publicada em 2025 comparando populações andinas, tibetanas e etíopes mostra que não existe uma única adaptação humana à hipóxia crônica. Aymara e Quechua apresentam configurações ventilatórias, circulatórias e hematológicas diferentes das encontradas em outras populações de altitude — e também diferentes da aclimatação de quem acaba de chegar. (PubMed)

O território pode ser geograficamente o mesmo.

O Corpo-Território que o encontra possui outra história.

Isso torna APUS ainda mais relacional.

E torna Tekoha mais do que “o interior”: é como essa história está participando do sentir presente.

Um acontecimento, três aspectos

O Monismo de Triplo Aspecto de Alfredo Pereira Jr. ajuda a evitar que essa integração termine separando um corpo físico de uma consciência que o observa de fora.

No MTA, a materialidade do corpo vivo, os padrões dinâmicos de informação e a sentiência são aspectos fundamentais e conjuntamente necessários da experiência consciente. (ANPOF)

Na subida, a disponibilidade de O₂, a produção de CO₂, o pH, a circulação e a contração muscular pertencem à materialidade do acontecimento.

Os padrões respiratórios, neurais e sensoriais carregam relações informacionais.

A falta de ar, o esforço, o alívio da pausa e a presença da montanha pertencem ao sentir.

Não são três mundos.

É um único Corpo-Território acontecendo.

Talvez possamos então definir “respirar o território” sem deixá-lo como metáfora vaga:

Respirar o território é permitir que as condições do lugar participem materialmente da configuração do organismo, enquanto essa configuração modifica a maneira como percebemos, sentimos e agimos naquele mesmo lugar.

A montanha exige.

O organismo ajusta.

O ajuste é sentido.

O sentir modifica a ação.

A ação nos coloca alguns metros adiante.

E tudo recomeça.

Talvez Samay nos ajude justamente a perceber aquilo que quase nunca aparece quando descrevemos a respiração apenas como frequência por minuto.

Existe inspiração.

Existe expiração.

Existe transição.

Existe pausa.

Existe a possibilidade de mudar o ritmo antes de tentar preservar a velocidade.

Na montanha, descansar pode ser uma forma de continuar.

Talvez homeostase também seja isso.

Não permanecer igual apesar do território.

Mudar o suficiente para continuar existindo nele.

E, entre um passo e outro, o Corpo-Território respira.

Referências comentadas

Kluger, D. S., Forster, C., Abbasi, O., Chalas, N., Villringer, A., & Gross, J. (2023). Modulatory dynamics of periodic and aperiodic activity in respiration-brain coupling. Nature Communications, 14, 4699. DOI: 10.1038/s41467-023-40250-9.
O que esta referência representa: é a principal sustentação neurofisiológica do blog. Mostra que tanto componentes periódicos quanto aperiódicos da atividade cerebral variam sistematicamente com a respiração, mas em temporalidades diferentes. Respiração-cérebro não é um único oscilador comandando outro. (Nature)

Chalas, N., Saltafossi, M., Berther, T., et al. (2026). Respiration as a dynamic modulator of sensory sampling. Nature Communications, 17, 3261. DOI: 10.1038/s41467-026-71604-8.
O que esta referência representa: demonstra que fase respiratória, excitabilidade, arousal, dinâmica de redes e sensibilidade perceptiva podem se organizar conjuntamente. A respiração pode participar de quando e em qual configuração corporal determinada informação é amostrada. (Nature)

Chan, P.-Y. S., Lee, L.-Y., & Davenport, P. W. (2024). Neural mechanisms of respiratory interoception. Autonomic Neuroscience, 253, 103181. DOI: 10.1016/j.autneu.2024.103181.
O que esta referência representa: descreve a interocepção respiratória como integração de diferentes aferências somáticas, viscerais e motoras. Sentir a respiração não é sentir uma variável isolada; é sentir uma configuração do organismo. (PubMed)

Lyons, C., & Kevin, L. G. (2024). Respiration: control of ventilation. Anaesthesia & Intensive Care Medicine, 25(2), 112–116. DOI: 10.1016/j.mpaic.2023.10.010.
O que esta referência representa: fundamenta a relação entre ventilação, PaCO₂, pH e quimiorrecepção. Permite compreender por que uma pausa espontânea continua fisiologicamente ativa mesmo quando momentaneamente não há fluxo de ar. (ScienceDirect)

Berger, M. M., & Luks, A. M. (2023). High Altitude. Seminars in Respiratory and Critical Care Medicine, 44(5), 681–695. DOI: 10.1055/s-0043-1770063.
O que esta referência representa: sintetiza os ajustes produzidos pela queda da pressão barométrica e da disponibilidade de O₂, incluindo ventilação, trocas gasosas, circulação e aclimatação. A montanha modifica concretamente as condições necessárias para caminhar e permanecer funcional. (PubMed)

Getu, A. A., Ilardo, M., Tremblay, J. C., et al. (2025). Human adaptation to high-altitude: A contemporary comparison of the oxygen cascade in Andean, Tibetan and Ethiopian highlanders. Experimental Physiology.
O que esta referência representa: compara respostas adaptativas de Aymara, Quechua, tibetanos, Sherpa e populações etíopes. Mostra que não existe uma única maneira humana de habitar fisiologicamente a altitude: o Corpo-Território também possui história. (PubMed)

Gutiérrez-Gómez, E., Auccatoma-Tinco, R., Quispe-Oncebay, S., & Olarte-Dávalos, K. T. (2024). La dimensión política en la preservación de lo sagrado en los rituales andinos. Cuestiones Políticas, 42(81), 126–143.
O que esta referência representa: estudo etnográfico contemporâneo sobre o Apu Razuhuillca e as relações rituais, territoriais e comunitárias associadas à montanha. Permite preservar APUS em sua genealogia relacional andina sem transformá-lo em mecanismo neurocientífico. (SciELO)

D’Arcangelis, C. L., & Quiroga, L. (2023). Cuerpo-Territorio: Towards Feminist Solidarities in the Americas. Revista Eletrônica da ANPHLAC, 23(35), 150–174. DOI: 10.46752/anphlac.35.2023.4140.
O que esta referência representa: situa cuerpo-territorio em genealogias de feminismos indígenas e comunitários nas Américas, enfatizando as relações entre corpo, terra e outros seres. Corpo-Território possui uma genealogia latino-americana anterior à nossa aproximação com EEG e fisiologia. (Revista ANPHLAC)

Academia Mayor de la Lengua Quechua. Diccionario Quechua–Español–Quechua / Simi Taqe. Fonte lexicográfica.
O que esta referência representa: registra samay no campo de “alento, respiración, resuello” e também “descansar, reposar”. É uma exceção à preferência pós-2021, mantida porque a afirmação aqui é especificamente linguística. A fonte sustenta a proximidade semântica entre respirar e repousar; não sustenta uma teoria quechua sobre CO₂, pH ou fisiologia respiratória. (Illaa)

Pereira Jr., A. (2023). Introdução à Metafísica do Monismo de Triplo Aspecto. ANPOF.
O que esta referência representa: fornece a base ontológica para compreender materialidade do corpo vivo, padrões dinâmicos de informação e sentiência como aspectos conjuntamente necessários da experiência consciente. Respirar, perceber a montanha e sentir o esforço pertencem ao mesmo acontecimento vivo, e não a mundos separados. (ANPOF)


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Jackson Cionek

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