Tekoha: Interocepção, pH e Microbiota
Tekoha: Interocepção, pH e Microbiota
Série: Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais
Introdução — Brain Bee (consciência em primeira pessoa)
Antes de qualquer pensamento, algo em mim já sabe.
Às vezes é um aperto discreto no abdômen.
Às vezes é um cansaço que não consigo explicar.
Outras vezes é uma fome estranha, que não parece apenas falta de comida.
Nada disso vem como frase.
Nada disso pede autorização à mente.
É o meu corpo falando por dentro.
Enquanto tento entender, ele já está regulando, ajustando, compensando.
O sentir vem antes do saber.
Tekoha: o território interno do corpo
O Tekoha pode ser compreendido como o território da interocepção estendida:
o conjunto de sinais internos que informam ao corpo como ele está vivendo.
Esse território inclui:
vísceras,
circulação,
respiração interna,
pH local,
atividade imunometabólica,
comunidades bacterianas.
O Tekoha não pensa.
Ele sinaliza.
Tensões viscerais são parte da vida
É comum associar tensão visceral a algo errado.
Mas, biologicamente, isso não faz sentido.
O corpo saudável:
contrai vísceras para digerir,
ajusta circulação conforme demanda,
altera secreções,
muda ritmos internos conforme o contexto.
Essas tensões são funcionais.
Elas só se tornam problema quando:
não podem variar,
não encontram expressão,
permanecem fixas por tempo prolongado.
Interocepção: o corpo sabe antes da mente
A interocepção é a capacidade de perceber estados internos:
fome,
saciedade,
dor difusa,
necessidade de descanso,
desconforto sem nome.
Esses sinais:
não são emocionais no sentido psicológico,
não são pensamentos,
são informação fisiológica bruta.
Quando a mente tenta interpretar rápido demais, muitas vezes atrapalha.
O corpo apenas pede condições.
pH local: o detalhe que organiza o sistema
Cada região do corpo opera dentro de faixas específicas de pH.
Mudanças pequenas — mas sustentadas — alteram:
atividade enzimática,
contração muscular,
resposta inflamatória,
comunicação celular.
Tensões viscerais prolongadas:
mudam perfusão,
alteram oxigenação,
deslocam o pH local.
Isso não é doença imediata.
É adaptação em curso.
Microbiota: comunidades que sentem o corpo
As comunidades bacterianas do intestino não são passageiras.
Elas respondem a:
pH,
disponibilidade de nutrientes,
ritmo intestinal,
estado autonômico.
Mudanças respiratórias e tensionais:
alteram CO₂,
influenciam circulação esplâncnica,
modulam o ambiente químico intestinal.
A microbiota se ajusta.
Ela também aprende o território.
Tekoha e Eus tensionais
Cada Eu Tensional mantém um estado visceral compatível.
Um eu de alerta:
tende a reduzir digestão,
alterar fluxo intestinal,
modificar pH.
Um eu de fruição:
amplia circulação,
favorece digestão,
estabiliza comunidades bacterianas.
O corpo não escolhe esses estados por ideologia.
Ele responde ao modo de viver.
Quando o corpo não pode sinalizar
Em contextos onde:
sentir é desautorizado,
pausas são proibidas,
fome, cansaço ou dor são ignorados,
o Tekoha perde espaço de expressão.
O corpo então:
mantém tensões viscerais,
reorganiza pH de forma defensiva,
ajusta microbiota para sobreviver ao contexto.
Isso não é falha.
É inteligência adaptativa.
Respiração como moduladora do Tekoha
A respiração não atua apenas nos pulmões.
Ela influencia:
pressão abdominal,
retorno venoso,
perfusão visceral,
equilíbrio ácido-base.
Respirações contidas:
reduzem mobilidade visceral,
alteram sinalização interoceptiva.
Respirações que recuperam variação:
devolvem circulação,
ampliam sinalização,
permitem reorganização.
Mais uma vez, não é técnica.
É espaço fisiológico.
Reconhecendo o Tekoha no cotidiano
Sem análise excessiva.
Observe:
Meu corpo pede algo antes de eu pensar?
Há desconfortos que surgem sem motivo claro?
Minha digestão muda conforme meu modo de viver?
Minha respiração chega ao abdômen ou fica contida?
Essas respostas são sinais do Tekoha tentando se comunicar.
Fechamento
O corpo não fala em palavras.
Ele fala em condições.
Tensões viscerais, mudanças de pH e reorganização da microbiota não são desvios.
São estratégias de sobrevivência quando o sentir não encontra espaço.
Compreender o Tekoha é aprender a escutar o que o corpo já sabe —
antes que a mente tente explicar.
Este texto faz parte da série Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais, onde diferentes aspectos do mesmo sistema vivo são abordados por ângulos complementares.
Referências (pós-2020)
Khalsa, S. S., et al. (2021). Interoception and Mental Health: A Roadmap. Biological Psychiatry.
→ Fundamenta a interocepção como base fisiológica da percepção corporal e da regulação.
Berntson, G. G., & Khalsa, S. S. (2021). Neural Circuits of Interoception. Trends in Cognitive Sciences.
→ Descreve os circuitos neurais que conectam vísceras, cérebro e consciência corporal.
Furness, J. B., et al. (2020). The Enteric Nervous System and Gut–Brain Communication. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology.
→ Explica a autonomia funcional do sistema entérico e sua comunicação com o corpo inteiro.
Dalile, B., et al. (2021). The Role of Short-Chain Fatty Acids in Microbiota–Gut–Brain Axis. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology.
→ Relaciona microbiota, metabolismo e sinalização corporal.
Breit, S., Kupferberg, A., Rogler, G., & Hasler, G. (2018/atualizações pós-2020). Vagus Nerve as Modulator of the Gut–Brain Axis. Frontiers in Psychiatry.
→ Demonstra como o nervo vago integra interocepção, digestão e estado autonômico.
Quigley, E. M. M. (2020). Microbiota–Gut–Brain Axis and Stress. Gastroenterology Clinics.
→ Mostra como estresse e tensão alteram pH, microbiota e função intestinal.
Critchley, H. D., & Garfinkel, S. N. (2021). Interoception and Emotion. Current Opinion in Psychology.
→ Relaciona interocepção a estados corporais prévios à emoção consciente.
Zhang, D., et al. (2022). pH Regulation and Cellular Metabolism in Health and Disease. Frontiers in Physiology.
→ Discute como variações locais de pH organizam metabolismo e função celular.