Jackson Cionek
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Território - O ambiente não é cenário - Do homem de barro ao homem de milho

Território - O ambiente não é cenário - Do homem de barro ao homem de milho

Antes de perguntarmos como o cérebro representa o ambiente, talvez seja útil começar com uma pergunta muito mais antiga:

do que somos feitos?

No Popol Wuj, texto fundamental da tradição K’iche’ maia, a criação humana passa por tentativas diferentes. Primeiro aparecem seres de barro. Depois, seres de madeira. Por fim, homens de milho.

Uma leitura fenomenológico-hermenêutica latino-americana publicada por Lucero González Suárez em 2023 retoma justamente essa sequência e mostra como as limitações do barro e da madeira antecedem a constituição bem-sucedida dos homens de milho.

A BrainLatam não pretende transformar o Popol Wuj em neurociência.

Queremos fazer o movimento inverso:

será que nossas categorias científicas atuais conseguem escutar perguntas que uma cosmogonia latino-americana já colocava sobre corpo, território e Ser?

Barro - quando imaginamos que podemos existir separados do território

Em nossa leitura contemporânea, o homem de barro pode funcionar como uma primeira analogia.

Não porque o Popol Wuj tenha dito que barro significa interioridade, mas porque essa imagem nos permite pensar uma humanidade que procura sua verdade exclusivamente dentro de si ou em uma existência separada da natureza que a sustenta.

Diversas tradições religiosas possuem concepções de transcendência e vida depois da morte. Elas são diferentes entre si e não devem ser reduzidas a uma única interpretação.

O problema começa quando qualquer narrativa passa a sugerir que não pertencemos verdadeiramente à natureza.

O planeta torna-se passagem.

O corpo, recipiente provisório.

A natureza, cenário ou recurso para uma existência considerada mais importante em outro lugar.

Na metáfora BrainLatam, seria algo parecido com:

Tekoha sem APUS.

Muito dentro.

Pouco reencontro com aquilo que torna esse dentro possível.

Mas respiramos ar.

Bebemos água.

Comemos território.

Dependemos de organismos que não somos nós.

O Corpo-Território não consegue permanecer vivo olhando apenas para dentro.

Madeira - quando a narrativa funciona mesmo depois de perder o território

Os seres de madeira do Popol Wuj conseguem mover-se e multiplicar-se, mas não alcançam aquilo que a narrativa espera do humano.

Aqui podemos construir nossa segunda analogia.

O homem de madeira contemporâneo funciona.

Produz.

Repete.

Executa.

Acumula.

E pode falar muito bem.

Talvez justamente aí esteja seu perigo.

Uma narrativa não precisa permanecer ligada ao território para continuar funcionando socialmente.

Ela pode mobilizar religião.

Mercado.

Revolução.

Pátria.

Progresso.

Ciência.

Tradição.

Liberdade.

Justiça.

Todas essas palavras podem expressar valores legítimos.

Mas nenhuma delas garante, por si mesma, que aquilo que estamos dizendo continue relacionado com aquilo que está acontecendo.

O problema não pertence exclusivamente ao capitalismo, ao socialismo, ao comunismo ou a qualquer outro sistema.

Ele aparece sempre que:

a narrativa se torna mais importante que o território ao qual deveria responder.

Floresta vira somente madeira.

Pessoa vira mão de obra.

Atenção vira métrica.

Dados viram ativo.

Rio vira megawatt.

Educação vira indicador.

Talvez o homem de madeira seja justamente aquele capaz de continuar executando o protocolo mesmo quando já não consegue perceber aquilo que o protocolo está produzindo.

Milho - aquilo que estava fora torna-se aquilo de que somos feitos

Então chegamos ao milho.

Na narrativa K’iche’, milho amarelo e branco participa da constituição dos humanos bem-sucedidos.

Aqui aparece talvez a imagem mais potente para Corpo-Território:

aquilo que estava fora torna-se aquilo de que somos feitos.

O milho estava no território.

Precisou crescer.

Dependeu de água.

Solo.

Luz.

Outras formas de vida.

Foi encontrado.

Cultivado.

Colhido.

Preparado.

Comido.

Metabolizado.

Tornou-se músculo, energia e movimento.

E o corpo voltou a agir sobre o território.

Território → alimento → metabolismo → Corpo → movimento → território.

A fronteira entre dentro e fora permanece funcionalmente útil.

Mas deixa de parecer absoluta.

Talvez sejamos “de milho” precisamente nesse sentido analógico:

somos continuamente constituídos pelas relações que conseguimos manter com aquilo que não somos.

O metrô muda quando mudamos a luz - e nós também

Uma publicação de 2026 de Wei e colaboradores oferece uma entrada experimental particularmente interessante para essa discussão.

Os pesquisadores construíram nove ambientes virtuais de uma estação de metrô, combinando três níveis de iluminância — 300, 500 e 750 lux — com diferentes configurações de iluminação e cor.

Vinte e um participantes atravessaram essas condições em realidade virtual enquanto os pesquisadores registravam simultaneamente avaliações subjetivas da experiência e atividade hemodinâmica pré-frontal por fNIRS.

A pergunta não era apenas estética.

O objetivo era investigar como diferentes combinações de luz e cor em um ambiente de transporte subterrâneo poderiam alterar simultaneamente a experiência relatada e medidas relacionadas à atividade cortical.

Isso importa porque, experimentalmente, o metrô deixou de ser apenas o “local onde o experimento acontece”.

A configuração do próprio ambiente tornou-se a variável experimental.

Entre as condições investigadas, uma iluminação intermediária de aproximadamente 500 lux, combinada a uma configuração azulada em torno de 4300 K, esteve associada a avaliações mais restaurativas e a diferenças na conectividade funcional pré-frontal.

Já a condição mais intensa, de 750 lux, esteve associada a maior alerta subjetivo e maior ativação pré-frontal, mas não necessariamente à maior sensação de restauração.

Isso nos obriga a fazer uma distinção importante.

Mais ativação não significa automaticamente melhor ambiente.

Mais alerta não significa necessariamente maior bem-estar.

E a mesma pessoa pode apresentar respostas diferentes quando apenas modificamos propriedades do espaço no qual ela está inserida.

Não podemos concluir que determinada iluminação “produz” uma experiência universal.

A amostra é limitada, a realidade virtual continua sendo um recorte experimental e o fNIRS observa apenas parte da dinâmica cerebral.

Mas o estudo demonstra algo metodologicamente importante:

mudar o ambiente pode mudar simultaneamente aquilo que a pessoa relata e aquilo que conseguimos observar em sua fisiologia.

A luz não é simplesmente cenário.

Ela participa das condições do encontro.

A mesma luz nunca encontra apenas os olhos

Quando alguém entra naquele metrô virtual, a luz não encontra somente a retina.

Encontra um Corpo-Território que também está:

respirando;

mantendo equilíbrio;

ocupando determinada postura;

sentindo o próprio coração;

estimando distâncias;

orientando possibilidades de movimento;

carregando memórias e expectativas.

Por isso podemos pensar:

luz + espaço + posição + organismo + história → encontro perceptivo.

E mesmo essa fórmula permanece incompleta.

Pesquisas latino-americanas recentes em Psicologia Ambiental vêm mostrando justamente que pessoa e ambiente precisam ser estudados em relação, e não como entidades completamente separadas.

APUS e Tekoha — fora e dentro em movimento

Na linguagem BrainLatam, utilizamos APUS como uma janela conceitual para observar a sincronização com aquilo que acontece fora:

onde estou?

o que se move?

qual é a distância?

onde posso pisar?

o que posso alcançar?

que movimentos estão disponíveis?

E utilizamos Tekoha como uma janela para aquilo que acontece dentro:

como respiro?

como pulsa meu coração?

estou tenso?

com fome?

com medo?

com dor?

qual é meu estado metabólico?

Não os apresentamos como simples traduções indígenas de categorias neurocientíficas ocidentais.

São extensões conceituais BrainLatam.

E, principalmente:

APUS e Tekoha não funcionam separadamente.

Uma mudança de luz altera orientação.

A orientação modifica postura.

A postura modifica respiração.

A mudança respiratória altera novamente a maneira como o espaço é encontrado.

APUS ⇄ Tekoha ⇄ APUS ⇄ Tekoha...

É um protocolo vivo.

Homem, cavalo e território

O hipismo torna essa dinâmica quase visível.

Não existe simplesmente:

cavaleiro → comando → cavalo.

Cavaleiro e cavalo precisam ajustar continuamente movimentos um ao outro e ao território.

O homem percebe ritmo, velocidade, distância, inclinação e obstáculo.

Ao mesmo tempo, respira, sente tensão, medo, confiança e fadiga.

O cavalo também possui suas próprias dinâmicas internas e externas.

E o terreno transforma ambos.

Areia não é grama.

Um declive não é uma subida.

O cavaleiro muda o cavalo.

O cavalo modifica o cavaleiro.

O território modifica a relação.

Então:

Homem ⇄ Cavalo ⇄ Território.

A relação não acontece sobre o ambiente.

O ambiente participa da relação.

O protocolo muda porque quem percebe mudou

Um cavaleiro iniciante aproxima-se de determinado obstáculo.

Anos depois, encontra algo fisicamente semelhante.

Mas já não encontra a mesma coisa.

Agora consegue perceber ritmo, distância de chamada, posição do cavalo, qualidade do terreno e tempo de ajuste.

O estímulo pode ser parecido.

Quem o encontra mudou.

Essa é uma forma de pensar transcendência sem abandonar o Corpo-Território.

Transcender pode significar voltar a encontrar algo aparentemente igual sendo capaz de perceber nele diferenças que nosso estado anterior ainda não conseguia perceber.

O protocolo não apenas executa.

Ele aprende.

Religião, Ciência e Política podem ser mais simples

Talvez possamos aplicar a mesma lógica a palavras que parecem distantes dos jovens.

Na analogia BrainLatam:

Religião imagina o amanhã.

Ciência faz e observa aquilo que acontece.

Política julga resultados e valores.

Didaticamente podemos aproximar:

Religião / Legislativo → que amanhã queremos tornar possível?

Ciência / Executivo → o que vamos fazer agora?

Política / Judiciário → como julgamos aquilo que aconteceu?

Não são equivalências institucionais.

São operações.

Todos nós imaginamos.

Fazemos.

Julgamos.

O problema aparece quando uma função deixa de conversar com as demais.

Imaginar sem reencontrar o território pode virar dogma.

Fazer sem julgar pode virar máquina.

Julgar sem conseguir imaginar ou construir alternativas pode virar paralisia.

Votar com consciência - e Consciência

Essa questão ganha particular força entre jovens expostos diariamente a cortes de vídeo, slogans, memes, discursos religiosos, promessas econômicas e identidades políticas.

Este texto não pretende dizer a ninguém em quem votar.

A pergunta é anterior:

como produzimos nosso próprio julgamento?

Porque uma narrativa política pode mudar Tekoha.

Pode produzir medo.

Esperança.

Raiva.

Pertencimento.

Isso é real.

Mas sentir intensamente algo não significa que nossa interpretação sobre aquilo que está fora esteja necessariamente correta.

Por isso APUS precisa continuar encontrando o território.

Uma formulação simples talvez ajude:

Sentir é real. A interpretação ainda precisa ser testada.

É aqui que alfabetização midiática, checagem de fatos e educação científica tornam-se também práticas de autonomia perceptiva.

Não para ensinar aos jovens o que devem pensar.

Mas para aumentar sua capacidade de reconhecer por que estão pensando aquilo que estão pensando e o que, no território, pode sustentar ou contrariar esse julgamento.

Jiwasa - o homem de milho não existe sozinho

O milho também nos conduz a uma última pergunta.

Ele não existe sozinho.

Depende de água.

Solo.

Luz.

Microrganismos.

Outras espécies.

Tempo.

Trabalho.

Talvez Jiwasa precise ultrapassar a fronteira humana.

Árvore não precisa transformar-se em fungo.

Fungo não precisa tornar-se animal.

Cavalo não precisa tornar-se cavaleiro.

Uma pessoa não precisa pensar exatamente como outra.

Jiwasa é pertencer sem exigir que todas as posições se tornem a nossa.

Um bioma existe justamente porque diferenças conseguem continuar relacionadas.

Talvez democracia também dependa disso.

Podemos julgar valores de maneiras diferentes.

Mas precisamos manter alguma possibilidade de reencontrar um território compartilhável.

Jiwasa permite diferença de julgamento; não exige diferença de realidade.

Talvez o homem de barro imagine que não pertence ao planeta.

O homem de madeira consiga sustentar narrativas mesmo depois que elas se afastaram dele.

Mas o homem de milho precisa voltar continuamente ao território.

Porque depende dele.

Come dele.

Respira-o.

Move-se nele.

Compartilha-o com outras vidas.

Talvez transcendência não seja abandonar esse território.

Talvez seja retornar a ele transformado, capaz de perceber aquilo que antes ainda não conseguíamos perceber.

Porque o ambiente nunca foi apenas cenário.

Ele participa continuamente da configuração daquele que consegue dizer: “eu estou aqui”.

Referências

González Suárez, L. (2023). El ser del hombre a la luz del Popol Vuh. Análisis fenomenológico-hermenéutico. LiminaR, 21(1), e948.
Analisa as figuras do barro, madeira e milho e a concepção de humano presente no Popol Wuj.

Wei, D., Li, G., Li, P., Wang, M., Li, Y., & Song, W. (2026). Restorative lighting–color ambience and experience in underground transit spaces: Evidence from VR and fNIRS. Transportation Research Interdisciplinary Perspectives, 39, 102203.
Estudo central para a discussão ambiental: utiliza realidade virtual, diferentes níveis de iluminância e configurações cromáticas combinadas a avaliações subjetivas e fNIRS para investigar como mudanças no ambiente luminoso participam da experiência e da dinâmica cortical.

Farias Diniz, R., Moisés, J., Barbosa, D. A., & Costa, A. L. F. (2023). Environmental Psychology in Latin America: an analysis of open access scientific production. Revista Interamericana de Psicología, 57(3), e1844.
Mapeia a produção latino-americana sobre relações pessoa-ambiente e mostra a consolidação regional desse campo.

Mardones, R. E., & Berroeta, H. (2024). Environmental Psychology in Latin America: Trends and invisibilities in mainstream scientific production. Revista Interamericana de Psicología, 58(2), e1994.
Discute tendências e invisibilidades da Psicologia Ambiental produzida na América Latina.

Francica, C. (2024). Afectos y estéticas del “cuerpo-territorio”. Estudios Filológicos, 74, 325–349.
Analisa produções artísticas chilenas que articulam corpo, território, memória, contaminação, cuidado, afetos e relações mais-que-humanas.

Zanin, C. A., & Fenelon, T. M. T. (2024). Alfabetização midiática por meio da checagem de fatos: uma proposta de pesquisa-ação. Comunicação & Educação, 29(2), 201–217.
Apresenta a checagem de fatos como prática de formação crítica e alfabetização midiática entre estudantes.

Guazina, L. S. (2023/2024). Alfabetização midiática e informacional no combate à desinformação e à violência nas escolas: uma proposta de agenda. Comunicação & Educação, 28(2), 20–32.
Relaciona educação midiática, cidadania e formação crítica diante de ambientes informacionais marcados pela desinformação.

BrainLatam (2026). APUS e Tekoha — como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo.
Desenvolve APUS e Tekoha como janelas conceituais para a dinâmica entre movimentos externos e internos do Corpo-Território.

BrainLatam (2026). A Consciência é um movimento que se percebe Ser.
Integra APUS, Tekoha, Corpo-Território e Consciência 5D na hipótese de que consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States