Jackson Cionek
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Indigenous Voices - Neuroscience

Indigenous Voices - Neuroscience

Um experimento corporal antes de qualquer teoria

Antes de ler este texto, faça três coisas simples.

1. Respire lentamente por 10 segundos.
2. Sinta o peso do seu corpo na cadeira.
3. Observe se você sente que pertence ao lugar onde está.

Algo muda no corpo quando sentimos pertencimento.

A respiração desacelera.
Os músculos relaxam.
A atenção se abre.

Esse pequeno exercício revela algo profundo: a mente não começa no cérebro isolado. Ela começa na relação entre corpo, ambiente e outros seres humanos.

É exatamente esse ponto que está emergindo em um novo debate da neurociência internacional: Indigenous Voices in Neuroscience.


Indigenous Voices in Neuroscience
Indigenous Voices in Neuroscience

Experimento 1 – O corpo sabe antes da teoria

Imagine que você entra em uma sala onde ninguém o conhece.

Seu corpo imediatamente começa a avaliar:

  • Estou seguro?

  • Sou aceito aqui?

  • Posso relaxar?

Essa avaliação acontece antes de qualquer pensamento consciente.

A neurociência hoje chama isso de:

  • regulação interoceptiva

  • cognição incorporada

  • neurobiologia social

Mas muitas culturas indígenas sempre entenderam isso de forma mais simples:

o corpo sente o território.

Pesquisas recentes mostram que redes cerebrais associadas à interocepção e ao processamento social participam diretamente da sensação de pertencimento e regulação emocional (Khalsa et al., 2022).


Experimento 2 – Dois cérebros, um ritmo

Agora faça outro teste.

Respire profundamente por alguns segundos.

Depois converse com alguém próximo.

Observe algo curioso:
quando duas pessoas conversam com atenção, seus cérebros começam a sincronizar padrões de atividade.

Esse fenômeno é conhecido como sincronia inter-cérebro e tem sido estudado com EEG e fNIRS em pesquisas de hyperscanning (Czeszumski et al., 2020; Liu et al., 2023).

Esses estudos mostram algo importante:

a mente humana funciona melhor quando conectada a outras mentes.

Muitos povos originários descrevem essa experiência como vida em relação, não como indivíduos isolados.


Experimento 3 – O território regula o cérebro

Agora imagine duas situações.

Situação A
Você está em um lugar onde conhece as pessoas e sente pertencimento.

Situação B
Você está em um ambiente hostil e desconhecido.

O cérebro reage de forma diferente.

Pesquisas em neurociência ambiental mostram que o ambiente físico e social pode modular redes cerebrais relacionadas à emoção, atenção e regulação fisiológica (Berman et al., 2021; Bratman et al., 2022).

Isso significa que o cérebro não está separado do mundo.

Ele é parte do ambiente em que vive.


O que “Indigenous voices in neuroscience” está mudando

A iniciativa discutida pela FALAN e pela rede ALBA-IBRO coloca uma pergunta importante:

Quem formula as perguntas da neurociência?

Durante muito tempo, a maioria das pesquisas foi conduzida em populações chamadas WEIRD:

  • Western

  • Educated

  • Industrialized

  • Rich

  • Democratic

Hoje sabemos que isso limita a compreensão da mente humana (Henrich, 2020).

Quando pesquisadores indígenas entram na ciência, novas perguntas aparecem:

  • Como o território regula o corpo?

  • Como o pertencimento molda a consciência?

  • Como a cooperação molda a cognição?

Essas perguntas aproximam a ciência de algo que muitas tradições já sabiam:

a mente é relacional.


A convergência inesperada

Curiosamente, vários campos científicos modernos estão chegando a conclusões semelhantes:

  • cognição incorporada

  • neurociência social

  • teoria do cérebro preditivo

  • estudos de hyperscanning

  • neurociência ambiental

Todos apontam para a mesma direção:

o cérebro não funciona isolado.

Ele funciona em redes que incluem:

  • o corpo

  • outras pessoas

  • o ambiente

  • o território

Essa convergência entre ciência contemporânea e saberes originários pode abrir novas formas de investigação científica.


Um último experimento

Antes de terminar este texto, faça algo simples.

Respire profundamente.

Observe novamente o espaço ao seu redor.

Perceba que você não está apenas em um lugar.

Você está participando de um lugar.

Talvez seja isso que as vozes indígenas estejam lembrando à neurociência:

A consciência não é apenas atividade cerebral.

Ela é vida em relação.


Referências científicas (pós-2021)

Berman, M. G., et al. (2021). The cognitive benefits of interacting with nature. Psychological Science.

Bratman, G. N., et al. (2022). Nature and mental health: An ecosystem service perspective. Science Advances.

Czeszumski, A., et al. (2020). Hyperscanning: A valid method to study neural inter-brain synchronization. Social Cognitive and Affective Neuroscience.

Henrich, J. (2020). The WEIRDest People in the World. Farrar, Straus and Giroux.

Khalsa, S. S., et al. (2022). Interoception and mental health: A roadmap. Biological Psychiatry.

Liu, D., et al. (2023). Inter-brain synchronization in social interaction. Nature Human Behaviour.

Pereira Jr., A., & Furlan, F. A. (2021). Triple-aspect monism and the science of consciousness. Frontiers in Psychology.

Damasio, A. (2021). The feeling of life itself and the construction of consciousness. Nature Reviews Neuroscience.






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States