Jackson Cionek
6 Views

IRDA IRTA em repouso - o que o EEG lento acende e apaga no BOLD

IRDA/IRTA em repouso: o que o EEG lento “acende” e “apaga” no BOLD — comentário BrainLatam sobre Feige et al. (BPS: Global Open Science, 2025)

1) A pergunta científica

A pergunta central é: quando aparecem eventos de IRDA/IRTA (atividade rítmica intermitente em delta/theta) no EEG de repouso, quais regiões do cérebro mostram mudanças funcionais no BOLD — e o que é comum versus específico entre diferentes etiologias (autoimune vs psiquiátrica primária)?

Em termos práticos: IRDA/IRTA é apenas “lentificação inespecífica” ou é um marcador de dinâmica de rede (excitabilidade/compensação) que se manifesta de forma mapeável no cérebro?


IRDA IRTA em repouso - o que o EEG lento acende e apaga no BOLD
IRDA IRTA em repouso - o que o EEG lento acende e apaga no BOLD

2) O experimento

Os autores usam um desenho EEG-fMRI de repouso transdiagnóstico com grande amostra para esse tipo de pergunta:

  • 135 datasets com qualidade:

    • APS (suspeita de síndrome psiquiátrica autoimune): 33

    • BPD (transtorno de personalidade borderline): 59

    • controles saudáveis: 43

O fMRI foi adquirido com MREG ultrarrápido (TR ~100 ms), justamente para amostrar e controlar melhor componentes fisiológicos rápidos e reduzir ambiguidades de ruído. No EEG, eles:

  • removem artefatos (GA/BCG/EOG) e separam componentes por ICA

  • detectam IRDA/IRTA de forma algorítmica

  • transformam os eventos detectados em um regressor com HRF canônica para mapear BOLD correlato

A análise ocorre em dois níveis:

  1. consenso transdiagnóstico (áreas presentes nas três coortes)

  2. clusters adicionais específicos por grupo (APS e BPD), excluindo sobreposição com o consenso.


3) Por que esse experimento responde a pergunta

Ele responde por três razões:

  1. Transdiagnóstico real: não parte de uma única doença; parte do fenômeno EEG (IRDA/IRTA) e pergunta “qual rede aparece junto”.

  2. Evento-a-evento: não é “EEG global”; é acoplamento entre ocorrências de IRDA/IRTA e flutuações BOLD.

  3. Separação entre comum e específico: o consenso mostra o que é provavelmente do fenômeno, e os clusters adicionais sugerem modulação por etiologia/organização clínica.


4) O que os resultados mostram (síntese objetiva)

Eles encontram 11 áreas de consenso associadas a IRDA/IRTA, algumas com aumento e outras com redução de atividade BOLD.

  • Aumentos (5 áreas) incluem regiões sensório-motoras/temporais/cíngulo (ex.: BA2, BA4, BA43, BA18 direita, BA26/29/30 direita).

  • Reduções (6 áreas) incluem regiões frontais e parietais associativas e cíngulo posterior (ex.: BA10 bilateral, BA39 esquerda, BA23 esquerda, BA19/BA18 esquerdas).

Além disso:

  • APS mostra 5 clusters adicionais, todos de redução (padrão mais “espalhado” de hipoatividade extra).

  • BPD mostra 1 cluster adicional de aumento em BA17 esquerda (visual primário).

Eles também relatam associações exploratórias entre densidade de IRDA/IRTA e alguns escores psicométricos (atenção/fala em APS; “frankness impairment” em BPD), sugerindo relevância clínica potencial.


5) Leitura BrainLatam — APUS (propriocepção estendida)

Nós lemos os aumentos em regiões sensório-motoras e áreas relacionadas a orientação/integração como um sinal de que IRDA/IRTA não é “sono no cérebro”, mas um estado em que o sistema tenta reorganizar prontidão corporal. Em outras palavras, o APUS (propriocepção estendida) pode estar sendo puxado para um modo de “estabilização”: corpo e ação são recalibrados enquanto a rede tenta manter coerência.

O dado importante aqui é que há coativação motora/somestésica junto com componentes que lembram redes de saliência/integração. Isso sustenta a leitura de IRDA/IRTA como dinâmica de rede, não apenas lentificação isolada.


6) Leitura BrainLatam — Tekoha (interocepção estendida)

Do ponto de vista do Tekoha, IRDA/IRTA pode ser entendido como uma assinatura de regulação interna em modo de compensação: algo “excita” localmente e o sistema amplia uma resposta de contenção/redistribuição.

O padrão misto “aumentos + reduções” encaixa bem nessa leitura: quando certas áreas “acendem”, outras “apagam”, sugerindo um reequilíbrio do organismo em rede. A interpretação dos autores via hipótese LANI (inibição local como resposta homeostática a hiperexcitabilidade) conversa diretamente com isso: excitação e compensação coexistem, e o resultado clínico depende de onde a rede perde funcionalidade.


7) Limites que definem o próximo experimento

  • Causalidade: o estudo mapeia correlação IRDA/IRTA–BOLD, mas não separa claramente o que é causa, consequência ou co-modulação por estado fisiológico.

  • Heterogeneidade transdiagnóstica: APS e BPD diferem em idade/sexo/medicação; isso é parte do mundo real, mas pode modular redes e IRDA/IRTA.

  • Detecção no scanner: EEG no MRI é mais ruidoso; embora ICA + pipeline reduzam artefatos, a sensibilidade e especificidade do detector é sempre um ponto crítico.

  • HRF canônica: IRDA/IRTA pode ter acoplamento hemodinâmico variável; modelos mais flexíveis poderiam capturar diferenças temporais.


8) Tradução BrainLatam para o mundo orgânico

Tradução BrainLatam para o mundo orgânico: este estudo mostra que um fenômeno EEG clínico “fácil de ver” (IRDA/IRTA) tem um correlato de rede mapeável no BOLD — com um núcleo transdiagnóstico e variações por etiologia. Isso abre caminho para usar IRDA/IRTA como marcador funcional de estado: não para rotular diagnósticos, mas para indicar quando o cérebro está operando em modo de excitabilidade/compensação que pode impactar atenção, fala, percepção e regulação emocional.


9) Pergunta aberta BrainLatam

Se IRDA/IRTA é uma dinâmica de rede com “acender/apagar” simultâneo, qual é o melhor próximo experimento:

  • testar se intervenções (anticonvulsivantes, imunoterapia, neuromodulação, respiração/HRV) reduzem IRDA/IRTA e normalizam esses clusters, e

  • verificar se a mudança de rede prevê melhora clínica melhor do que apenas “presença/ausência” de IRDA/IRTA?

O corpo não precisa de crença para funcionar.
Ele precisa de espaço, movimento e regulação.

Ref.:

Feige, B., Zedtwitz, K. von, Matteit, I., Coenen, V. A., Nickel, K., Runge, K., Harald Prüss, Rau, A., Reisert, M., Matthies, S., Maier, S. J., & Elst, van. (2025). Functional brain activity associated with intermittent rhythmic delta/theta activity: A transdiagnostic EEG-fMRI resting state study. Biological Psychiatry Global Open Science, 100661–100661. https://doi.org/10.1016/j.bpsgos.2025.100661

#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States