Jackson Cionek
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Microgravidade vs HDBR no EEG

Microgravidade vs HDBR no EEG: a pergunta, o experimento e o que o beta sugere sobre propriocepção — comentário sobre Sevilla-García et al. (Scientific Reports, 2025)

1) A pergunta científica

A pergunta central é: HDBR de 60 dias (−6° head-down tilt) modela, no EEG, os efeitos da microgravidade real no cérebro humano? Em outras palavras, o estudo testa se o HDBR pode ser usado como análogo terrestre confiável para mudanças neurofisiológicas observáveis em voo espacial.


Microgravidade vs HDBR no EEG
Microgravidade vs HDBR no EEG

2) O experimento

Os autores comparam EEG em repouso (olhos fechados) em três conjuntos de dados:

  • Dois estudos HDBR de 60 dias (ESA/DLR “Cocktail” e “RSL”), com participantes do grupo controle (sem contramedidas). EEG com 32 canais, registros pré/durante/pós, com gravações durante HDBR em posição inclinada (−6°).

  • NEUROSPAT (ISS) com astronautas em missão longa, com registros pré-voo, em voo e pós-voo.

  • Para padronizar a comparação, reduzem o ISS aos mesmos 32 canais do HDBR e aplicam pré-processamento, reconstrução de fontes (eLORETA) e análise de potência relativa por bandas (delta, theta, alpha, beta, gamma), comparando fases (pré, durante, pós) separadamente em cada dataset.


3) Por que esse experimento responde a pergunta

O experimento responde porque usa a mesma métrica (potência relativa por banda em repouso) para perguntar se as mudanças em HDBR e em microgravidade apontam na mesma direção. Se HDBR fosse um análogo completo, esperaríamos padrões convergentes de bandas e regiões ao comparar “durante” vs “pré/pós” nos dois ambientes.

O resultado, porém, indica padrões diferentes entre HDBR e ISS:

  • No HDBR, houve aumento de potência relativa em delta (2–4 Hz) e theta (4–8 Hz) ao longo do bed rest, sobretudo em regiões temporais esquerdas e parieto-occipitais.

  • No ISS, houve aumento de potência relativa em beta (12–30 Hz) durante o voo, localizado principalmente no córtex somatossensorial esquerdo.

Essa divergência sustenta a conclusão central: HDBR simula alguns aspectos, mas não reproduz todas as mudanças do SNC, especialmente as relacionadas a propriocepção e controle motor em microgravidade real.


4) Leitura BrainLatam — APUS (propriocepção estendida)

Nós lemos o aumento de beta em regiões somatossensoriais no voo como um sinal de reorganização do APUS: em microgravidade, o corpo precisa recalibrar o mapa de postura e ação sem o acoplamento gravitacional habitual. Beta, nesse contexto, pode refletir maior exigência de estabilização sensório-motora, ajuste de previsões corporais e adaptação a input proprioceptivo alterado.

Já o padrão de delta/theta aumentado no HDBR parece mais compatível com um estado prolongado de baixa demanda sensório-motora e restrição de movimento, o que não é equivalente ao problema sensorimotor da microgravidade (onde há necessidade contínua de adaptação dinâmica).


5) Leitura BrainLatam — Tekoha (interocepção estendida)

O HDBR também altera fortemente o Tekoha: mudança de fluidos, desconforto, sono, monotonia e imobilização prolongada podem empurrar o repouso EEG para bandas lentas. Isso pode explicar por que HDBR mostra um “deslocamento” para delta/theta enquanto o voo destaca beta em áreas mais diretamente ligadas ao sensorimotor.


6) Limites e variáveis que interferem na comparação

Alguns elementos do próprio desenho ajudam a entender por que os padrões podem divergir:

  • As condições corporais de registro não são idênticas: pré/pós em geral ocorrem sentado, durante HDBR ocorre em tilt, e no voo ocorre em free-floating com contenção.

  • O número de participantes em voo é pequeno (limitação típica de estudos em ISS) e menos diverso.

  • Faltam marcadores paralelos (cognição, vestibular, autonômico, desempenho motor) para separar “estado interno” de “recalibração sensorimotora”.


7) Tradução BrainLatam para o mundo orgânico

Tradução BrainLatam para o mundo orgânico: este estudo mostra que “simular microgravidade” não é apenas simular fluid shift ou postura. Microgravidade real parece exigir uma reorganização do sistema sensorimotor (APUS) que não aparece do mesmo modo no HDBR. Por isso, HDBR pode ser útil para certos eixos fisiológicos, mas pode não capturar plenamente adaptações centrais ligadas à propriocepção e controle motor.


8) Pergunta aberta BrainLatam

Quais medidas mínimas devem acompanhar o EEG para separar com clareza:
(a) efeitos de postura/imobilização e estado interno (Tekoha) de
(b) efeitos de recalibração sensorimotora específica da microgravidade (APUS)?

O corpo não precisa de crença para funcionar.
Ele precisa de espaço, movimento e regulação.

Ref.:

‌Sevilla-García, M., Quivira-Lopesino, A., Cuesta, P., Pusil, S., Bruña, R., Fiedler, P., Maestu, F., Cebolla, A. M., Cheron, G., Brauns, K., Stahn, A. C., & Funke, M. E. (2025). Brain power comparison between microgravity and head-down tilt bed rest: an electroencephalography approach. Scientific Reports, 15(1). https://doi.org/10.1038/s41598-025-26291-8

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Jackson Cionek

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