Jackson Cionek
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Quem colocou essa verdade dentro de mim?

Quem colocou essa verdade dentro de mim?

O sentir prova a experiência consciente, mas não a verdade do que sentimos. Entre pixels, algoritmos e narrativas, quem participa da construção do nosso Ser?

Você já acreditou em algo porque todos acreditavam?

Imagine receber um vídeo no celular.

Uma pessoa fala com convicção. A música provoca emoção. Milhares de comentários confirmam a mesma história.

Você sente alguma coisa.

Talvez indignação, esperança, medo ou pertencimento.

Agora imagine encontrar aquela mensagem novamente amanhã. Depois, em outro perfil. Seus amigos começam a repeti-la.

A história ganha familiaridade.

Em algum momento, você percebe que já consegue defendê-la.

Mas quero fazer uma pergunta:

Em que momento aquilo que sentimos passou a ser interpretado como prova daquilo que é verdadeiro?

Essa pergunta não pretende retirar o valor de suas emoções.

Pelo contrário.

Quero investigar com você como elas participam da nossa existência e como podemos aprender a perceber diferentemente.

O sentir prova a consciência, mas não a verdade

Quando você sente medo, seu medo participa de sua experiência consciente.

Quando sente alegria, essa alegria é vivida em seu Corpo-Território.

Na formulação filosófica que desenvolvemos na BrainLatam, o sentir testemunha a experiência de Ser.

Mas podemos sentir intensamente algo baseado em uma interpretação equivocada.

Imagine despertar assustado depois de um sonho.

Seu coração acelera. A respiração muda. A emoção é real.

Entretanto, o acontecimento sonhado pode não ter ocorrido fora daquela experiência.

O sentir testemunha a experiência consciente; não comprova, sozinho, a verdade da narrativa que a acompanha.

Essa distinção pode abrir uma liberdade extraordinária.

Podemos reconhecer nossas emoções, acolhê-las e investigar os acontecimentos que acreditamos explicá-las.

Nossa percepção já é um recorte da realidade

Olhe ao seu redor.

Você percebe cores, formas, sons e movimentos.

Seus órgãos sensoriais transduzem estímulos. Seu sistema nervoso participa de processos que integram experiências, memórias e expectativas.

Enquanto lê estas palavras, inúmeros acontecimentos continuam ocorrendo fora do seu foco atencional.

Alguns estímulos podem participar da configuração perceptiva mesmo sem ocupar o centro de sua atenção.

Na BrainLatam, investigamos o Corpo-Território como unidade integrada dessa experiência.

O mundo possui muito mais relações e acontecimentos do que conseguimos perceber simultaneamente.

Nossa percepção constitui, portanto, um recorte situado da realidade.

E esse recorte pode ser ampliado.

Cada aprendizado oferece novas maneiras de reconhecer aquilo que já estava acontecendo.

A tela apresenta o recorte do recorte

Agora olhe para seu celular.

Uma câmera selecionou um enquadramento.

Alguém decidiu quando gravar, onde cortar, que palavras acrescentar e quais imagens apresentar.

Sistemas digitais transformaram informações em sinais reproduzidos por pixels.

Seus olhos recebem luz. Seu organismo realiza a transdução sensorial.

Você experimenta uma representação da realidade produzida por escolhas anteriores.

A tela apresenta um recorte tecnológico que percebemos através do nosso próprio recorte perceptivo: o recorte do recorte.

Aquela imagem pode informar, ensinar e emocionar.

Também pode omitir contextos, combinar acontecimentos diferentes ou produzir uma ilusão convincente.

Por isso, confiar nas fontes significa investigar sua origem, seus métodos, suas evidências e a possibilidade de confrontá-las.

Por que aquela informação apareceu para você?

Imagine dois jovens abrindo a mesma rede social.

Um encontra vídeos sobre astronomia. Outro recebe conteúdos sobre determinado conflito ou celebridade.

Os dois habitam o mesmo planeta.

Mas recebem diferentes seleções de acontecimentos.

Plataformas podem utilizar históricos de interação, características dos conteúdos e outros sinais para organizar recomendações.

Seus objetivos comerciais frequentemente incluem manter o usuário envolvido, ampliar interações e gerar oportunidades de publicidade.

Sua atenção possui valor econômico.

E aquilo que aparece repetidamente pode influenciar o repertório de perguntas disponíveis.

Somos massificados pelas escolhas que não tivemos.

Agora imagine conhecer também os conteúdos que nunca chegaram à sua tela.

Quantas novas possibilidades de interpretar o mundo poderiam surgir?

Repetir pode fazer parecer verdadeiro

Você conhece uma música que inicialmente parecia estranha?

Depois de ouvi-la várias vezes, começou a cantar sem perceber.

Nosso organismo aprende também pela repetição.

Na psicologia, o chamado efeito de verdade ilusória descreve a tendência de determinadas afirmações repetidas parecerem mais verdadeiras devido à familiaridade.

Isso não significa que toda repetição produza crença nem que aprender por repetição seja prejudicial.

A repetição pode ajudar a memorizar conhecimentos verdadeiros.

O desafio surge quando a familiaridade ocupa o lugar da verificação.

Uma narrativa repetida pelo grupo também pode favorecer conformidade social.

Talvez você concorde para continuar pertencendo.

E talvez comece a interpretar a concordância coletiva como prova.

Muitas pessoas repetindo algo não transformam, por si só, essa afirmação em realidade.

Os games também ensinam maneiras de Ser

Imagine jogar com seus amigos.

Vocês aprendem regras, experimentam estratégias, cooperam, competem e encontram soluções.

Seu corpo participa emocionalmente de cada desafio.

Os games podem desenvolver conhecimentos, habilidades e relações importantes.

Também apresentam mundos organizados por escolhas de designers: recompensas, punições, possibilidades de ação e objetivos.

Você aprende o que funciona dentro daquele sistema.

Agora imagine transportar automaticamente essas regras para outras experiências.

Será que aquilo que permite vencer uma partida também permite compreender uma amizade, uma comunidade ou um território?

Podemos aprender com os jogos e investigar os limites de suas representações.

O mundo vivido oferece possibilidades que nenhum sistema de regras consegue antecipar completamente.

A escola e as instituições também selecionam narrativas

Pense na primeira vez em que alguém lhe explicou o significado de uma palavra importante.

Liberdade. Ciência. Estado. Justiça. Religião.

Você aprendeu dentro de uma cultura, de uma língua e de uma história.

Professores, famílias, instituições e comunidades participam da transmissão de conhecimentos.

Esse processo pode ampliar nossas possibilidades de Ser.

Também envolve escolhas sobre aquilo que será ensinado, investigado e valorizado.

Podemos respeitar nossos professores e antepassados enquanto aprendemos a formular perguntas diferentes.

Na BrainLatam, propomos:

Podemos respeitar nossos antepassados sem reduzir nosso Ser aos limites do que lhes foi possível perceber.

A educação pode oferecer conhecimentos e, simultaneamente, ampliar a autonomia de quem aprende.

O Homem de Madeira e a conformidade

Você se lembra do Homem de Madeira?

Ele aprendeu imitando gestos, crenças e narrativas.

Encontrou segurança e reconhecimento em um ótimo local semântico-afetivo.

Agora imagine que sua rede social apresente continuamente mensagens semelhantes àquelas em que acredita.

Cada repetição fortalece a familiaridade.

Cada aprovação coletiva oferece pertencimento.

Nosso Homem de Madeira pode transformar essa experiência em fé cega, passando a executar a narrativa como parte rígida de sua identidade.

O seguidor deixou de Ser.

Mas existe outra possibilidade.

Ele pode conhecer experiências diferentes, experimentar novas perguntas e transformar suas interpretações.

Seu pertencimento pode continuar participando da aprendizagem.

A Mata Atlântica não tinha uma tela escolhendo meu caminho

Entrei na Mata Atlântica descalço, vestindo apenas um calção.

Ao sair da trilha, encontrei raízes, folhas e galhos emaranhados.

Precisava proteger minha pele e preservar a vegetação.

Em alguns momentos, rastejei.

Minhas mãos encontravam apoios. Meus pés reconheciam o terreno.

Cada movimento revelava outra possibilidade.

Ali experimentei intensamente:

Perceber o que se pode.

Nenhuma tela havia selecionado previamente todos aqueles caminhos.

Meu Corpo-Território aprendia enquanto se movimentava em relação ao bioma.

Agora imagine utilizar essa experiência para navegar pelas informações digitais.

Podemos explorar outras fontes, reconhecer novas interpretações e descobrir caminhos que ainda não havíamos percebido.

IA Personalíssima: os dados podem voltar a quem os produz

Imagine uma inteligência artificial que apresente informações acompanhadas de suas fontes.

Você pergunta por que recebeu determinada recomendação.

Ela ajuda a comparar evidências, reconhecer divergências e identificar informações ausentes.

Você pode contestar conclusões e participar das decisões.

Essa é uma possibilidade que investigamos na proposta BrainLatam de IA Personalíssima.

Ela seria uma interface vinculada ao Corpo-Território para compreender e participar dos fluxos de dados que o envolvem, com proteção de direitos e governança adequada.

Na nossa arquitetura, o Corpo-Território constitui a unidade mínima e parte indivisível do Estado.

O Drex Cidadão e o Rendimento Bioma integram essa investigação sobre autonomia, participação econômica e sustentação da vida.

A tecnologia pode ampliar nossa capacidade de interpretação.

A decisão sobre quem podemos Ser continua exigindo nossa participação.

Jiwasa: aprender com outros sem entregar o próprio Ser

Na BrainLatam, investigamos o Jiwasa como agência compartilhada.

Imagine conversar com alguém que interpreta o mesmo acontecimento de maneira diferente.

Vocês apresentam experiências, perguntam, investigam e aprendem.

Talvez ambos descubram possibilidades que antes não percebiam.

É nesse movimento que dialogamos com nossa interpretação estendida do Yãy hã mĩy:

Imitar Ser para transcender-se Ser.

Podemos aprender com o outro e continuar construindo nossa própria percepção.

Agora retorne ao vídeo que abriu nossa conversa.

Você ainda pode sentir sua emoção.

Pode também investigar sua origem, conhecer outras fontes e transformar aquilo que compreendeu.

Somos herdeiros do passado, participantes do presente e corresponsáveis pelos futuros que tornamos possíveis para os próximos Corpos-Territórios.

Sentir é participar da experiência de Ser. Investigar é ampliar as possibilidades de compreender. Aprender é poder perceber diferentemente.

E agora a pergunta pertence a você:

Se nossa percepção já é um recorte da realidade, quem está escolhendo os recortes que chegam até nós — e como podemos participar dessas escolhas para continuar transcendendo-nos Ser?

Referências científicas e culturais comentadas

Cetic.br / NIC.br / CGI.br (2026). TIC Kids Online Brasil 2025. Pesquisa brasileira sobre acesso, usos, oportunidades e riscos da internet para pessoas de 9 a 17 anos. A edição incorpora indicadores de IA generativa e contribui para discutir autonomia, informação, aprendizagem e direitos digitais.

Cetic.br / NIC.br / CGI.br (2025). Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024. Reúne dados e análises sobre plataformas, jogos digitais, proteção da infância e educação digital, oferecendo um retrato brasileiro dos ambientes informacionais frequentados pelos jovens.

UNESCO, com experiência educacional colombiana (2024). Media and Information Literacy Curricula Piloted in Colombian Classrooms. Descreve um projeto de alfabetização midiática realizado em escolas e instituições de ensino da Colômbia, promovendo avaliação crítica de fontes e participação dos estudantes na compreensão da informação.

UNESCO / Instituto Internacional de Planejamento Educacional, Escritório para a América Latina. Planejamento educacional e tecnologias digitais na América Latina. Discute políticas educacionais, inclusão digital e o papel da educação na produção de conhecimentos e na participação cidadã.

Mattavelli, S.; Béna, J.; Corneille, O.; Unkelbach, C. (2024). People underestimate the influence of repetition on truth judgments. Cognition, 242, 105651. Referência internacional complementar: investiga experimentalmente como a repetição influencia avaliações de veracidade, oferecendo sustentação ao conceito de efeito de verdade ilusória.

UNESCO (2023). Diretrizes para a governança das plataformas digitais. Discute transparência, direitos humanos, acesso à informação e responsabilidades das plataformas, incluindo os efeitos dos modelos que priorizam engajamento e atenção.

BrainLatam (2026). Jiwasa — pertencer sem permanecer na mesma posição. Desenvolve a proposta autoral de agência compartilhada, preservando a singularidade de cada Corpo-Território diante de narrativas e instituições.

BrainLatam (2025). Yãy hã mĩy — Imitar-se Ser para Transcender-se Ser. Fundamenta a interpretação filosófica estendida sobre aprendizagem, imitação e a possibilidade de transformar a própria experiência de Ser.

BRAINLATAM · W43/2026 · O PROBLEMA DOS 3 CORPOS





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States